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‘Para sempre no coração’: França presta homenagem a Claudia Cardinale, ‘mulher livre e inspiradora’

A França presta homenagem nesta quarta-feira (24) à atriz franco-italiana Claudia Cardinale, falecida na véspera, aos 87 anos, na grande região parisiense. "Uma estrela que os franceses levarão para sempre no coração", afirmou o presidente Emmanuel Macron na rede social X.


A atriz Claudia Cardinale durante coletiva de imprensa em Tours, na França, em 2015. AFP – GUILLAUME SOUVANT

A estrela morreu “junto a seus filhos” em Nemours, perto de Paris, onde residia, anunciou seu agente Laurent Savry, sem especificar as causas do falecimento. “Nos deixa o legado de uma mulher livre e cheia de inspiração, tanto em sua trajetória como mulher quanto como artista”, afirmou em comunicado. Por enquanto, não foram definidos nem a data nem o local do funeral.

Conhecida por seus papéis em filmes como “O Leopardo”, “Era uma Vez no Oeste” e “A Pantera Cor-de-Rosa”, Cardinale era uma das atrizes mais emblemáticas do cinema italiano, ao lado de Gina Lollobrigida e Sophia Loren. Colaborou com os diretores que promoveram a renovação do cinema italiano (Bolognini, Zurlini, Squitieri), brilhou em Hollywood (Edwards, Brooks, Leone), na França (Broca, Verneuil) e até na Alemanha, com Werner Herzog em “Fitzcarraldo”.

Nascida em La Goulette, perto de Túnis, em 15 de abril de 1938, filha de uma francesa e de um siciliano, venceu por acaso um concurso de beleza ao qual não se havia inscrito, ainda adolescente. Sua vida mudou radicalmente ao ser convidada ao Festival de Cinema de Veneza, onde sua beleza causou furor entre os diretores. Iniciou sua carreira atuando em filmes italianos, embora falasse mal a língua e com sotaque francês. Também era fluente em árabe e siciliano.

Vítima de sua própria beleza

Apesar de seu imenso talento e versatilidade para interpretar diferentes papéis ao longo de uma brilhante carreira, a atriz foi exaltada principalmente devido a seus atributos físicos. “Encarnação da sensualidade latina”, “a mais bela mulher do mundo”, “tigresa do cinema italiano”, diz o jornal Le Monde.

O diário também revela o preço que pagou a artista pela imagem de sex symbol: um estupro aos 16 anos, um casamento forçado, um filho escondido e a impossibilidade de usar sua própria voz em suas primeiras interpretações, considerada insuficientemente feminina. Cardinale era rouca, “de fala áspera”, diz o jornal, lembrando que foi apenas a partir do clássico “Oito e 1/2”, de Federico Fellini, que sua voz original pôde ser ouvida, uma iniciativa que influenciou outros diretores a também recusarem a dublagem da atriz.

Essa também se tornará uma de suas principais marcas, depois de sua “beleza selvagem”, à qual ela própria recusava, se autoclassificando como “estranha”. Também rotulada de “a namoradinha da Itália”, Cardinale consegue transformar o diminutivo em superlativos, atuando em mais de 150 filmes dos maiores cineastas de seu tempo – todos homens – em uma época em que a direção não era um território autorizado para mulheres.

Ironia do destino, essa ferrenha opositora de procedimentos estéticos viu o interesse da indústria cinematográfica por ela diminuir à medida que sua idade avançava. “Profissão canibal e ingrata”, definiu em uma entrevista em 2017. Quando questionada qual foi o melhor elogio que já havia recebido, a estrela descartou todas as odes a seu físico e lembrou das palavras do ator britânico David Niven, para quem “depois do espaguete, Claudia Cardinale foi a melhor invenção da Itália”.

RFI

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