Indo além das teorias acadêmicas sobre o desenvolvimento social e econômico de uma região, seja ela pequena ou grande, existem exemplos práticos fascinantes que podem ser vistos no nosso dia-a-dia. Um dos mais pronunciados nesse aspecto vem de cidades que ao longo dos anos acabam se tornando centros de produção de várias indústrias, desde comércio até a cultura, graças ao seu histórico como polo da sua principal atividade econômica desde décadas, ou até mesmo séculos, atrás.

O fenômeno evidentemente ocorre também no Brasil, principalmente no Nordeste. Ainda que muitos destes venham mais por conta da agricultura e, portanto, do cultivo de algum produto da terra – caso de Ilhéus, na Bahia, sendo considerada a “capital nacional do Cacau” – tem-se espaço para que outras formas de identificação apareçam, muito às vezes por conta de atividades recentemente desenvolvidas na região. Isso quando não ocorrem fatos que marcam um estado inteiro, como é o caso da tradição literária na Paraíba que vem desde Ariano Suassuna até os tempos de hoje.

Mas tratando-se de municípios, um dos melhores modelos paraibanos nesse quesito é a cidade de Cabaceiras, localizada na região de Cariri, distante 189 quilômetros da capital, João Pessoa. O nome da localidade pode não ser tão conhecido, mas o seu apelido, “Roliúde Nordestina”, com certeza atiça a memória do leitor.

A transformação de Cabaceiras em uma das mais famosas locações de filmagem de peças cinematográficas brasileiras não veio do nada. Como foi o caso de suas contrapartes internacionais, foi preciso um bocado de dedicação e de sorte por parte dos envolvidos no processo, que hoje colhem os frutos a partir da indústria do cinema e do turismo que sua nova “natureza” atrai.

Luz natural da cidade atrai câmeras e ação

Enquanto que cidades paraibanas como Patos ganhavam notoriedade graças à monumentos como o Parque Religioso Cruz da Menina, Cabaceiras levava a fama de grande criadora de bodes no centro do estado. O animal ainda é encontrado ao longo de toda a cidade, seja nos campos se alimentando de grama e de folhas das árvores sertanejas, seja nas lojas de artesanato e nas banquinhas de comida que usam o couro e o leite do bode, respectivamente, para criarem diversos produtos que atraem os olhos e o paladar dos nativos e dos turistas na região.

Mas a partir da década de 1990, Cabaceiras acaba sendo “descoberta” pelos cineastas. Tal episódio não foi totalmente aleatório, uma vez que Cabaceiras é a cidade com o menor índice pluviométrico do país – 336,6 milímetros de chuva ao ano numa média feita entre 1926 e 2011. A falta de chuva e de nuvens faz com que a cidade seja cenário ideal para a instalação de equipamentos de filmagem, que sofrem bastante com climas mais úmidos.

Além disso, o clima da cidade faz com que a luz natural seja constante em Cabaceiras. Aliando isso com lindos cenários naturais e feitos pelo homem, como o Lajedo de São Mateus e o centro histórico, a localidade torna-se mais do que ideal para se filmar filmes que se passam no sertão nordestino.

Esses foram alguns dos principais fatores que levaram à escolha de filmarem a adaptação cinematográfica do famoso livro de Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida, em Cabaceiras no fim dos anos 1990. Foi com essa peça artística que a cidade conseguiu “oficializar” o seu apelido, com mais de 20 filmes e séries sendo filmados logo após o filme de grande sucesso.

Hoje Cabaceiras é destino tanto de cineastas, quanto de turistas que querem ser testemunhas oculares dos cenários de filmagem de algumas das grandes produções recentes do cinema brasileiro. Além de O Auto da Compadecida, entram no grupo de grandes produções gravadas na cidade os filmes Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes; e Romance, de Guel Arraes, mesmo diretor do “Auto”.

Outros exemplos vem lá de fora

Cabaceiras é uma cidade única no Brasil pela sua feição cinematográfica, mas não no mundo uma vez que várias outras cidades contam com esse privilégio. Afinal o nome “Roliúde” vem claramente da contraparte estadunidense, Hollywood, que é casa de vários dos maiores estúdios cinematográficos do mundo.

Mas o processo de “transformação” de uma cidade em um polo cinematográfico é às vezes muito parecido com o que ocorreu em Cabaceiras. Um dos grandes exemplos nesse âmbito vem da série Game of Thrones, que transformou cidades como a cidade croata de Dubrovnik, e várias outras localidades na Islândia e na Escócia, em centros turísticos por terem se tornado cenários da série de grande sucesso da HBO.

Tais locais ofereciam condições propícias, além das suas estruturas arquitetônicas, que as tornavam ideais para a gravação de várias cenas famosas do seriado. E assim como aconteceu com o turismo dessas cidades, ocorreu também que vários produtos associados à Game of Thrones tiveram amplo sucesso. Alguns dos destaques são os livros que deram origem à série, escritos por George R.R. Martin, que ocuparam por anos as listas de mais vendidos nas livrarias mundo afora; e jogos para várias plataformas, como o site de caça níquel online da Betway Cassino. Até foi criado um jogo oficial de Game of Thrones desenvolvido pela Telltale, onde se era possível definir várias tramas inspiradas na série, usando personagens famosos da história. E nem mesmo os jogos de mesa foram esquecidos, uma vez que GoT inspirou a produção de jogos de tabuleiro do seriado.

Cabaceiras, por conta de sua aptidão ao cinema, pode se ver no futuro em uma situação semelhante às cidades que foram escolhidas como lugar de filmagem para Game of Thrones. Uma grande obra cinematográfica do cinema nacional como Auto da Compadecida já deu à cidade um “gostinho” da coisa, e nada impede que no futuro uma grande obra internacional queira utilizar as condições mais que propícias da cidade como cenário. Ainda mais se no futuro, tivermos cada vez mais obras que busquem usar não só cenários nordestinos, como também atores da região para retratar a cultura local de forma fidedigna.

Para que isso aconteça, é de suma importância proteger os patrimônios culturais, naturais e humanos que fazem Cabaceiras ser uma cidade tão especial na Paraíba. Esse é um esforço coletivo, que exige recursos públicos e privados para que seu sucesso seja alcançado.

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