Seis vozes que dedicam suas vidas à luta por um Brasil sem preconceito

TRANSFORMAÇÃO, por Danilo Saraiva (@danilosaraiva)

“Transformação é uma jornada sem destino final”, disse a escritora Marilyn Ferguson em meados dos anos 1980. Embora eu tenha pouco conhecimento das obras que ela publicou, essa frase para mim serve de mantra em tudo o que eu faço pelo simples motivo de que não acredito em projetos que dão certo para sempre sem que eles sejam reavaliados de tempos em tempos. Digo isso porque, há três anos, decidimos transformar a Quem num veículo 100% digital. Com a mudança, surgiu também uma necessidade enorme de mudar de linguagem porque vimos que nosso leitor não era mais o típico consumidor de revista. Em alguns meses, nossas pesquisas de campo e medidores de audiência mostravam que tínhamos gente vinda de todos os lugares, de várias idades, classes sociais e interesses. Interesses esses tão vastos que, com o tempo, descobrimos que a escolha de um personagem para a nossa capa digital, por exemplo, não pode ser limitada apenas à popularidade junto ao público. Fomos aprendendo que quem tem coisas boas pra dizer merece ser ouvido, mesmo que não possua um milhão de seguidores no Instagram. Assim, criamos um novo pilar, que hoje rege a redação: entretenimento democrático e acessível para todos. Os famosos, claro, são e serão a cereja deste bolo.

Mas é fato que em três anos tanta coisa mudou que até mesmo esse pilar tão subjetivo e aberto precisa mudar de novo. Basta pegar 2020 de exemplo. Não estamos falando só de coronavírus. O brutal assassinato por policiais de George Floyd, em maio em Minneapolis, nos Estados Unidos, fez com que o movimento “Vidas Negras Importam” eclodisse em todo o mundo, fazendo com que muita gente – eu incluso – olhasse forçadamente pra dentro da própria consciência na tentativa de encontrar o racista que vive ali, mesmo quando juramos que não somos carregados de preconceitos estruturais. Acredite, nós somos. Falando de cinema, o filme sul-coreano Parasita ganhou o Oscar de melhor filme, o primeiro longa em língua estrangeira a conseguir tal proeza. Estaria Hollywood mudando? Em maio de 2020, o STF, em decisão histórica, derrubou a restrição de doação de sangue por homossexuais. Poxa, até a velha política está reavaliando suas atitudes. Mas o que esses três exemplos citados têm a ver com a Quem? Todos eles circundam, direta e indiretamente, no tema da diversidade. E tendo um veículo “frequentado” por mais de 20 milhões de pessoas todos os meses, não tem como pensar em mais uma transformação pra ontem: a diversidade tem que ser prioridade e figurar no topo dos nossos pilares.

Sendo assim, no mês em que se celebra o orgulho mundialmente, resolvemos, pela primeira vez na nossa capa, dar espaço a quem não tem tanta voz nos veículos mainstream e contar a história de algumas pessoas que dedicam suas vidas por um Brasil sem preconceito, sem violência. Mesmo que alguns deles sejam influenciadores de nicho, eles são essencialmente anônimos. Estão na nossa capa digital porque, de algum modo, tocaram nossas e nossos repórteres com histórias incríveis, como a de Elvis Justino, que faz parte de uma família de 200 LGBTs abandonados, ou de Amara Moira, professora, ativista e escritora transexual que, entre tantas lutas, se dedica a melhorar as condições das trabalhadoras sexuais. Chegar a esses seis nomes não foi fácil e, obviamente, que o movimento não é limitado às experiências deles. Mas com essa reportagem especial, queremos que nossos leitores parem um pouco para conhecer uma gente nova e bacana que faz diferença no dia a dia de quem sempre foi marginalizado. Para a Quem, quero que esta seja só mais uma parada da nossa jornada de transformação constante – e agora ainda mais colorida.

*Danilo Saraiva é editor-chefe da Quem

Capa da mês do Orgulho LGBTQI+ (Foto:  )

Alberto Pereira Jr., de 33 anos, se define como artista social, “que busca a intersecção entre audiovisual, teatro e literatura, numa fricção de temas como negritude, homossexualidade e HIV”. Jornalista graduado, ator e atualmente roteirista e apresentador do programa Trace Trends, sobre cultura afrourbana, na RedeTV!, também tem em seu currículo a idealização e direção do documentário “Eu vos declaro…” (2012), sobre famílias LGBTQIA+. “A ideia do documentário veio durante uma das minhas aulas de pós-graduação, que estávamos falando do 16º artigo, que diz que todo ser humano tem direito de constituir família. Pensei: ‘Mas isso não é aplicado de verdade no país que vivo. Eu sou um homem gay que não posso constituir família perante a lei’. Meu intuito foi mostrar histórias de famílias que já existiam, mas que também, por conta do preconceito social, precisam lutar e enfrentar mais dificuldades de se estabelecer como família perante à sociedade. A dimensão familiar é particular e pessoal, mas também precisa de um respaldo legal para termos direitos que não possam ser revogados por nenhum governo”, explica.

Além disso, Alberto é fundador dos blocos carnavalescos Domingo Ela Não Vai, que este ano atraiu 200 mil pessoas, e Bixa Preta Você é Linda, bem menor, com público de mil foliões, que estreou em 2020. Apesar da diversão, os desfiles são sobre empoderamento, autoestima e liberdade. “Eu, enquanto parte da comunidade LGBTQIA+, e a mulher, que gosta de dançar e se expressar, estamos pegando de volta a liberdade sobre os nossos corpos e sexualidade. Se ‘domingo ela não podia ir’ nos anos 1990, nos anos 2000 a gente pode ir para qualquer lugar, porque nossos corpos são livres. A gente precisa pegar essa narrativa”, diz.

Aspa Alberto Pereira Jr. (Foto:  )

Para o jornalista, celebrações, como os blocos e a Parada do Orgulho LGBT, são também manifestações políticas. “A gente tem que entender que o fervo também tem luta. Quando estamos na parada, estamos visibilizando nossos afetos e mostrando que temos orgulho de quem a gente é. Estamos curtindo com amigos, conhecendo pessoas, mas é um ato político ir para a rua e dar cara a tapa à sociedade que está nos matando”, declara.

Ele também opina que a participação de pessoas heterossexuais nestes eventos é válida e bem-vinda, desde que respeitosa, já que, “assim como racismo não é um problema só dos negros, a lgbtfobia não é um assunto restrito aos LGBTQIA+”. “Nós, enquanto sociedade, precisamos entender que todo mundo merece ser respeitado e ter os mesmos direitos e acessos. E a gente só vai avançar quando isso estiver estabelecido como um pacto social. Quando todo mundo entender que não interessa quem eu amo, e sim o que eu faço para meu entorno”, ensina..

Alberto Pereira Jr. (Foto: Rafael Cusato/ Quem)

Alberto conta que nunca chegou a sofrer racismo e homofobia explícita, apesar de saber que existe o preconceito estrutural. Mesmo assim, ele só contou que é gay aos 18 anos para a família, que o apoiou, e revelou no ano passado que é soropositivo. “Esse foi meu último ‘armário’ rompido. Fui entendendo, cada vez mais, que não fazia sentido discursar abertamente sobre minha negritude, sexualidade e não falar sobre HIV. E foi o governo de Jair Bolsonaro que me fez sentir isso mais latente. Ele disse que a gente era despesa, mas pago meus impostos e tenho direitos. Se o governo dá remédios para quem tem pressão alta, diabetes, por que não pode financiar meu tratamento?”, conta ele, que ressalta: “Revelar que sou uma pessoa que vive com o HIV é uma escolha minha, não tenho obrigação social com isso. Eu me cuido, tomo meus remédios, sou uma pessoa indetectável, que não transmite o vírus, e minha saúde está em perfeitas condições. Posso namorar, transar, beber, ir para a balada e amar”, diz.

Alberto acredita que o racismo e a lgbtfobia ainda existem na sociedade, apesar de alguns avanços. “Eu acho que não é uma linha reta. Ao mesmo tempo que a gente tem mais direitos reconhecidos, a gente vê uma camada da sociedade se levantando contra e chamando esses direitos de privilégios. Eu quero ter o direito de poder me casar e isso era um privilégio heterossexual anos atrás. Uma mulher ou um homem trans tem que ter o direito de retificar seu nome, isso não é um privilégio, é a identidade da pessoa. A gente vive no Brasil um liberalismo na economia, mas um conservadorismo na vida pessoal. As pessoas não entenderam nada. Se é liberal, é o indivíduo que vai reger a própria vida, não é o estado, não é a igreja, a gente vive num país laico. Se é para ser liberal na economia, tem que ser liberal em tudo: a descriminalização das drogas, a legalização do aborto, os mesmos direitos para todo mundo”, discursa.

Capa da mês do Orgulho LGBTQI+ (Foto:  )

Ativista, professora, escritora, colunista e, como ela mesma se define em seu Instagram, ‘travesti putafeminista’. A paulista Amara Moira, de 35 anos de idade, conquistou um espaço, infelizmente, ainda raro à maioria das pessoas trans na sociedade brasileira. Morando em São Paulo desde 2016, depois de se candidatar e não se eleger vereadora em Campinas, ela considera que Amara nasceu aos 29 anos. “Aos 27 comecei a tomar hormônios, mas foi aos 29, em 2014, quando pedi pra primeira pessoa me chamar de Amara. Aqui em São Paulo existia um outro universo, mais aberto pro mundo trans. Sou chamada pra eventos, dou palestras, posso vender meu livro, pude me tornar professora. Sou professora do cursinho pré-vestibular Descomplica, maior instituição de ensino à distância do país e colunista da Mídia Ninja”, comemora ela, autora do livro ‘E Se Eu Fosse Puta’, lançado em 2016.

“Quando comecei minha transição, conheci pessoas que eram trans há muito mais tempo que eu e que tiveram que pagar esse preço de se tornarem prostitutas. Muitas não queriam estar ali e queriam ser outras coisas, médicas, professoras, advogadas, enfermeiras, mas não podiam e fizeram da prostituição um espaço de resistência. É como se a sociedade estivesse em guerra com a gente e ali fosse a trincheira, um espaço de defesa e sobrevivência, necessário até que a gente consiga ocupar outros. Quando me assumi travesti na Unicamp [onde ela fez doutorado em Teoria Literária], éramos 5 pessoas trans entre 30 mil alunos. Já na prostituição, era uma rua inteira de pessoas iguais a mim, único lugar onde meu corpo podia ser desejado, onde eu me sentia bonita, onde corpos como o meu eram maioria. Prostituição foi então uma forma de conseguir dinheiro, mas o que eu mais buscava era estar em um lugar onde eu fizesse sentido, onde meu corpo fizesse sentido”, explica ela, que é militante do movimento de trabalhadoras sexuais.

“Essa prostituição que existe para nós é precária, de rua. Diferente de uma casa de prostituição de mulheres que não são trans, em que o cara para na frente e não tem vergonha de entrar. Onde a gente trabalha? Na rua. Quem tem mais condições tem casa ou flat pra atender, faz um anúncio na internet, com mais segurança. Mas é importante lembrar que o único lugar em que prostituição não é crime, segundo o Código Penal Brasileiro, é na rua, onde estamos mais expostas a tudo, especialmente à violência”, analisa Amara. “Hoje em dia meu dinheiro tem vindo de outras fontes e por isso não tenho trabalhado com sexo. Mas ainda estou na luta das trabalhadoras sexuais. Enquanto continuarem a existir o sexo e o capitalismo, vai haver prostituição, então a nossa luta é para que esse trabalho possa ser exercido em melhores condições, com valores dignos e sem nos estigmatizar.”

Aspa Amara Moira (Foto:  )
Na linha de frente da comunidade LGBTQIA+, Amara fala da militância trans em meio à luta por direitos e contra violências das mais diversas. “Se há tanto tempo estamos vivendo da prostituição, é porque há muita demanda e desejo em torno desse corpo. Mas é um desejo não legitimado. Essa figura que nos deseja tem vergonha de sentir isso por nós e nos culpa por despertar esse desejo, o motivo de parte das violências que sofremos. Mas isso também faz com que sejamos sempre a preterida, a outra, a que precisa aceitar migalhas de amor. Isso faz com que muitas trans vivam relacionamentos abusivos, porque não existe a perspectiva de viver de uma outra forma a relação afetiva. Baixa autoestima, acredita que ninguém vai querer se relacionar com ela, tem que lidar com abusos, chantagem emocional”. Bissexual, Amara conta que, justamente pelo machismo e transfobia, praticamente só se relacionou com mulheres depois da transição. “Tenho muita dificuldade de me relacionar com homens, porque os que têm atração por travestis não estão se desconstruindo, continuam reféns dos seus medos. Depois da transição, tenho me relacionado com mulheres cis e trans. Homens cis não querem mais do que sexo rápido e não aceito ser tratada assim. As mulheres, por estarem se desconstruindo no feminismo, no movimento LGBTQIA+, estão mais dispostas a assumirem uma relação com uma pessoa trans.”

Amara, então, analisa por que as trans, que têm uma expectativa de vida de apenas 35 anos de idade no Brasil*, ainda são alvo de tanto desejo e ódio, na mesma proporção. Afinal, o Brasil, o país que mais consome filmes pornográficos trans e travestis**, também é o que mais mata no mundo há uma década. Segundo o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 124 pessoas trans foram assassinadas no Brasil em 2019. O México, segundo colocado, tem metade deste número. “Somos essas figuras que desmascaram os machões, quando eles descobrem que sentem desejo por nós. De um lado são figuras que nos desejam e nos culpam por ter despertado esse desejo. E por outro lado, à medida que a nossa existência vai se legitimando, vamos demonstrando que corpos que nasceram com pênis podem se tornar mulheres. E isso cria muita instabilidade no sistema! Porque, se o pênis é o fundamento da masculinidade, como tolerar alguém que também nasceu com pênis mas não se tornou homem? E que, visivelmente, não é homem! Tudo isso incomoda demais e aí atacar a gente é uma forma de tentar recuperar esse mundo anterior. Porque, se ele aceita que a gente existe, ele vai ter que procurar outra explicação do porquê ele se tornou um homem. O pênis já não basta como justificativa, porque outras pessoas que nasceram com pênis não se tornaram homens. Reconhecer o direito de pessoas trans existirem e legitimar essa identidade deixa a sociedade diante de um desafio: que é o de ter de reinventar a maneira como pensa o que é um homem e o que é uma mulher.”

Amara Moira (Foto: Rafael Cusato/ Quem)

Amara explica, ainda, que o processo de autoaceitação, de autoestima, é uma longa caminhada, especialmente em se tratando dos padrões já impostos. “É um processo complexo. Não basta só se aceitar. Eu cresci vendo imagens dessa cultura que diz o que é um homem, o que é uma mulher. Quando a pessoa não consegue se entender dentro desse gênero imposto a ela e começa a se identificar com outro gênero, os padrões rígidos de masculino e feminino começam a gerar sofrimento também. É difícil você construir uma relação positiva com o seu corpo quando os padrões de gênero são tão distantes do corpo que você tem e isso é algo que a militância trans vem questionando: essa ideia de que “corpo de mulher” é só o de uma mulher cisgênera. Se a gente compra essa ideia, a gente vai precisar mudar muita coisa no nosso corpo para se sentir em paz. Intervenções perigosas, cirurgias, hormônios, tudo isso de forma obrigatória pra que a gente tenha o corpo que é considerado “de mulher”. Não seria mais tranquilo expandir esses padrões de feminino, para que eles comportem corpos parecidos com os que as mulheres trans e travestis têm?”

Mesmo entre tantos pontos que ainda precisam de avanços, Amara considera que quanto maiores as conquistas e visibilidade, maiores também os ataques e retaliações. “Esses ataques públicos do governo Bolsonaro contra tudo que é relacionado às pessoas trans, por exemplo. Para eles é um absurdo que uma universidade brasileira queira construir uma presença maior de pessoas trans em seu espaço. Aí vemos um presidente [Jair Bolsonaro] que sente a necessidade de se posicionar com relação ao ENEM, por causa de uma questão que continha a palavra ‘travesti’, um presidente eleito em cima de fake news e sensacionalismo sobre a comunidade LGBTQIA+. ‘Amar o próximo como a ti mesmo’, mas não se o seu próximo for trans ou travesti, né? As pautas trans vão repercutindo cada vez mais e o setor conservador, que é grande, está incomodado com nosso crescimento, com nossa presença, e tenta fazer com que a gente volte pra debaixo do tapete. Quanto mais visível a gente se torna, mais alvo de ódio a gente se torna também. E vamos precisar de sangue frio pra fazer frente a esses ataques, porque a gente não vai retroceder”.

*Dados da União Nacional LGBT
**Segundo levantamento do site pornográfico Redtube, o brasileiro é o que mais procura por pornografia transexual

Capa da mês do Orgulho LGBTQI+ (Foto:  )

Ana Claudino tornou-se conhecida pelo apelido de Sapatão Amiga nas redes sociais, nome do canal do YouTube que criou em 2017 para compartilhar suas experiências enquanto mulher lésbica e negra na sociedade. Aos 29 anos de idade, ela relembra que o projeto nasceu como resultado de sua própria inquietação após ter crescido e descoberto sua sexualidade sem a ajuda de referências com as quais pudesse se identificar.

Formada em Publicidade e Propaganda, Ana teve seu primeiro contato com a comunidade LGBTQIA+ aos 20 anos de idade, no primeiro ano da faculdade. “Comecei a ser adolescente em 2003, 2004, e naquela época nem YouTube existia, não existia nada. Eu sabia que não queria nada com os meninos além de amizade e que eu sentia algo a mais pelas meninas, pelas minhas amigas. Mas ao mesmo tempo era aquilo, né? Colírio da Capricho, as meninas já pensavam em namorado e eu me sentia muito estranha. Então, por muito tempo, eu fiquei num limbo, a ponto de eu criar um fake na internet para poder jogar para fora aquele meu desejo de ser sapatão. Só que na minha cabeça da época, dos meus 12, 13 anos, para eu gostar de meninas eu tinha que ser um menino. Então eu fiz um fake na internet, no Orkut, e fiquei um tempo vivendo esse fake. Quando eu fiz 20 anos, entrei na faculdade de Publicidade e ali eu tive contato com pessoas LGBT. Porque até então eu não sabia que existiam pessoas LGBT assim próximas à mim”, contou.

Foi uma amiga de Ana que apontou sua sexualidade para ela, o que fez com que ela pesquisasse por conteúdo LGBTQIA+ na internet a fim de entender a si mesma. A tarefa não foi fácil, já que os canais no YouTube tinham seu conteúdo produzido majoritariamente por LGBTs brancos.

Aspa Ana Claudino (Foto:  )

“Só em 2015, 2016, que eu fui começar a ter acesso a canais de pessoas negras LGBT. Tive acesso a criadores negros, mas ainda não via sapatonas pretas produzindo conteúdo no YouTube. Então, [meu canal] vem desta inquietação minha de não me ver, de querer falar. E eu fui, como boa geminiana, e montei meu canal em 2017, inicialmente para falar das minhas próprias vivências mesmo, enquanto mulher negra, mulher lésbica do Rio de Janeiro, do subúrbio, da Zona Norte.”

Hoje em dia, Ana ainda compartilha as próprias experiências com as seguidoras do canal, mas também assumiu um papel informativo após ingressar no mestrado em Políticas Públicas em 2019. Ela passou a integrar o meio acadêmico e começou a estudar autoras ligadas ao feminismo negro, como Bell Hooks, Audre Lorde, Djamila Ribeiro e Lélia Gonzalez, e resolveu repassar esse conhecimento para a população negra de forma acessível e didática, conversando com todas as classes sociais, não só no seu canal no YouTube mas também na sua coluna do portal Mídia Ninja.

A gratificação vem da resposta do público, que desde 2017 demonstra empolgação por ter mais uma figura no YouTube com quem se identificar dentro do meio LGBT. “Quando fiz o segundo ou terceiro vídeo, sobre vivência lésbica, onde estão as lésbicas negras e visibilidade lésbica, a interação com o público foi muito positiva porque diversas meninas chegavam para mim e falavam que estavam admiradas com o meu trabalho, que nunca tinham visto aquilo na plataforma e que se viam muito nas minhas experiências, achavam muito importante essa questão da troca, de uma ver a outra e assim ir crescendo, não se sentir sozinha.”

Ela ressalta a importância do debate racial e de classes dentro do meio LGBTQIA+, assim como a importância da visibilidade dos corpos diversos. Para ela, a comunidade ainda é avessa a analisar o próprio racismo e a própria gordofobia, algo imprescindível para que seja possível construir um espaço de acolhimento para todos.

Ana Claudino (Foto: Daniel Janssens/ Quem)

“Muitas pessoas acham que elas não são racistas porque elas são LGBT. É muito complicado, é um meio muito racista, assim como a sociedade. O racismo é estrutural. Mas cada vez mais se faz necessário criar espaços de acolhimento entre os LGBTs negros, porque a gente não encontra isso dentro do meio LGBT mainstream”, analisa. “Eu acho que o principal ponto de mudança é as pessoas escutarem o que estamos falando, escutarem as nossas vivências, repensar quando nós apontamos alguma denúncia de opressão, de gordofobia, de racismo, de transfobia. Depois é consumir conteúdo de pessoas LGBTs negras e gordas que estão na internet produzindo e dando verdadeiras aulas sobre os temas. Acho que é sair um pouco dessa zona de conforto, de achar que nós temos que falar tudo, e também pesquisar um pouquinho.”

A internet é uma das formas de estar em contato com essas mudanças. Nos dias atuais, Ana acredita que as redes sociais tenham sido um agente importante para colocar as pessoas em contato com referências e representantes da luta com quem possam se identificar, de militantes à artistas que empunham a bandeira. Estar em contato com o público e poder fazer parte dessa mudança é o fator mais gratificante de produzir conteúdo na internet para Ana.

“Eu gosto muito de usar um pensamento da Audre Lorde, que foi uma intelectual negra lésbica norte americana, que fala sobre a importância de a gente transformar o silêncio em uma linguagem e ação. A importância de a gente falar por nós mesmas. Então eu acho que o principal ponto que o canal me trouxe é isso, de poder enxergar o poder transformador da comunicação, como a comunicação pode salvar vidas”, refletiu.
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Capa da mês do Orgulho LGBTQI+ (Foto:  )

Volta e meia surge um estudo econômico que destaca o potencial de consumo da comunidade LGBTQIA+, especialmente dos homossexuais. Esses dados apontam que, em média, ganhamos mais e gastamos mais com viagens, roupas e afins. Não à toa, nos últimos tempos, muito tem se discutido sobre dinheiro rosa (pink money) e a real intenção das empresas e marcas quando se declaram contra o preconceito em uma campanha ou lançam algum produto ou serviço pensado especificamente para nós.

Acontece que essa figura bem-sucedida e disposta a desfrutar de tudo que uma boa estrutura financeira pode oferecer é uma realidade distante para muitos gays e lésbicas, bem como para a população trans e travesti. E na visão de Elvis Justino Stronger, um militante paulistano de 33 anos, a Stronger e outras famílias LGBTs evidenciam bem esse cenário.

“Como as famílias LGBTs são um movimento marginalizado, não se sabe ao certo o ano de origem ou até mesmo informações atuais detalhadas. Acredita-se que tudo começou com as travestis de São Paulo, na década de 1950 ou 1960, quando elas acolhiam pessoas que eram expulsas de casa por causa da orientação sexual ou identidade de gênero. Com o tempo, essas pessoas chamavam essas travestis de mãe, adotavam seus sobrenomes e acolhiam outros LGBTs quando tinham condições”, explica Elvis, que faz parte da Stronger desde o final de 2013. “Histórias como essas, que ainda são comuns, mostram que o gay branco de classe média alta não representa toda a comunidade. Tem muita gente sofrendo e sendo abandonada na periferia”, completa.

Aspa Elvis Justino (Foto:  )

Mesmo não sendo o “fundador” da família, criada por Roberto Stronger, em 2006, Elvis se tornou uma espécie de representante político da Stronger. Ou seja, além de estar na linha de frente em tarefas como conseguir doações e entregar, todo mês, cestas básicas para cerca de 200 LGBTs em situação de vulnerabilidade, ele frequentemente participa de eventos e concede entrevistas em nome de seus companheiros. “Mesmo assim, não me considero um porta-voz. Esses jovens estão comigo sempre que possível e eu quero que eles sejam a própria voz”, pontua.

Diferentemente da maioria das pessoas que procuram a Stronger, a maior rejeição que Elvis sofreu foi a de si mesmo. “Não me ‘assumi’, fui ‘assumido’ por um ex-namorado que ligou para os meus pais e contou tudo em um momento de raiva. Sexualidade não era um tema na minha casa, então, a reação deles, que são evangélicos, foi ignorar o que ouviram, o que fazem até hoje”, conta. “Mas eu, que cresci na igreja, tive muita dificuldade de me aceitar. Tentei me relacionar com mulheres, passava horas e horas orando e em jejum, achando que tinha algum espírito ruim em mim. Depois que tantas tentativas não deram certo, comecei a pensar que, se Deus não me mudou, a homossexualidade não pode ser pecado”, completa.

Elvis Justino (Foto: Rafael Cusato/ Quem)

E foi se sentindo mais à vontade para frequentar encontros LGBTQIA+ que Elvis ficou sabendo do trabalho da Stronger e se juntou a eles. “Estar com eles me trouxe segurança para ser quem eu sou. Mefaz evoluir, ter certeza de que não estou sozinho na luta e acreditar cada vez mais que família é algo que vai além do sangue”, diz, relembrando um dos casos mais marcantes que viu ao longo desses anos de militância. “Já acolhemos uma jovem transexual em fase de transição que precisou sair de casa e procurar ajuda porque os pais a prendiam e trancavam os armários e a geladeira para que ela não pudesse comer. Então, tenho muito orgulho fazer parte da Stronger e poder ajudar a proporcionar esse sentimento de pertencimento e uma vida melhor a outras pessoas”.

Capa da mês do Orgulho LGBTQI+ (Foto:  )

Jessica Tauane, de 29 anos de idade, criou o Canal das Bee em 2012 como seu projeto de conclusão de curso da faculdade de comunicação em São Paulo, mas o trabalho conquistou muito mais do que um diploma no meio acadêmico. Com mais de 370 mil inscritos e 34 milhões de visualizações, o canal se consolidou como um dos principais criadores de conteúdo sobre e para a comunidade LGBTQIA+.

“Sou cristã e a coisa mais difícil para mim foi me aceitar. Quando chegou a época de fazer o TCC, eu ainda estava nessa trajetória de aceitação. Consigo falar sobre coisas que quando eu era adolescente ia ter sido melhor ter ouvido. Comecei o Canal das Bee justamente para levar informação que eu não tinha tido durante a minha adolescência. Nunca tinha visto alguém ter tanto orgulho de ser quem é, falando sobre a comunidade”, diz a influenciadora.

“Tudo o que tem no Canal das Bee serviu para mim. Eu falando para mim mesma. Eu precisava escutar aquelas coisas. No final, eu não tinha orgulho de ser quem era, ainda estava lutando. É muito interessante falar sobre orgulho e as pessoas não entenderem. ‘Não posso ter orgulho de ser hetero?’, pode, mas você nunca teve dificuldade em ser hetero. A diferença é que a gente já teve vergonha, raiva, tristeza em ser quem era. Convertemos esses sentimentos em orgulho.”

O canal foi criado pouco tempo depois de Jessica se assumir como lésbica para a família. Ela conta que, na época, o pai teve mais dificuldade em aceitar a sua orientação sexual. “Ele pediu para a minha mãe para que eu não conversasse com ele, porque ele não sabia como levar essa conversa comigo. Eu respeitei, mas também pensei: ‘Não vou deixar de fazer as coisas que eu quero’. Alguém ia ficar triste nessa história. Se eu falasse na internet que eu sou lésbica, ele poderia ficar triste, mas se eu não falasse e não fizesse o que estava com vontade, eu ia ficar triste. Segui o meu coração. Depois de algum tempo, ele mesmo começou a mostrar quão orgulhoso ele era de mim e do meu trabalho.”

Aspa Jessica Tauane (Foto:  )Os pais de Jessica também encontraram compreensão na ONG Mães pela Diversidade. “Eles organizaram um churrasco da organização em casa. Meu pai conheceu um monte de gente e teve muita compaixão por um pai e uma mãe que tiveram a filha assassinada por transfobia. Ali também foi um ponto de virada muito grande na vida dele. A gente precisa ter pessoas iguais a gente para a gente se fortalecer. Foi um caminho de aceitação que ele também trilhou. Eu demorei quase 20 anos para me aceitar, eu sabia que não ia ser do dia para a noite que eles iam ficar de boa comigo. Deu tudo certo!”.

Jessica brinca que o Canal das Bee é como uma série: com algumas temporadas, principalmente com as mudanças na equipe e a abordagem de vários assuntos da comunidade – com o intuito de mostrar a diversidade das lutas. Atualmente, o projeto é apresentado por Fernanda Soares e Herbett Castro.

“O público tem muito carinho. Parece que a gente pegou uma geração e, de fato, conseguimos ajudar algumas milhares de pessoas pelo Brasil. É muito bonito toda vez que me mandam mensagens como ‘Você me ajudou a me aceitar’, ‘Você salvou minha vida’. A gente não tem dimensão da força e do quanto vai ajudar alguém que está triste, sozinha, achando que não vale nada, pensando no pior e você mostra que não, que as coisas vão melhorar!”, explica.

Em 2014, o Canal das Bee passou por uma das primeiras dificuldades que fizeram Jessica e a equipe questionarem a continuidade do projeto. Os equipamentos, emprestados para a produção dos vídeos, foram roubados.

Jessica Tauane (Foto: Rafael Cusato/ Quem)

“Não dá para ganhar dinheiro tão rápido e fácil na internet, principalmente com temas LGBTs. Fomos os primeiros influenciadores a conseguir monetizar o trabalho com influência especializada em LGBTs. A gente queria arranjar emprego para pagar esses equipamentos, mas o público começou a querer depositar dinheiro! Na época, vendemos camisetas e canecas para conseguir pagar essa dívida.”

Jessica ressalta que entre as principais conquistas do canal foi o projeto Orgulho de Ser, produzido em parceria com o Google, que trazia esquetes e entrevistas com diversas personalidades para ilustrar cada sigla da comunidade. “Conseguimos educar muita gente. Esses vídeos já passaram em empresas, escolas e faculdades”.

Com oito anos de Canal das Bee, a influenciadora explica a importância do projeto na vida dos fãs, principalmente em uma comunidade com altas taxas de suicídio. “Você vê como é possível mudar o mundo com ações pequenas. Um canal no YouTube é algo tão singelo, despretensioso, e ao mesmo tempo você ajuda alguém a passar uma barra difícil. Isso é mudar o mundo. É um impacto muito real. Você deixa um legado, é muito emocionante. Quando falamos sobre resistir significa que o mundo nos marginaliza tanto que, literalmente, podemos não estar aqui amanhã. É sobre existirmos de novo a cada dia contra todas as chances da vida. Quando eu era adolescente, eu mesma já não quis estar aqui por ser quem eu sou. Eu ia dormir rezando para Deus para não acordar no dia seguinte. Tudo o que eu podia para tentar não ser lésbica eu fiz. Rezei, fiz penitência, jejum, nada adiantava. Eu fiquei completamente desesperada, entrei em depressão. Eu existi de novo. Todos os dias quando a gente acorda significa que estamos existindo de novo.”

Capa da mês do Orgulho LGBTQI+ (Foto:  )

Aos 33 anos, Katú Mirim é uma das fundadoras do coletivo de indígenas LGBTQIA+ Tibira, um nome pouco conhecido, mas de extrema importância para a luta contra a LGBTfobia no Brasil: Tibira, da tribo dos Tupinambás, foi o primeiro homem morto por homofobia no país, em 1614*.

O coletivo, que tem apenas um ano de existência, mas já soma 16,5 mil seguidores, foi fundado por Katú ao lado de Erisvan Guajajara, Neimar Kiga, Priscila Tayná, Danilo Tupinikim, Yacunã Tuxá e Tanaíra Sobrinho, inicialmente como uma plataforma de informação e acolhimento para indígenas LGBTQIA+ não só do Brasil, mas da América, compartilhando relatos e experiências de pessoas de diferentes povos por todo o continente.

Apesar de ainda ser um projeto completamente virtual, Katú revela o sonho de ver o como Tibira em algo a mais. “A gente quer transformar isso em algo físico, ter uma casa de acolhimento como a Casa1 – um espaço que recebe jovens LGBTQIA+ expulsos de casa – em São Paulo, focada em artes e cultura indígena. Às vezes tem pessoas do interior, aldeados que querem vir para São Paulo e não sabem para onde ir, onde ficar. Isso tudo já está sendo colocado no papel, mas precisamos de incentivo, de investimento”, contou.

Aspa Katú Mirim (Foto:  )

Katú nasceu no interior de São Paulo filha de mãe índia e pai negro e foi adotada por pais brancos e evangélicos aos 11 meses de idade. “Com 13 anos fui atrás de conhecer minha ancestralidade, a história de onde eu vim e descobri ser do povo Boe Bororo, onde fui aceita e reconhecida”. Na mesma época, ela também passou a se entender enquanto mulher bissexual, buscando nas ruas informações sobre sua identidade.

“Não ensinavam sobre quem eu era na escola pública, também não falavam sobre gênero e sexualidade na minha casa evangélica. Tudo o que aprendi foi na quebrada. Não posso nem dizer que foi na biblioteca. Na época até existia internet discada, mas quem tinha eram meus amigos brancos, não eu”, afirmou.

Quanto ao preconceito, Katú garantiu que a LGBTfobia existente dentro de povos é, na verdade, herança dos não-indígenas: “O preconceito vem do colonialismo, dos jesuítas. Claro que tem, às vezes, pessoas que não gostam da sua sexualidade, do seu gênero, mas a violência estrutural vem de fora.”

“O racismo e a LGBTfobia sempre estiveram juntos”, continuou Katu sobre a interseccionalidade de suas pautas. “Eu ouço sempre que  ‘não adianta só ser índia, ainda tem que ser sapatão’. Se estamos eu e minha namorada na rua e um casal de lésbicas brancas, é pra gente que vão apontar primeiro.”

Katú Mirim (Foto: Rafael Cusato/ Quem)

Mãe de uma menina de 10 anos, Iris Anahi,- fruto de um relacionamento com um homem negro -, que ainda está aprendendo sobre suas origens e identidades, Katú Mirim tem uma visão otimista sobre o futuro, muito por conta da importância da internet nas lutas das minorias.

“Hoje em dia mais vozes estão sendo ouvidas. Você lê texto de pretos, LGBT, gordos, deficientes. Acho que um dia, nem que seja daqui 50 anos, sua neta vai poder olhar e falar ‘eu não acredito que isso acontecia’, assim como a gente faz hoje com coisas que aconteciam no passado”, garantiu.

*No ano de 1614, o missionário francês Yves d’Évreux (1577-1632) ordenou a tortura e execução do índio Tibira, da tribo dos tupinambás, alegando que ele cometeu o “pecado da sodomia”, segundo pesquisa de André Bernardo.

TEXTOS: Danilo Saraiva, Giulia Bressani, Isabela Pacilio, Léo Gregório, Raíssa Rivera, Thaís Sant’Anna e Vand Vieira
FOTOS: Rafael Cusato (SP) e Daniel Janssens (RJ, via webcam)
ARTE: Gabriel Miranda

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