A candidata de direita Keiko Fujimori e o representante da esquerda radical, Pedro Castillo, se enfrentaram nas urnas em 6 de junho de 2021. 
Cesar Bazan, Martin Mejia AFP/Archivos

O candidato da esquerda radical Pedro Castillo se declarou vencedor das eleições presidenciais do Peru nesta quarta-feira (9), antes mesmo do pronunciamento dos resultados oficiais do pleito, ocorrido no último domingo (6). A apuração foi disputada voto a voto, com a candidata de direita, Keiko Fujimori, denunciando indícios de fraude, não confirmados pelos órgãos de fiscalização, o que pode levar a briga para os tribunais.

O país está bastante dividido. Os votos da capital Lima (um terço do total) foram para Keiko Fujimori, principalmente nas áreas onde vive a elite peruana, enquanto as áreas rurais deram vantagem ampla para Pedro Castillo”, explica Raul Nunes, professor do núcleo de Estudos de Teoria Social e da América Latina da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. “É uma divisão entre classes: pobres votaram no Castillo e a elite, em Keiko Fujimori”, completa.

Com 98,3% das urnas apuradas, o candidato do partido Peru Livre alcançou 50,2% dos votos contra 49,7% de Fujimori. Com a vantagem, o esquerdista recebeu saudações do ex-presidente da Bolívia, Evo Morales. “Parabéns por esta vitória, que é a vitória do povo peruano, mas também do povo latino-americano que quer viver com justiça social!”, tuitou o ex-presidente indígena de esquerda (2006-2019).

Contudo, a disputa pode continuar nos tribunais, caso o resultado não seja aceito. Keiko Fujimori está perto de perder pela terceira vez a chance de ser a primeira mulher presidente do Peru.

“O maior medo é que a Keiko não reconheça os resultados, mobilize sua base e o Congresso para aprovar reformas constitucionais que inviabilizem um governo democrático”, acrescenta Nunes. “O Congresso também está formulando a escolha dos novos membros do Tribunal Constitucional, órgão máximo do judiciário peruano, e existe essa tensão com esse Congresso que fica até julho e pode aprovar mudanças. Além disso, não sabemos ainda qual vai ser o papel das Forças Armadas, que até o momento não se meteram na política”, alerta.

Raul Nunes, Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
Raul Nunes, Universidade Estadual do Rio de Janeiro. © arquivo pessoal

Herança política

Keiko Fujimori retomou o movimento político deixado por seu pai, Alberto Fujimori, nos anos 1990. Ela é investigada pelo Ministério Público por suspeita de ter recebido dinheiro ilegal de empreiteiras para campanhas políticas e chegou a ficar 16 meses em prisão preventiva.

“Depois que o Fujimori fugiu do país e foi preso, essa força política ficou em suspenso no Peru. E como ele fez um governo autoritário, acabou gerando o antifujimorismo, que até pouco tempo unia esquerda e centro-direita, povo e elite, e que tinha como nome a frente o escritor Mário Vargas Llosa que, dessa vez, apoiou Keiko Fujimori. Então estamos vendo uma reorganização das forças políticas no país, pois mesmo antifujimoristas apoiaram a candidata de direita para fazer frente ao medo do comunismo”, analisa Raul Nunes

Mas seria esse o fim da era Fujimori? “A Keiko Fujimori foi denunciada pela equipe da Lava Jato peruana que pede 30 anos de prisão para ela. Então, se ela perder a eleição poderá ir presa e seu futuro político ficará bastante incerto”, explica o acadêmico.

Em mensagem aos seus seguidores na sede do seu partido, no centro de Lima, Castillo disse que seus observadores consideram certa a vitória presidencial no segundo turno. Ele exortou seus seguidores a não caírem em provocações e agradeceu saudações “por sua vitória” enviadas por países latino-americanos. “Seremos um governo que respeita a democracia, a Constituição atual e criaremos um governo com estabilidade financeira e econômica”, declarou Castillo.

Um candidato sem vínculos

Professor da área rural, ele saiu do anonimato ao liderar um movimento grevista que recebeu apoio popular. “O que é interessante no caso de Castillo é que ele não tem vínculos com a elite financeira, nem com a imprensa e nem com a elite partidária. Castillo disputa por um partido que não era dele e se apresenta como um ‘outsider’ e que consegue apoio popular”, constextualiza Nunes.

Essa eleição é considerada decisiva para colocar fim a um período de instabilidade política no país. Desde 2018, o Peru teve quatro presidentes. Desde novembro de 2020, houve protestos, movimentos populares e forte repressão, o que deixa em aberto uma pergunta sobre a solidez das instituições do país. “Ao longo dos anos 2000 até hoje, o grau de confiabilidade das instituições perante a sociedade civil é baixo, se comparada a outros países da América Latina, e para melhorar isso é preciso debates políticos mais amplos”, acredita Jefferson Nascimento, pesquisador do Observatório Político Sul Americano da UERJ.

O Peru tem um histórico de cruzada moral contra a corrupção. Desde o governo de Alberto Fujimori, o debate público vem sendo hegemonizado por um discurso anticorrupção em que uma série de outras pautas importantes para o país vêm sendo ofuscadas. E nesse suposto combate à corrupção, diversos presidentes foram presos ou indiciados e pode haver uma judicialização dessa eleição”, adverte.

Para o acadêmico, o novo governo terá dificuldade em formar uma maioria “porque apesar de o partido Peru Libre ter conquistado muitos assentos no Congresso, dificilmente vai conseguir maioria para aprovar suas reformas que são de fato propostas bastante radicais, como nacionalização de recursos minerais”, explica.

Outra dúvida é como o país vai lidar com questões sociais, já que os dois candidatos são mais conservadores: contra o aborto, o casamento homossexual, a identidade de gênero. “Pedro Castillo ao memso tempo que tem pauta econômica radical de nacionalização de recursos estratégicos, reforma da previdência e universidade gratuita, por outro lado, no âmbito dos costumes, tem um programa conservador, contra aborto, contra eutanásia, e que pode fazer com que ele tenha resistência dentro da esquerda”, avalia Nascimento.

Nova onda progressista na América Latina

O acadêmico destaca que outros países da região apostam em nomes da esquerda. “Temos a volta dos progressistas na Argentina, com Alberto Fernandez e Cristina Kirshner, na Bolívia, na Venezuela e no Brasil, onde o Lula vem ganhando força novamente”, analisa. “No Chile, tem uma reforma constitucional em andamento favorável aos grupos de esquerda e podemos falar de uma nova onda progressista na América Latina. Porém, o cenário internacional para essa onda progressista se desenvolver é agora mais complexo. Se compararmos aos anos 2000, o boom das commodities facilitou que esses governos pudessem ganhar espaço e tivessem uma margem fiscal para governar e colocar em prática políticas de distribuição de renda, sem mexer nos interesses da elite. Só que agora o cenário econômico internacional é diferente em razão da crise sanitária”, conclui.

O novo presidente tomará posse no dia 28 de julho, data do bicentenário da independência do país.

Jefferson Nascimento, Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
Jefferson Nascimento, Universidade Estadual do Rio de Janeiro. © arquivo pessoal

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui