O futebol chinês se prepara para uma nova era. A era dos craques internacionais, atraídos pelos investimentos astronômicos, está com os dias contados. Para uns, até já chegou ao fim.  O maior exemplo disso é o atual campeão chinês, Jiangsu Suning.

O clube até aderiu ao nome neutro de Jiangsu FC (todas as equipes chinesas passarão a ter nomes sem relação com as empresas donas a partir da temporada 2021), mas anunciou o fim de suas atividades poucos meses depois de ser campeão.

O grupo Suning, o mesmo que gere a Internazionale de Milão, colocou o time à venda, mas não encontrou compradores. O Jiangsu tem uma dívida que supera os R$ 400 milhões, e deixa no mercado jogadores como o brasileiro Miranda, o ítalo-brasileiro Éder e o ganês Mubarak Wakaso.

Alex Teixeira, outro brasileiro presente no título chinês em 2020, já estava livre no mercado desde o fim de seu contrato em janeiro. Por falar no ex-atacante do Vasco, foi o Jiangsu que em 2016 desbancou o Liverpool e comprou Teixeira junto ao Shakhtar Donetsk pela metade do valor das dívidas atuais (R$ 218 milhões).

O fim dos altos investimentos  O futebol na China é tratado por muitos anos como ferramenta política. A indústria do esporte é vista pelo presidente Xi Jinping como oportunidade de expansão econômica. De dentro para fora.  A China investiu em projetos de futebol em diversas cidades, trouxe profissionais qualificados da Europa e da América do Sul e deu suporte com estrutura. Xi Jinping teve como meta fazer o país subir de dez mil estádios e campos de futebol para 70 mil em três anos.

Em 2050, a China deveria ser uma potência no esporte.  O investimento no futebol, buscando ampliar zonas comerciais e expandir influências para além de Pequim, fez bilionários chineses investirem não só em times locais, como também buscarem a compra de clubes e ações no exterior. Mercados tradicionais do futebol como o italiano e o inglês passaram a receber yuans ao invés de euros e libras esterlinas.

Já citamos o exemplo do grupo Suning, que não está sozinho nisto.  Craques e prestígio No dia 2 de julho de 2011, Dario Conca, craque do Brasileirão de 2010, se despedia do Fluminense para jogar no Guangzhou Evergrande por pouco mais de R$ 15 milhões. Conca se tornaria um dos jogadores mais bem pagos do mundo.

Foi o primeiro boom do futebol chinês.  Segundo dados do Transfermarkt, os clubes chineses naquele ano beiraram os 50 milhões de euros em reforços para a temporada, mais que o dobro com relação ao ano anterior. Conca foi um aviso para o mundo.  O Guangzhou se tornou a grande referência para o novo projeto de futebol na China. O técnico campeão do mundo com a Itália Marcelo Lippi chegou em 2012 e foi o cérebro do projeto.

No mesmo ano foram contratados craques renomados na Premier League: Anelka e Didier Drogba jogaram juntos no Shanghai Shenhua.  O boom seguinte foi em 2015: Ricardo Goulart seguiu o exemplo de Conca e, depois de brilhar no Brasileirão com o Cruzeiro, foi a transferência milionária do Guangzhou Evergrande. Os investimentos dos clubes chineses nessa temporada triplicaram, beirando os 150 milhões de euros.

O valor mais que dobrou no ano seguinte, superando os 400 milhões. O ápice foi em 2017: pouco mais ade 540 milhões de euros em contratações.  O mercado chinês mudou os alvos do mercado e apontou a artilharia para o futebol europeu. Conseguiu contratar nomes como Carlitos Tevez, Yannick Ferreira-Carrasco, Juan Quintero, El Shaarawy, Salomón Rondón, Eran Zahavi, Ighalo, Fellaini, Obafemi Martins, Axel Witsel, Mascherano, Lavezzi, Marcelo Moreno, GrazianoPellè, Jackson Martínez, Cédric Bakambu e Marek Hamsik.

Fora craques brasileiros com passagens pela seleção, como o já citado Miranda, Alexandre Pato, Hulk, Oscar, Hernanes, Paulinho, Ramires e Renato Augusto; e outros brasileiros que fizeram história no país, como Elkeson, Aloísio e Talisca. A Liga Chinesa virou a Superliga Chinesa.  Mudança de panorama

A situação se modificou recentemente. Com a criação de um teto salarial para jogadores estrangeiros e chineses e com limites nos orçamentos dos clubes, a ordem da vez é reduzir gastos e criar um ambiente sustentável para o esporte no país. Isso sem contar que algumas empresas ainda sentem o baque da pandemia do Coronavírus.

A “Era dos Craques” ficou com os dias contados. Na virada da temporada 2019 para 2020, a Associação Chinesa de Futebol estabeleceu o início do teto salarial para jogadores estrangeiros e outro para chineses. Todos os contratos assinados a partir de janeiro de 2020 já estariam sob influência do teto.

Além disso, a CFA também agiu sobre os orçamentos das equipes do país. Nenhum clube chinês deveria gastar mais que ¥ 1,1 bilhão (R$ 980 milhões) e os gastos em salários não poderiam ultrapassar 60% dos gastos totais. A partir deste cenário, torna-se plausível entender que muitos jogadores que assinaram os seus vínculos antes do teto salarial não iriam permanecer na China na hora de renovarem os respectivos contratos, sendo que só poderiam continuar no país recebendo valores abaixo do que foi estipulado inicialmente.

E também fica claro que os jogadores alvos do mercado chinês seriam diferentes a partir daí. O fim do Jiangsu e a provável saída de Alex Teixeira, Éder e Miranda do mercado chinês apenas escancara a situação. Eran Zahavi se mudou para o PSV e Salomón Rondón foi negociado com o CSKA Moscou.

Graziano Pellè retornou à Itália para vestir as cores do Parma, Sandro Lima rumou ao Genclerbirligi da Turquia e Tiquinho Soares deve ser o próximo a voltar à Europa.  A debandada de craques aconteceu também para outros mercados internacionais. Hulk voltou ao Brasil para defender o Atlético Mineiro, o israelita Dia Saba foi para os Emirados Árabes e Ighalo para a Arábia Saudita.

Sem contar que a liga perdeu ainda nomes como El Shaarawy e Ferreira-Carrasco, perdas não tão relacionadas ao lado financeiro (foi opção esportiva dos atletas), mas que de qualquer forma causam impacto no campeonato.

A saúde financeira dos clubes provoca situações não tão comuns em uma liga que esbanjou investimentos nos últimos anos. O Chongqing, de Alan Kardec, sofre com atrasos de salários, e o Tianjin TEDA, dos já citados Tiquinho Soares e Sandro Lima, pode encerrar atividades. Com muitas saídas, problemas econômicos e a redução dos investimentos com limites de gastos, a nova temporada na China deve ter uma cara diferente.

O Gol 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui