Morre Jean-Claude Carrière, escritor e roteirista, nesta segunda-feira, aos 89 anos.
 Chris Pizzello/Invision/AP – Chris Pizzello

O roteirista, diretor e roteirista Jean-Claude Carrière, que trabalhou ao lado de Luis Buñuel, Jacques Deray e Milos Forman, morreu na noite de segunda-feira aos 89 anos, anunciou sua filha à agência AFP. Definindo-se como um “contador de histórias”, Carrière assinou cerca de 60 roteiros e também cerca de 80 livros (contos, ensaios, traduções, ficções, roteiros, entrevistas). Ele também foi ator, dramaturgo e escreveu canções para Juliette Gréco, Brigitte Bardot e Jeanne Moreau.

Jean-Claude Carrière, prolífico escritor e gênio roteirista ao lado de Luis Buñuel, Jacques Deray ou ainda Philippe Garrel, definiu-se como um “contador de histórias”, “mais atraído pelo diferente do que pelo semelhante”.

Elogiado tanto pela crítica como pelo público, é reconhecido pelo grande talento da escrita, seja produzindo para o cinema, o teatro e a literatura.

Todas as formas de escrita

“Tenho trabalhado em todas as formas de escrita. Acho que tenho um bom arsenal. Há algo em mim que se contenta em estar a serviço de um autor, em fluir em seu pensamento, em me adaptar o melhor possível. Não tenho ego”, assegurou este distinto e afável humanista, conhecido também pela sua grande capacidade de produção e humor corrosivo.

Ao longo de sua vida, Jean-Claude Carrière privilegiou “encontros, amizades e mestres”, como Dalai Lama, com quem escreveu um livro, ou o cineasta espanhol Luis Buñuel, com quem trabalhou por 19 anos, até sua morte.

Outro encontro importante durante sua carreira foi com o dramaturgo britânico Peter Brook, para quem adaptou ao palco “Mahabharata”, um épico da mitologia hindu, apresentado durante nove horas seguidas no Festival de Teatro de  Avignon em 1985, provocando forte reação do público. “Assisti-lo tendo esquecido que havia escrito, foi uma das grandes alegrias” da minha vida, garantiu.

Paixão pelas religiões

“Radicalmente ateu”, mas “apaixonado pela religião e seus desvios”, alheio a qualquer fanatismo, escreveu sobre o budismo e o hinduísmo, mas também sobre o cristianismo com seu romance mais famoso, “A controvérsia”, sobre a conquista do Novo Mundo pelos espanhóis, adaptado para o teatro e para a televisão.

Carrière também dedicou seu trabalho ao Islã por meio de traduções de poesia persa juntamente com sua esposa, a escritora iraniana Nahal Tajadod, com quem teve uma filha.

Como roteirista, Jean-Claude Carrière teve seu nome presente em diversos  filmes importantes: “O Diário de uma camareira”, “Belle de jour” e “O charme discreto da burguesia” (Luis Buñuel), “Decolando” (Milos Forman), ” Borsalino “(Jacques Deray),” O tambor” (Volker Schlondorff, Palma de Ouro em Cannes de 1979),” Danton “(Andrzej Wajda, prêmio Louis Delluc 1982),” A insustentável leveza do ser “(Philipp Kaufman),” Cyrano de Bergerac “(Jean-Paul Rappeneau),”O retorno de Martin Guerre” (Daniel Vigne), que lhe rendeu o César de melhor roteiro em 1983.

Em 2014, Carrière recebeu um Oscar honorário por seu trabalho como roteirista.

Pôster do filme Belle de jour
Pôster do filme Belle de jour © Wikipédia

Nascido em 17 de setembro de 1931 em Colombières-sur-Orb (Hérault, sul da França), filho de pais vinicultores que se mudaram para a região parisiense  em 1945 para abrir um café, o jovem rapidamente se revelou um estudante brilhante.

Ele se tornou um bolsista e conseguiu entrar para a prestigiosa École Normale Supérieure, onde se formam os grandes intelectuais franceses. Aos 26 anos, assinou seu primeiro romance, “Le Lézard”, fez o serviço militar na Argélia, conheceu o cineasta Jacques Tati e Pierre Etaix, com quem recebeu o Oscar de melhor curta de ficção em 1962 por “Feliz Aniversário”.

Bibliófilo, apaixonado por desenho, astrofísica, vinho e também fã de Tai-Chi-Chuan (arte marcial), Jean-Claude Carrière presidiu durante dez anos a Fémis, a Escola Superior Nacional de Imagem e Som. Ainda muito ativo apesar da idade, em 2018 escreveu um último ensaio, “O vale do nada”, e co-assinou em 2020 o roteiro do longa-metragem “Le sel des larmes” de Philippe Garrel.

(Com AFP)

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