Destaque

Pausa na progressão do câncer? Proteína pode ser a chave, aponta estudo

Pesquisa da Unifesp mostra que silenciar a proteína SDC4 pode interromper a divisão de células tumorais e fazê-las perder a capacidade de sobreviver fora do tumor original

Os resultados, publicados em março mostram que a proteínas pode se tornar um importante alvo terapêutico no futuro. – (crédito: Freepik/kjpargeter)

Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) pode abrir novos caminhos para o desenvolvimento de tratamentos contra o câncer. O estudo identificou que o bloqueio da proteína sindecam-4 (SDC4) interrompe a multiplicação de células tumorais e elimina mecanismos que favorecem a formação de metástases.

Os resultados, publicados em março deste ano na revista científica Cytotechnology, mostram que a SDC4 pode se tornar um importante alvo terapêutico no futuro. Apesar do potencial da descoberta, os pesquisadores ressaltam que os experimentos ainda estão em fase inicial e precisam ser confirmados em células tumorais humanas antes que possam ser aplicados em pacientes.

O que faz a proteína SDC4?

A SDC4 é uma proteína presente na superfície das células e desempenha funções importantes para o funcionamento normal do organismo, como ajudar as células a permanecerem aderidas aos tecidos.

No entanto, em alguns tipos de câncer, essa proteína passa a ser produzida em excesso. Segundo os pesquisadores, esse aumento está relacionado ao crescimento do tumor e à capacidade das células cancerígenas de invadir outros órgãos, e foi justamente esse comportamento que chamou a atenção da equipe. 

Entenda o que é a anoikis

O estudo também investigou um mecanismo natural de defesa do organismo conhecido como anoikis, que é uma forma de morte celular programada. Em condições normais, a maioria das células precisa permanecer ligada aos tecidos para sobreviver. Quando uma célula saudável se desprende do local onde deveria estar, ela ativa automaticamente um processo de morte celular programada chamado anoikis.

Esse mecanismo impede que células fora do lugar continuem vivas e se espalhem pelo organismo. Nas células cancerígenas, porém, esse sistema deixa de funcionar, elas desenvolvem resistência à anoikis, conseguem sobreviver mesmo soltas na corrente sanguínea e, dessa forma, podem alcançar outros órgãos, dando origem às metástases.

Como os cientistas fizeram a descoberta

Para entender o papel da SDC4 nesse processo, os pesquisadores realizaram experimentos em laboratório utilizando células endoteliais de coelhos. As células foram mantidas sem qualquer superfície de apoio, simulando o desprendimento dos tecidos. Como esperado, quase todas morreram, porem, um pequeno grupo, de menos de 5%, conseguiu sobreviver

Essas células sobreviventes passaram a apresentar comportamento mais agressivo e produzir grandes quantidades da proteína SDC4. Na etapa seguinte, os pesquisadores utilizaram técnicas de engenharia genética para silenciar o gene responsável pela produção dessa proteína.

O resultado surpreendeu a equipe: sem a SDC4, as células perderam a resistência à anoikis, voltaram a depender da adesão aos tecidos para sobreviver e apresentaram redução significativa na capacidade de invasão.

O que acontece quando a proteína é bloqueada?

Além de devolver às células a sensibilidade ao mecanismo natural de morte, o silenciamento da SDC4 também interferiu diretamente no ciclo de divisão celular. Os pesquisadores observaram um aumento da proteína p27, considerada um importante inibidor natural da proliferação celular.

Na prática, ela funciona como um “freio”, impedindo que as células continuem se multiplicando de forma descontrolada. Ao mesmo tempo, houve redução da atividade de proteínas conhecidas como CDK4 e CDK6, fundamentais para que a célula avance em seu ciclo de divisão.

Segundo a professora Carla Cristina Lopes, do Departamento de Ciências Biológicas da Unifesp e autora correspondente do estudo, a proteína pode se tornar tanto um alvo para novos medicamentos quanto um marcador capaz de acompanhar a evolução de tumores.

Apesar dos resultados promissores, ela reforça que a pesquisa ainda está em estágio inicial e que será necessário repetir os experimentos em células tumorais humanas para confirmar a eficácia da estratégia. Se os próximos estudos apresentarem resultados semelhantes, o controle da SDC4 poderá representar uma nova forma de impedir que tumores se espalhem pelo organismo, reduzindo o risco de metástases.

Próximo passo: investigar o papel do canabidiol

Os pesquisadores também iniciaram uma nova linha de investigação para verificar se o canabidiol (CBD), composto não psicoativo derivado da Cannabis sativa, pode influenciar a atividade da SDC4. A hipótese é que a substância consiga modular essa proteína ou interferir nas vias responsáveis pelo crescimento desordenado das células tumorais.

Por enquanto, porém, essa etapa também permanece em fase inicial e ainda não existem evidências de que o canabidiol  possa ser utilizado como tratamento contra o câncer com esse objetivo.

*Estagiária sob supervisão de Paulo Floro.

Deixe um comentário

Botão Voltar ao topo