Uma invasão de traficantes a um conjunto de favelas na região central do Rio, ocorrida há duas semanas, foi organizada por criminosos que estão atrás das grades, segundo a Polícia Civil. Com mais de 80 criminosos armados, a ação deixou quatro mortos no Complexo do São Carlos. Entre elas, uma moradora que usou o próprio corpo para salvar o filho.

UOL teve acesso a detalhes das investigações que apontam o ataque, idealizado pela cúpula do CV (Comando Vermelho), como estratégico. Com a perda de territórios para a milícia nos últimos anos, a principal facção criminosa do Rio tem planos de expansão a partir do domínio da venda de drogas em favelas do centro da capital.

Camuflagem e 50 fuzis

Na tarde de 26 de agosto, os criminosos se separaram em dois grupos, na divisa com o Complexo do São Carlos, localizado próximo do sambódromo e composto pelas comunidades do São Carlos, Mineira, Zinco e Querosene.

Eles usavam coletes à prova de balas e roupas camufladas, para dificultar a identificação deles nas áreas de mata. Com invasões simultâneas e separadas em pequenos grupos, os traficantes usaram cerca de 50 fuzis, granadas, pistolas, carros e motos para agir.

Segundo a polícia, um dos grupos ficou no Morro dos Prazeres, chefiado por Cláudio Augusto dos Santos, 50, conhecido como Jiló dos Prazeres.

Com cinco mandados de prisão em aberto por tráfico, um dos mais experientes traficantes em atividade do CV segundo a polícia foi indiciado na investigação que identificou a participação de 25 criminosos no ataque —todos tiveram a prisão temporária decretada.

Entre eles, também está Paulo César Baptista de Castro, o Paulinhozinho, 42, suspeito de organizar as ações da outra parte do grupo no morro Fallet-Fogueteiro.

O conhecimento do território de Alex Marques de Melo, o Leo Serrote, foi apontado pela polícia como fundamental para o plano da invasão. Ele é apontado como o chefe do braço armado da invasão.

Leo Serrote iniciou a sua trajetória no mundo do crime no TCP (Terceiro Comando Puro), facção que atua no São Carlos. Entretanto, rompeu relações com o tráfico local e trocou de facção há cerca de um ano, quando começou a auxiliar na estratégia de tomada da área.

A tomada do São Carlos só não ocorreu porque a Polícia Militar ocupou o território.

O grupo chefiado por Leo ainda permanecia na favela na tarde de 27 de agosto, um dia após a tentativa de invasão, já com a presença ostensiva de policiais.

Os criminosos fizeram então uma moradora refém para negociar a própria rendição. A ação foi gravada em vídeo pelos próprios criminosos, para que pudessem se certificar de que não seriam mortos ao se entregar.

27.ago.2020 - Alex Marques de Melo, conhecido como Leo Serrote, chefiou a tentativa de invasão no Complexo do São Carlos, na região central do Rio, diz a polícia - Polícia Civil/Divulgação - Polícia Civil/Divulgação
27.ago.2020 – Alex Marques de Melo, conhecido como Leo Serrote, chefiou a tentativa de invasão no Complexo do São Carlos, na região central do Rio, diz a polícia

Imagem: Polícia Civil/Divulgação

Ele foi preso após se render. Até o momento, nove suspeitos de participação no episódio foram detidos.

Cúpula do CV planejou a ação em Bangu

Segundo investigações da Dcod (Delegacia de Combate às Drogas) e da 6ª DP (Cidade Nova), a ação foi organizada por quatro integrantes da cúpula do CV, que cumprem pena no Complexo de Gericinó, conjunto de presídios em Bangu, zona oeste do Rio.

Entre eles, Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, um dos pivôs de uma das mais sangrentas guerras entre facções criminosas do Rio nos últimos anos na maior favela do Rio, a Rocinha.

Com a prisão de Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, capturado em novembro de 2011, 157 passou a chefiar o tráfico na Rocinha, até então dominado pela facção ADA (Amigos dos Amigos).

Um desentendimento entre os dois deu origem a um episódio que ficou conhecido como “guerra da Rocinha”, que deixou ao menos 20 mortos na favela e mobilizou o Exército, em setembro de 2017.

No confronto, traficantes do São Carlos foram acionados por Nem para tentar invadir a Rocinha. Depois do episódio, Rogério 157 se associou ao CV, mas acabou sendo preso. Agora, é apontado pelas investigações como um dos mentores da ação no São Carlos, também considerada uma forma de represália ao envolvimento dos traficantes de lá.

Estava escrito ‘157’ em fuzis apreendidos na invasão. É a assinatura do Rogério 157 no crime, que teve uma importante participação nesse ataque. Mas a principal motivação dessa ação é a posição geográfica do São Carlos, que permitiria o domínio do tráfico de drogas na região central do Rio. O Comando Vermelho perdeu território para a milícia nos últimos anos e agora quer recuperar o espaço perdido

Gustavo Castro, delegado da Dcod

A Polícia Civil agora monitora as ações das facções criminosas em disputa e estuda pedir a transferência de detentos para presídios federais, para minimizar as chances de novos confrontos.

Todos os indiciados são investigados por organização criminosa, tráfico de drogas, associação ao tráfico e porte ilegal de arma de fogo.

A polícia nega que a investigação tenha sido baseada em possíveis escutas telefônicas dos presos. Investigadores identificaram a participação de detentos com base em depoimentos e na complexidade da ação, com criminosos de diversas comunidades com armas de grosso calibre —segundo a polícia, um forte indício de que houve o aval de membros da cúpula que estão presos.

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