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Suécia: países muçulmanos denunciam ‘incitação ao ódio’ após queima do Alcorão em frente a mesquita

Vários países muçulmanos qualificaram, nesta quinta-feira (29), de "incitação ao ódio" e "provocação" o protesto de um refugiado iraquiano, autorizado pelas autoridades suecas. Ele pisoteou um exemplar do Alcorão em frente à maior mesquita de Estocolmo, nesta quarta-feira (28), antes de queimar várias de suas páginas. A manifestação ocorreu no primeiro dia do grande festival muçulmano do Eid al-Adha.


Salwan Momika, um iraquiano de 37 anos que fugiu de seu país para a Suécia, pisoteou o Alcorão várias vezes antes de queimar algumas páginas em frente à Grande Mesquita de Estocolmo em 28 de junho de 2023.
AFP – JONATHAN NACKSTRAND

Incidentes parecidos já ocorreram na Suécia e em outros países europeus, muitas vezes motivados pela extrema direita, e já levaram a manifestações e tensões diplomáticas no passado.

Em janeiro, um exemplar do Alcorão foi queimado em Estocolmo durante uma manifestação em frente à embaixada turca. O ato despertou indignação em todo o mundo muçulmano e levou a manifestações e pedidos de boicote aos produtos suecos.

O governo iraquiano condenou “atos racistas, incitando a violência e o ódio” que ocorrem “repetidamente” em países “que se orgulham de abraçar a diversidade e o respeito pelas crenças dos outros”.

O influente líder religioso xiita Moqtada Sadr convocou uma manifestação em frente à embaixada sueca em Bagdá para exigir a “demissão do embaixador” e a retirada da nacionalidade iraquiana “do criminoso que queimou o Alcorão em Estocolmo“.

Reações internacionais

A Arábia Saudita, que abriga as duas cidades sagradas de Meca e Medina, denunciou “repetidos atos de ódio (…) incitando a exclusão e o racismo, e contradizendo os esforços para difundir os valores da tolerância”.

Outra monarquia do Golfo, o Kuwait, pediu que os autores de tais “atos hostis” fossem levados à justiça e “impedidos de usar o princípio da liberdade de expressão para justificar a hostilidade contra o Islã”.

“O governo e o povo da República Islâmica do Irã (…) não tolerarão tal insulto”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Nasser Kanani, em Teerã, denunciando um ato “inaceitável”.

O Marrocos chamou de volta seu embaixador na Suécia, condenando um ato “irresponsável” e “repetidas provocações, cometidas sob o olhar complacente do governo sueco”.

O Egito, o mais populoso dos países árabes, condenou um “gesto vergonhoso e uma provocação aos sentimentos dos muçulmanos” no exato momento do Eid al-Adha, a grande festa do sacrifício celebrada pelos muçulmanos em todo o mundo.

Na Síria, o governo “condenou com a maior veemência possível o ato vergonhoso” cometido “por um extremista com a permissão (…) do governo sueco”.

Em Beirute, o poderoso movimento Hezbollah também acusou as autoridades suecas de serem “cúmplices do crime”, pedindo a Estocolmo que ponha um fim a tais atos “em vez de se esconder atrás da liberdade de expressão”.

Cultura do ódio?

O Hezbollah pediu aos países muçulmanos e árabes que tomem “todas as medidas necessárias” para obrigar a Suécia e outros países a evitar a recorrência de tais incidentes e impedir “a disseminação de uma cultura de ódio”.

Nos Emirados Árabes Unidos, Anwar Gargash, o principal conselheiro do presidente, disse nas redes sociais que “o mundo ocidental deve perceber que seu sistema de valores e suas justificativas não podem ser impostos ao mundo”.

O Ministério das Relações Exteriores da Palestina denunciou uma “violação flagrante (…) dos valores de tolerância e aceitação dos outros”.

Outras organizações da região também reagiram, incluindo a Liga Árabe, que condenou uma “agressão ao coração de nossa fé muçulmana”.

O Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) considerou as “autoridades suecas responsáveis por quaisquer reações resultantes desses atos”, enquanto a Organização de Cooperação Islâmica (OIC) os condenou “veementemente”.

O incidente também provocou indignação na Turquia, onde o ministro das Relações Exteriores, Hakan Fidan, disse que “fechar os olhos a esses atos atrozes equivale a cumplicidade”.

Em Cabul, o governo do Talibã denunciou um “total desrespeito” ao Islã. As autoridades talibãs impõem uma interpretação rigorosa do Alcorão e da lei islâmica, e os atos considerados como blasfêmia podem ser punidos com a pena de morte.

Desde que assumiram o poder em agosto de 2021, os talibãs do Afeganistão impuseram uma versão rigorosa do islamismo no país, excluindo em grande parte as mulheres da vida pública.

Estocolmo é um dos principais doadores de ajuda a Cabul por meio de seu Comitê Sueco para o Afeganistão, que está presente no país há mais de 40 anos.

(Com informações da AFP)

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