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Lula no Brics sobre Donald Trump: ‘cada país cuida do seu nariz’

Após duas provocações de Donald Trump em menos de 24 horas pelas redes sociais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi rápido no gatilho. Em respostas assertivas, claras e focadas nos ataques, ele procurou mencionar o mínimo possível o nome do americano.


Lula destacou a soberania dos países em coletiva de imprensa após cúpula do Brics no Rio de Janeiro. Em 7 de julho de 2025. © Ricardo Stuckert / PR

Em entrevista coletiva à imprensa, Lula afirmou que cada país é dono do seu nariz, que não é correto um presidente da República ameaçar os outros pela Internet e que os países são soberanos e têm direito de taxar de volta.

O americano postou em sua rede Truth Social, na noite de domingo (6), que imporia taxa de 10% aos países do Brics e outras nações que se alinhassem ao grupo, que considera tratar de políticas anti-americanas. Na manhã do dia seguinte, o chefe da Casa Branca defendeu, mais uma vez pela mídia social, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que disse perseguido por uma caça às bruxas.

Lula minimizou as declarações de Trump sobre comércio internacional e política doméstica, dando a entender ter mais o que fazer e lembrando que a ameaça comercial não foi sequer mencionada pelos líderes do Brics presentes à última sessão da cúpula do grupo, encerrada nesta segunda-feira (7) no Rio de Janeiro.

“Nem acho que eu deveria comentar, porque não acho uma coisa muito responsável e séria um presidente da República de um país do tamanho dos EUA ficar ameaçando o mundo através da Internet. Não é correto. Ele precisa saber que o mundo mudou”, afirmou o presidente em referência à ameaça comercial de Trump.

Ele, no entanto, destacou que os países têm direito de aplicar tarifas de volta, em reciprocidade, por serem soberanos. E ainda pediu respeito.

“Somos países soberanos”

“Não queremos imperador. Somos países soberanos. Se ele achar que pode taxar, os países têm o direito de taxar também. Existe a lei da reciprocidade. Acho muito equivocado e irresponsável um presidente ficar ameaçando os outros em redes digitais. Tem outros fóruns para um país desse tamanho falar com outros países. As pessoas têm que aprender que respeito é bom. A gente gostar de dar e receber. E é preciso que as pessoas aprendam o significado da palavra soberania. Cada país é dono do seu nariz”, disse.

Pouco antes de falar aos jornalistas, como estava previsto na programação do Palácio do Planalto, após a cúpula, Lula publicou uma nota à imprensa e fez uma postagem no “X”, o antigo Twitter. A resposta oficial saiu em menos de uma hora.

“A defesa da democracia no Brasil é um tema que compete aos brasileiros. Somos um país soberano. Não aceitamos interferência ou tutela de quem quer que seja. Possuímos instituições sólidas e independentes. Ninguém está acima da lei. Sobretudo, os que atentam contra a liberdade e o estado de direito”, diz o documento.

Minutos depois, na entrevista, atacou: “Não vou comentar esse coisa do Trump e Bolsonaro. Tenho coisa mais importante para comentar do que isso. Esse país tem lei, regra e um dono chamado povo brasileiro. Portanto, deem palpite na sua própria vida”, disparou.

Para auxiliares do presidente, a reação de Trump é a confirmação da relevância do Brics no atual contexto geopolítico, raciocínio que o presidente reverberou aos jornalistas. Um Lula afiado disse ainda que o Brics é uma “metamorfose ambulante”, em referência à música de Raul Seixas. “Não é uma coisa pronta. É criança em crescimento”, completou.

Ele defendeu que a relação comercial do grupo não passe pelo dólar. “Ninguém determinou que o dólar é a moeda-padrão. Temos toda a responsabilidade de fazer isso com muito cuidado e tem que ser discutido pelos Bancos Centrais. Mas é uma coisa que não tem volta. Vai acontecer aos poucos até que seja consolidada”, disse o presidente ao se referir a um tema que não consta da declaração do Brics. O documento propõe iniciativas de facilitação de operações entre os países com moedas locais, o que ainda está em fase bastante inicial.

Antes, ele afirmou que esta foi a melhor reunião do Brics. O presidente fez ainda uma enfática defesa do multilateralismo e rejeitou o negacionismo.

Ele criticou o formato e a inação da ONU diante dos conflitos espalhados pelo mundo. “Estamos vivendo hoje, possivelmente, depois da Segunda Guerra Mundial, o maior período de conflito entre os países. É guerra esparramada para tudo quanto é lado. O mais grave é que o Conselho de Segurança da ONU, que deveria ser o paradigma para evitar as guerras, são os promotores”, diz.

Disse ainda que a ONU perdeu autoridade. “Quem negocia a guerra entre a Rússia e Ucrânia? Não tem uma instituição capaz de sentar à mesa, fazer uma avaliação e sair com proposta. O Putin já sabe o que vai acontecer e o Zelensky também”, afirmou.

Lula foi mais enfático ao falar da guerra na Ucrânia do que a declaração final dos líderes do Brics após a cúpula. “O que está acontecendo em Gaza já passou da capacidade de compreensão de qualquer mortal no planeta Terra. Dizer que aquilo é uma guerra com o Hamas? É matar inocentes, mulheres e crianças. E cadê a instituição multilateral para pôr um fim nisso? Não existe. A ONU não pode coordenar porque está envolvida nisso. Quando digo a ONU, é porque é composta, no Conselho de Segurança, por países que estão envolvidos, com raríssimas exceções como a China”, afirmou.

COP30

Antes da coletiva, Lula chamou ao púlpito o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, para dar os últimos detalhes sobre a convenção que acontecerá em novembro. Corrêa do Lago afirmou que ficou claríssimo o apoio de todos os países presentes no Brics à COP30 e “ao desejo muito grande desse esforço brasileiro de fortalecimento do multilaterismo e de concentração no combate às mudanças do clima”. Ele afirmou que, em breve, haverá detalhes de como vai ser a cúpula e a Agenda de Ação Global. “A COP30 vai ser em Belém, que está se preparando incrivelmente bem. Vai ser o máximo ser na Amazônia. Tem algumas situações, mas elas estão sendo contornadas”, afirmou Corrêa do Lago.

Vivian Oswald, correspondente da RFI no Rio de Janeiro

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