‘Filhos de Bolsonaro são uns jumentos’, diz Malafaia após fuga de Flávio

O pastor Silas Malafaia enviou uma mensagem a aliados no aplicativo WhatsApp, nesta quarta-feira (28), chamando os filhos de Jair Bolsonaro de “jumentos”. A crítica ocorreu após o candidato derrotado à presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), se autoproclamar o “verdadeiro presidente eleito” do Brasil, mencionando uma “fraude eleitoral”, mesmo sem apresentar provas.
“Esses filhos de Bolsonaro são uns jumentos. Só se aconselham com gente errada! Faz carta, fala bobagem, depois corrige”, escreveu Malafaia, de acordo com a coluna Malu Gaspar, do Jornal O Globo. Em outro trecho da conversa, o pastor mencionou o presidente dos Estados Unidos, país para onde Flávio fugiu após a Polícia Federal confiscar seu passaporte. “[Donald] Trump já tirou o apoio. Deixei ele vir para a América, mas não me meto nessa questão. Um bando de amadores babacas.”
Malafaia foi um dos maiores aliados da candidatura de Flávio. No primeiro comício rumo as eleições 2026, em Copacabana, na Zona Sul do Rio, o pastor não esteve presente, mas gravou uma mensagem que foi reproduzida durante o ato. “Não posso estar aí, mas quero deixar claro meu apoio irrestrito para Flávio Bolsonaro e Douglas Ruas”, disse ele na ocasião, mencionando o candidato ao Governo do Estado, que foi eleito. O pastor também apoiou o ex-presidente, Jair, preso por tentativa de golpe de estado após perder as eleições em 2022.
Entenda
Mais cedo neste mesmo dia, Flávio divulgou uma carta, na qual confirmou ter deixado o Brasil com a família e se apresentou como “o verdadeiro presidente eleito”. No documento, o senador contestou o resultado das urnas, acusou autoridades brasileiras de perseguição política e prometeu organizar a oposição a partir dos EUA. O parlamentar foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial, que aconteceu neste domingo (25).
Na carta, Flávio sustentou que houve fraude eleitoral e questionou a decisão que ampliou até às 19h o horário de votação em todo o país. Ele afirmou que a medida teria alterado as regras durante o processo eleitoral e acusa o Supremo Tribunal Federal (STF) de ultrapassar as atribuições da Justiça Eleitoral.
Inicialmente, a carta de Flávio foi divulgada por Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho, jornalista, empresário, influenciador e comentarista político radicado nos Estados Unidos. Ele é neto do ex-ditador brasileiro, João Figueiredo.
Figueiredo foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) no inquérito que apura a tentativa de golpe de Estado e propagação de desinformação. Ele é considerado foragido da Justiça brasileira nos Estados Unidos e teve bens e passaporte bloqueados por decisões do STF.
Após a divulgação da primeira versão da carta, Figueiredo apagou e disse em seguida que “continha um erro que vai ser ajustado.”
Na primeira versão, o documento apareceu com o brasão do país escrito “Estados Unidos do Brazil”, depois mudando para “República Federativa do Brasil”. O Brasil mudou de nome em 15 de março de 1967, deixando de ser “Estados Unidos do Brasil” e adotando República Federativa do Brasil. Outro ponto é que Flávio na primeira versão se disse “presidente eleito” e depois modificou para “líder do Brasil”.
No documento, Flávio agradeceu ao presidente argentino, Javier Milei, ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e à população norte-americana. Ele afirma que encontrou nos Estados Unidos um ambiente de liberdade e segurança jurídica.
O senador disse que não pretendia deixar o Brasil, mas afirma temer o que classifica em uma perseguição política. Segundo sua versão, a intimação para entregar os passaportes seria parte de uma sequência de medidas que poderia terminar em restrições ainda mais severas, incluindo prisão domiciliar e condenação.
Flávio também afirmou que não existe mandado de prisão contra ele e nega ter cometido crimes. No documento, sustenta que pretende continuar atuando politicamente fora do país e se tornar uma das principais vozes da oposição ao novo governo.
O candidato derrotado é investigado por lavagem de dinheiro e evasão de divisas, junto com o advogado e amigo próximo Willer Tomaz, que também deixou o país rumo aos EUA, ainda antes da eleição. Mesmo com a fuga, os inquéritos aos quais Flávio responde no Supremo continuam a tramitar. Além da investigação relatada por Moraes, o parlamentar também é alvo de um inquérito no caso do Banco Master, sob relatoria do ministro André Mendonça.
Neste caso, ele é investigado por ter pedido ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo dono do Master, o equivalente a R$ 134 milhões, supostamente para financiar a produção do filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai. A solicitação da quantia foi identificada pela PF em mensagens extraídas do celular apreendido de Vorcaro.
Além de questionar o horário de votação, Flávio acusou a campanha de Lula de abuso de poder político e econômico e de utilizar a estrutura pública para favorecer a reeleição. Ele afirma que pretende pedir ao TSE a cassação da chapa formada por Lula e Geraldo Alckmin.
O senador também criticou o que chama de disseminação de notícias falsas pela campanha adversária e sustenta que houve desequilíbrio na disputa. Na carta, porém, não apresenta uma decisão judicial que reconheça as irregularidades que atribui ao presidente reeleito.
Flávio disse que pretende se reunir com deputados, senadores e governadores aliados para definir uma estratégia de oposição. Ele cita o senador Rogério Marinho (PL-RN), a quem identifica como seu candidato à Presidência do Senado. O parlamentar também diz que pretende usar sua atuação no exterior para expressar críticas que, segundo ele, os aliados não teriam liberdade para fazer no Brasil. Ele encerra o documento dizendo que a disputa política não terminou com a votação de 25 de outubro e promete divulgar novas manifestações nos próximos dias.
A carta ampliou as críticas do parlamentar ao Judiciário e afirma que a ordem faz parte de uma tentativa de silenciá-lo. Flávio também menciona investigações em andamento e acusa autoridades de utilizar os procedimentos judiciais para constrangê-lo. Ele nega irregularidades nos casos em que é citado.
Ao se declarar presidente eleito, Flávio apresentou uma posição política contrária ao resultado proclamado pela Justiça Eleitoral. O TSE, entretanto, reconheceu Lula como vencedor do segundo turno, com maioria dos votos válidos, e anunciou oficialmente sua reeleição, com 64.256.232 votos (51,79% dos válidos), contra 59.826.041 votos (48,21%) do senador.
Entretanto, no domingo, a campanha de Flávio também pediu ao TSE que a votação fosse estendida até as 19h. A ampliação nacional foi determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do STF. A carta, contudo, não apresenta comprovação de que a medida tenha alterado o resultado da eleição, já que dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que as urnas eletrônicas registraram 34.393 votos após às 17h. O número equivale a 0,027% do total de votos depositados durante todo o dia de segundo turno.
Aliados de Flávio reconhecem vitória de Lula
Por outro lado, lideranças de partidos que estiveram ao lado de Flávio Bolsonaro reconheceram a vitória de Lula. O presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, comentou o resultado nas redes sociais ainda na noite de domingo. Em publicação no X, ele afirmou que o novo governo deverá buscar entendimento com diferentes setores políticos e representar a população independentemente de suas escolhas nas urnas. Pereira também defendeu o diálogo com o Congresso Nacional.
Outro nome que se pronunciou foi o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD). Depois de disputar o primeiro turno e declarar apoio a Flávio na etapa final da eleição, ele também reconheceu o resultado divulgado pelas urnas.
Além disso, o presidente nacional do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto também reconheceu a vitória de Lula. Em nota, Valdemar afirmou que o partido reconhece o resultado proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas defendeu que os questionamentos sobre a disputa sejam esclarecidos. O dirigente, no entanto, não parabenizou Lula pela reeleição.
“Reconhecemos o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas entendemos que os questionamentos levantados precisam ser devidamente esclarecidos dentro de um debate político equilibrado e democrático”, declarou o presidente do PL.
Fuga para os EUA
A divulgação do documento ocorreu após Flávio deixar o Brasil, ao ter os passaportes requisitados por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), poucas horas depois do resultado. Na segunda (26),o senador foi intimado pela PF a entregar os documentos em até 24 horas, prazo que terminou ao meio-dia da terça (27). No entanto, a entrega não ocorreu dentro do período determinado. Ainda na terça, o senador deixou o Brasil com destino aos Estados Unidos.
O Dia




