Zé Ramalho, em Areia Dourada e a Tia Zélia, no detalhe (Arquivo pessoal)

Quando muito antes da Pandemia se estabelecer em 2020, mas já pressentindo os efeitos trágicos da Covid-19, o genial cantador e poeta futurista Zé Ramalho tomou uma decisão pessoal que abalou suas tias queridas, ou seja, vendeu ao pessoal do Armazém Paraíba por R$ 2,5 milhões a casa histórica localizada na praia de Areia Dourada, em Cabedelo.

Poucos dimensionam o significado do fim de um sonho – moradia nutrido por décadas pelas irmãs Ramalho nas pessoas de Zélia, Inezinha, Maria e Tereza Ramalho, todas tias de Zé Ramalho, o neto de Avohai. É que, em tese, não se vende em vão os sonhos acalentados por várias gerações de mulheres da dignidade familiar. Ainda vive a saudade imorredoura.

O fato é que, depois da morte de alguns esteios femininos do clã tácito Ramalho, nada foi mais duro do que conviver com a “morte morrida” de um sonho acalentado há décadas dos veraneios já não mais existente, com a venda da casa ramalhiana pelo medo da Covid.

OS EFEITOS NO BRILHO DE ZÉLIA

Relutante, sempre dignificante no sentido do brilho da família e, em especial, de Zé Ramalho, a tia de nome Zélia é um símbolo de resistência sem ignorar a dor pela perda das irmãs e da casa de Areia Dourada, tanto que se encontrou na produção de Livro editado por Juca Pontes no qual aborda as delícias da cozinha servida pelos seus antepassados no bairro de Miramar.

Eu mesmo, lá atrás, pude conviver com o sabor do feijão e dos outros sabores, agora deliciados em texto pela sabedoria de Zélia, digna e fiel à sua história.

Pena que, neste tempo extraordinário de memória, nem mesmo Zé Ramalho tenha tido tempo e oportunidade para escrever a introdução e/ou apresentação do livro do que tanto ele deliciou. Ficou faltando esta delícia.

É, Zé Ramalho insiste produzindo arte extraordinária, mas sumiu com sua excentricidade da vida diante de quem mais o ama.

A ESTROFE VIVA

Zélia Ramalho sabe com profundidade a força do verso do cantador, em tese sumido não se sabe para que.

“Acho que os anos irão se passar
Com aquela certeza
Que teremos no olho
Novamente a ideia
De sairmos do poço
Da garganta do fosso
Na voz de um cantador”

O PRIMEIRO OBSERVADOR

Há 15 anos atrás, Zé Ramalho foi o primeiro cidadão crítico do mundo a ter acesso ao primeiro exemplar – “boneca” – da Revista NORDESTE em encontro/almoço no Leblon, no Rio de Janeiro.

Também como Zélia, ele sumiu para não participar de depoimento extraordinário, a exemplo do livro familiar. Faz parte, pois Zé é mesmo assim.

SÍNTESE

Como disse o poeta, “cada um dá o que tem”.

Walter Santos 

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