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Chegada do El Niño provocará impactos no setor de energia elétrica

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

A chegada do El Niño deve forçar o Brasil a acionar a geração de energia das usinas termelétricas, fontes consideradas poluentes e caras. Mas o fenômeno também deve abrir mais espaço para o uso de energias renováveis e pode reduzir a incidência de cortes na geração dessas fontes.

O fenômeno climático, que pode ter intensidade inédita, agravará a seca no Norte e Nordeste do país e reduzirá as chuvas no Sudeste, diminuindo fluxo de rios e níveis de reservatórios em 2027. O impacto será direto na geração das usinas hidrelétricas, a base da matriz energética brasileira.

Para evitar um apagão, esse espaço precisará ser ocupado, e a decisão de quais fontes utilizar para isso será tomada a partir de critérios de custo e disponibilidade.

As renováveis —eólica e solar— são mais baratas e ganham potência com a seca, devendo ter preferência. Ao mesmo tempo, são mais instáveis: geram mais energia conforme a luz do sol ou a força do vento. Já as térmicas, apesar de terem um peso maior na conta de luz, são acionadas segundo a demanda.

Diante desse cenário, o próprio ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) admite que a solução será utilizar as renováveis, quando disponíveis, mas sem abrir mão das usinas térmicas de gás natural e carvão.

A última grande crise elétrica do Brasil, em 2021, também foi causada pela incidência de um forte El Niño. Na ocasião, o então governo de Jair Bolsonaro (PL) contratou termelétricas de forma emergencial para suprir a demanda.

O fenômeno climático deve se repetir neste ano, com chance de ser um dos mais fortes da história, segundo afirmam cientistas.

A diferença para 2021 é que hoje a matriz elétrica brasileira é mais diversa, em razão do aumento de fontes renováveis.

Segundo dados do ONS, a capacidade instalada de energia solar cresceu de 3,1 GW (gigawatts) para 19,5 GW entre 2021 e 2026, enquanto a eólica, de 16 GW para 35,6 GW.

Já a micro e minigeração (composta na maioria por painéis solares instalados nas casas, por exemplo) praticamente não existia há cinco anos e explodiu para 46,2 GW. Somado, o crescimento chega a 82,2 GW, com capacidade de geração quatro vezes maior do que em 2021.

Como forma de comparação, as principais hidrelétricas do Norte do país —Madeira, Tucuruí e Belo Monte— têm uma capacidade somada de 24 GW de geração. Elas podem ficar praticamente inoperantes em caso de um grave El Niño. Mas, ao menos em parte, os prejuízos energéticos causados pela seca intensa podem ser compensados com fontes renováveis.

O ONS afirma que o fenômeno climático não deve trazer riscos ao SIN (Sistema Interligado Nacional).

“Ainda é cedo para estimar números, mas se o El Niño provocar novamente uma redução da geração hidrelétrica, a expectativa é que a energia eólica desempenhe um papel estratégico na segurança energética”, diz Elbia Gabnoum, presidente da Abeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica).

“Quando os reservatórios enfrentam menor afluência, a geração solar tende a apresentar excelente desempenho devido à maior incidência de radiação solar e menor cobertura de nuvens”, afirma a Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar), em nota.

Apesar do preço mais alto do que a energia gerada por fontes renováveis e hidrelétricas, Xisto Vieira, diretor da Abraget (Associação Brasileira De Geradoras Termelétricas), afirma que o custo para acionamento das usinas térmicas é menor do que o de um possível racionamento, “que seria uma explosão na conta de luz”.

A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) já orientou as hidrelétricas a monitorar reservatórios e adotar medidas para tentar mitigar os impactos do El Niño.

Segundo a Abrage (Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica), que representa sobretudo as hidrelétricas, a situação dos reservatórios no país hoje é confortável.

O risco maior é para 2027, uma vez que uma seca mais forte neste ano reduz as chuvas do ciclo seguinte, diminuindo o fluxo dos rios e, consequentemente, ameaçando os depósitos de água das usinas.

“Há um indicativo que de fato tenhamos menores afluências, o que certamente exigirá maior despacho de usinas termelétricas. Mesmo que tenhamos matriz diversificada e possamos contar com eólicas e solares em determinados momentos do dia para atendimento à ponta do sistema, não vamos poder renunciar a utilizar recursos mais onerosos das térmicas”, afirma a entidade.

Integrantes do setor avaliam que o cenário criado pelo El Niño pode ter como um de seus efeitos positivos a redução do corte de geração elétrica de usinas de fontes renováveis no Nordeste do país.

Os cortes na geração tornaram-se um dos principais problemas para o setor elétrico no Brasil nos últimos anos, na maioria porque o aumento na instalação de renováveis não veio acompanhado de uma ampliação da capacidade da rede. Os cortes acontecem sobretudo quando há alta da geração eólica e solar.

Mas, se o El Niño reduzir a produção das hidrelétricas em 2027, haverá mais espaço dentro da rede para comportar a energia das renováveis, o que pode reduzir a necessidade de corte.

*Com informações de João Cabral/Folhapress

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