Crise no STF: veja a linha do tempo do conflito entre ministros
Decisões sobre a Polícia Federal e investigações envolvendo o Banco Master ampliam o embate dentro da Corte.

Ministros adotam decisões sucessivas em meio ao agravamento do impasse institucional. Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil
O Supremo Tribunal Federal (STF) enfrenta uma das maiores crises institucionais de sua história, após os desdobramentos das operações Compliance Zero e Sem Desconto, da Polícia Federal (PF). As investigações apuram um esquema de fraudes financeiras e crimes contra aposentados do INSS envolvendo o Banco Master e seu fundador, Daniel Vorcaro.
O conflito entre ministros ganhou força após a divulgação de mensagens trocadas entre Vorcaro e Alexandre de Moraes em novembro de 2025. O conteúdo foi tornado público no dia 1º de setembro de 2026, por decisão do ministro André Mendonça.
A divulgação desencadeou uma sequência de decisões e pedidos de investigação entre integrantes da Corte, incluindo solicitações de investigação criminal e afastamento de funções judiciais.
Com o agravamento do impasse e a sobreposição de decisões monocráticas, o presidente do STF, Edson Fachin, adotou medidas nesta quarta-feira (9) para tentar conter a crise.
Fachin suspendeu decisões de André Mendonça e Flávio Dino relacionadas à cúpula da PF, deu prazo de 48 horas para o diretor-geral da corporação prestar esclarecimentos, retirou Moraes da condução da fase preliminar do inquérito das fake news e convocou uma sessão extraordinária do plenário.
Confira os principais acontecimentos:
• 15 de novembro de 2025: Dois dias antes de ser alvo de um mandado de prisão, Daniel Vorcaro troca mensagens com Alexandre de Moraes. O empresário questiona se uma operação policial seria iminente e pergunta: “Acha que 2ª tenho que estar fora?”.
Nas conversas, Vorcaro também cita o presidente indicado do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o “juiz Ricardo”.
• 16 de novembro de 2025: Vorcaro insiste em marcar um encontro presencial na residência de um deles. O empresário afirma estar perplexo e diz que as ações poderiam destruir seus negócios.
• 17 de novembro de 2025: A Polícia Federal prende Daniel Vorcaro em flagrante no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Segundo a investigação, o empresário tentava embarcar para o exterior em seu jatinho particular sob suspeita de tentativa de fuga.
A rede de monitoramento
A perícia realizada no celular de Vorcaro aponta que o banqueiro mantinha acesso, em tempo real, a informações sigilosas sobre investigações na 10ª Vara Federal do Distrito Federal e no Banco Central.
Em conversas, Vorcaro menciona a necessidade de obter “proteção de Andrei e Paulo”, identificados por delegados como o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
1º e 2 de setembro de 2026: queda do sigilo
• 1º de setembro de 2026: O ministro relator André Mendonça derruba o sigilo da Petição 16.662 e torna públicos os relatórios da PF que contêm as conversas entre Moraes e Vorcaro.
Mendonça também remete os autos para manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR). O ministro afirma que a transparência é a regra constitucional e aponta o plenário do STF como foro adequado para a análise técnica do processo.
• 2 de setembro de 2026: O Partido Novo protocola representação pedindo providências contra o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. A legenda o acusa de integrar a rede de influência de Vorcaro.
No mesmo período, vem a público que André Mendonça havia se reunido com Vorcaro em março de 2025, em uma empresa privada em São Paulo.
A assessoria do ministro confirma o encontro, realizado antes de Mendonça assumir a relatoria do caso, e afirma que a reunião foi estritamente institucional, para tratar de pleitos relacionados a precatórios.
Segundo a assessoria, todas as decisões posteriores de Mendonça foram contrárias ao banqueiro.
3 de setembro: confronto entre Moraes e Mendonça
Moraes pede investigação contra Mendonça
Alexandre de Moraes junta relatórios de inteligência ao Inquérito 4.781, conhecido como inquérito das fake news, e pede ao presidente do STF a abertura de investigação criminal contra André Mendonça.
Moraes atribui a Mendonça supostos crimes de responsabilidade, abuso de autoridade e improbidade.
Entre as acusações estão a suposta usurpação de funções da PF, falhas na custódia de mídias sensíveis que vazaram dados de senadores e perseguição a alvos políticos, como o senador Davi Alcolumbre e o próprio Moraes.
Mendonça pede afastamento de Moraes
Na mesma noite, André Mendonça vai ao gabinete de Edson Fachin e solicita formalmente o afastamento de Alexandre de Moraes de suas funções de ministro.
Fachin estabelece prazo
O presidente do STF instaura um procedimento oficial e concede cinco dias úteis para que autoridades do Supremo, da PGR e da PF apresentem informações por escrito sobre as representações.
6 a 8 de setembro: envio ao plenário e afastamento da cúpula da PF
• 6 de setembro de 2026: André Mendonça encaminha os autos da Petição 16.662 ao plenário do STF para que o colegiado analise os desdobramentos do caso envolvendo o Banco Master.
• 8 de setembro de 2026: Atendendo a pedido do Partido Novo e com base em relatórios da PF anexados por Moraes, Mendonça determina o afastamento preventivo do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada da Costa.
Mendonça afirma que a diretoria de inteligência teria realizado “monitoramento sistemático e ilícito” contra ele e contra o advogado-geral da União, Jorge Messias.
O ministro também aponta a elaboração de juízo correcional considerado indevido sobre decisões judiciais e o vazamento de informações de investigações.
Mendonça solicita ainda a convocação de sessão virtual da Segunda Turma para referendar a liminar.
9 de setembro: guerra monocrática e intervenção de Fachin
Dino revoga afastamento
Após recurso apresentado por Andrei Rodrigues, o ministro Flávio Dino suspende a decisão de Mendonça e reconduz a cúpula da PF aos cargos.
Dino argumenta que a paralisação do comando da Polícia Federal interessa aos investigados e viola o devido processo legal.
No despacho, o ministro volta a mencionar a reunião realizada entre Mendonça e Vorcaro.
Fachin intervém e suspende decisões conflitantes
Diante da sobreposição de decisões individuais, que classificou como um “inconciliável conflito de posições judiciais”, Edson Fachin adota uma série de medidas.
O presidente do STF acolhe pedido da Advocacia-Geral da União (AGU) na Suspensão de Liminar 1.946 e suspende tanto o afastamento determinado por Mendonça quanto a reintegração ordenada por Dino.
Com isso, Fachin mantém cautelarmente Andrei Rodrigues e Leandro Almada no comando da PF.
Diretor-geral da PF terá 48 horas para explicar relatórios
Fachin determina que Andrei Rodrigues apresente, em 48 horas, esclarecimentos detalhados sobre a elaboração dos relatórios de inteligência que avaliaram atos do Judiciário.
As informações serão utilizadas para subsidiar a decisão da Presidência do STF sobre a permanência do diretor-geral no cargo, com base na Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman).
Moraes deixa condução preliminar do inquérito das fake news
Por meio da Portaria 189/2026, Fachin revoga a delegação concedida a Alexandre de Moraes para conduzir a fase de investigação preliminar do Inquérito 4.781, conhecido como inquérito das fake news.
Com a medida, Fachin reassume a relatoria desses procedimentos preliminares na Presidência do STF.
Plenário extraordinário é convocado
Fachin convoca uma sessão extraordinária presencial do plenário do STF para 15 de setembro de 2026, às 10h.
Na ocasião, todos os ministros deverão analisar colegiadamente os relatórios relacionados a Vorcaro e definir os rumos da Petição 16.662 e do comando da Polícia Federal.
As denúncias apresentadas contra André Mendonça seguirão em procedimento administrativo próprio.
Paraiba.com.br





