Iranianas desafiam o regime e circulam sem véu nas ruas após cessar-fogo
Desde que foi estabelecido um cessar-fogo entre os Estados Unidos, Israel e o Irã, imagens de mulheres nas ruas de Teerã sem cobrir a cabeça se multiplicam. O desafio ao uso obrigatório do véu, um dos pilares da República Islâmica, levanta questionamentos: trata‑se de um momento passageiro de tolerância, de uma ilusão de mudança ou do sinal de uma transformação mais profunda no país?

Foto: o globo.globo.comUma mulher caminha sem o véu islâmico ao lado de um mural com uma mensagem contra os Estados Unidos pintado na parede da antiga embaixada dos Estados Unidos em Teerã, Irã, no sábado, 25 de abril de 2026. AP – Vahid Salemi
Nas ruas da capital iraniana, a vida voltou a ocupar o espaço público. Vendedores ambulantes e músicos retomaram as calçadas, enquanto homens armados e postos de controle praticamente desapareceram, com exceção de algumas praças estratégicas.
Mas o que mais chama a atenção é a presença crescente de mulheres sem véu, muitas vestindo roupas com estilo ocidental. Para várias delas, há uma sensação inédita de liberdade — ainda que frágil.
Ziba, iraniana de cerca de 40 anos, é uma delas. Ela conversou com a RFI sobre o fenômeno.
“O véu nos foi imposto em 1979 como um valor externo. Com o tempo, entendemos que não era um valor nosso. Para rejeitá‑lo e conquistar o que queremos, pagamos um preço muito alto. Isso é uma grande vitória. E vamos defendê‑la com unhas e dentes. Não vamos abrir mão dela.”
Durante os protestos de 2022, desencadeados pela morte de Mahsa Amini — presa por não usar o véu “de forma adequada” —, muitas mulheres adotaram a estratégia de carregar um lenço sobre os ombros, caso fossem repreendidas pela polícia. Agora, até esse gesto preventivo desapareceu. As autoridades parecem tolerar a situação e demonstram relutância em intervir.
Essa aparente flexibilização, porém, não convence a todas. É o caso de uma pintora iraniana, contatada de Paris, que pediu anonimato.
“Isso não é, de forma alguma, um sinal de mudança do governo. Não houve nenhum avanço real nos direitos das mulheres.”
Segundo ela, que vive em Teerã, a realidade continua a mesma:
“Apesar das aparências, não houve mudança concreta nas liberdades individuais.”
A obrigatoriedade do véu segue prevista em lei e permanece como um dos pilares da teocracia iraniana. O que mudou foi a aplicação da regra, agora menos rigorosa — ao menos em alguns bairros de Teerã e em certas cidades do país.
Essa tolerância já havia sido observada durante a guerra de junho de 2025 contra Israel e se manteve nos protestos de dezembro contra o alto custo de vida. Também persiste no contexto da guerra entre Estados Unidos e Israel, atualmente suspensa por um cessar‑fogo considerado frágil.
“Há três anos, isso era inimaginável”, diz Zahra, de 57 anos, moradora de Isfahan, no centro do Irã.
“Não uso mais o véu, mas gostaria de ter vivido algo assim na juventude”, conta.
Apesar disso, o hijab não desapareceu do cotidiano. As temidas vans brancas da polícia da moralidade quase não patrulham mais as ruas, mas mulheres sem véu ainda podem ser abordadas. Em bancos, universidades e prédios administrativos, o uso continua sendo exigido.
“Um preço alto”
Por trás das imagens que circulam nas redes sociais — mulheres sem véu em cafés e espaços públicos — há também custos e punições. Negin, gerente de um café em Teerã, lembra que a exposição cobrou seu preço. “Pagamos muito caro por isso”, afirma. “Fomos tratadas com brutalidade durante anos, e isso continua. Nosso estabelecimento já foi fechado várias vezes, recebemos multas e fomos forçadas a pagar subornos.”
O que mais a revolta é o discurso oficial. “Quando dizem que isso é ‘liberdade’ e que as mulheres hoje são mais livres, isso me enfurece”, diz a jovem de 34 anos.
De fato, os direitos das mulheres seguem severamente limitados no Irã. O governo reprimiu com mãos de ferro os protestos de dezembro e janeiro, com dezenas de milhares de prisões. Durante o conflito mais recente, milhares de pessoas também foram detidas, segundo organizações de direitos humanos.
A ONG Anistia Internacional avalia que a “resistência generalizada” à essa obrigação pressionou as autoridades nos últimos anos. Hoje, imagens de mulheres sem véu aparecem até na televisão estatal — desde que elas demonstrem lealdade ao regime e denunciem os inimigos da República Islâmica.
Para Sahrzad, dona de casa de 39 anos, isso não representa uma mudança real.
“Todos os dias, mais mulheres vencem o medo e saem sem hijab. Esse movimento está se espalhando”, diz. “Mas não vejo nenhuma transformação no sistema.”
Ela é categórica:
“Nada mudou, exceto os vídeos exibidos na TV estatal de jovens sem véu gritando: ‘Meu líder, meu líder, eu daria minha vida por você’.”
A realidade, no entanto, não é homogênea. A situação varia de região para região, e ninguém sabe dizer por quanto tempo essa relativa tolerância vai durar.
Com Siavosh Ghazi, correspondente da RFI em Teerã, e AFP





