Trabalho dos coveiros foi intensificado com a pandemia, no cemitério Senhor da Boa Sentença, em João Pessoa — Foto: Arquivo pessoal/Elycarlos Aguiar

Aos 36 anos, André Luiz trabalha como coveiro no Cemitério Senhor da Boa Sentença, em João Pessoa. Por meio do irmão, conseguiu o emprego em 2009, quando saiu do trabalho de auxiliar de limpeza. Durante a pandemia, seu trabalho intensificou conforme o número de mortes aumentava na capital paraibana. Resultado disso é dificuldades na profissão, nas relações sociais e transtornos psicológicos, que só tendem a crescer.

O coveiro acorda às 7h diariamente. Toma café com a família e segue para o trabalho, que começa às 8h. Não demora chegar, porque sua residência é próxima ao cemitério. Uma pausa é dada para o almoço, que às vezes nem acontece porque outros enterros precisam ser feitos. Devido à causa da morte, é preciso enterrar o mais breve possível. A rotina vai até 17h.

Coincidentemente, a esposa de André também trabalha no cemitério, na função de zeladora. Foi lá que eles se conheceram. Os dois trabalham juntos. Arlécia Araújo retorna para casa ao meio-dia, prepara o almoço e depois volta ao trabalho. Além disso, dá conta de três filhos que, neste período de pandemia, estão sem aulas presenciais e ficam em casa.

“Ninguém gosta de ver os parentes partindo. A realidade é que, após 12 anos fazendo sepultamentos, tornou-se natural para mim. Faz parte da minha rotina, de inverno ao verão”.

André encara a profissão com naturalidade. Mesmo com as dificuldades, a rotina é vista como positiva para ele. “São cinco, seis ou sete sepultamentos que eu faço diariamente. Então não faz mais efeito algum em mim. Antes eu até me sentia um pouco mal, mas agora tanto faz. Amo meu trabalho”, afirmou.

Após 1 ano de pandemia, coveiros relatam que enterrar vítimas da Covid-19 se tornou 'natural' no dia a dia da profissão — Foto: Arquivo pessoal/Elycarlos Aguiar

Após 1 ano de pandemia, coveiros relatam que enterrar vítimas da Covid-19 se tornou ‘natural’ no dia a dia da profissão — Foto: Arquivo pessoal/Elycarlos Aguiar

Dificuldades da profissão na pandemia

Antes do novo coronavírus ser a causa de milhares de mortes, André tinha uma rotina mais tranquila, sem muitos enterros a fazer durante o dia de trabalho. “Antes eu trazia o meu fardamento do trabalho para casa. Tinha orgulho de mostrar às pessoas que eu trabalhava no cemitério. Hoje em dia tenho medo. Receio de expor as pessoas que moram comigo”, afirmou.

Apesar de conviver com essa realidade, o coveiro mantém um protocolo de higiene. No cemitério, ele guarda a roupa que saiu de casa e veste o fardamento, que é lavado diariamente após o expediente. Com utilização de máscara e protetor facial, André descarta as luvas utilizadas no trabalho e higieniza as mãos com álcool. As máscaras são trocadas a cada enterro e as luvas também.

Uma maneira que ele encontrou para lidar mais facilmente com a realidade de enterrar vítimas da Covid-19, foi dar uma roupagem diferente para a doença.

“Se o próximo enterro é de alguém que morreu dessa doença, eu projeto para uma outra causa, como se a pessoa tivesse morrido de outra coisa. Morta a tiros ou algo parecido. Se eu não colocar isso na cabeça, caio numa depressão”, ressaltou.

André contou que um fato inusitado chamou a atenção dele e provocou ansiedade: a morte de uma mãe três dias após o filho, vítimas de Covid-19. “No sepultamento do filho, ela estava presente, talvez até já infectada. Foi muito doloroso. Situação muito difícil. Me comovi”, afirmou o coveiro.

O coveiro quase adoeceu porque tinha medo e ansiedade quando saía para trabalhar. Uma doença desconhecida, sem cura, que estava fazendo várias vítimas. Era assim que André pensava ao enterrar alguém morto pela doença.

“Não podia ver um caixão na minha frente. Foi difícil. O primeiro enterro foi de uma vítima que tinha obesidade, com 220kg. Foram seis coveiros para realizar o sepultamento. Todos nós ficamos receosos”, contou.

Apesar das dificuldades, André Luiz segue otimista e acredita na fé cristã para que tudo possa melhorar em breve. O profissional não dispõe de acompanhamento psicológico com terapeutas, mas se diz preparado para exercer a função.

Protocolos realizados durante os sepultamentos

O atendimento está sendo feito de forma restrita e com a presença de apenas duas pessoas da família. O diretor do Cemitério Senhor da Boa Sentença, Elycarlos Aguiar, explicou que o local respeita as normas de segurança sanitária recomendadas pelo Ministério da Saúde.

  • Utilização de álcool em gel;
  • Distanciamento social;
  • Utilização de uniforme apropriado para evitar exposição.

“Infelizmente tivemos que nos adequar para evitar correr riscos. Já basta a quantidade de mortes que presenciamos todos os dias. Às vezes alguns parentes criam resistência contra os protocolos, mas somos incisivos e exigimos respeito, principalmente num momento tão delicado que é o sepultamento”, ressaltou.

Ainda de acordo com a administração do cemitério, os sepultamentos realizados no local tiveram uma diminuição no início do ano, mas houve uma surpresa neste mês em que o estado encontra-se em situação de pré-colapso na saúde:

Sepultamentos realizados de mortes por Covid-19
Dados do Cemitério Senhor da Boa Sentença, em João Pessoa
2021Quantidade de sepultamentos realizadosJaneiroFevereiroMarço, até dia 17051015202530
Fonte: Administração do Cemitério Senhor da Boa Sentença

Em dois meses, o número de sepultamentos cresceu em 5 vezes. Por esse motivo, a administração do cemitério intensificou as fiscalizações do cumprimento dos protocolos tanto para os funcionários, quanto para os visitantes.

“É imprescindível que as pessoas respeitem as normas de prevenção contra a Covid-19. Estamos sem espaços no cemitério. Já abrimos várias covas extras, mas que não serão suficientes se continuarmos nesse ritmo”, afirmou o diretor.

Cemitério Senhor da Boa Sentença está sem espaço para abertura de novas covas, devido ao crescimento de mortes por Covid-19 em João Pessoa — Foto: Arquivo pessoal/Elycarlos Aguiar

Cemitério Senhor da Boa Sentença está sem espaço para abertura de novas covas, devido ao crescimento de mortes por Covid-19 em João Pessoa — Foto: Arquivo pessoal/Elycarlos Aguiar

O cemitério também possui central de velórios, que foi reformada recentemente, mas está disponível apenas para familiares de pessoas que morreram por outros motivos, não pela Covid-19.

*Sob supervisão de Krys Carneiro

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