”Na cabeça do Bolsonaro só morreriam pessoas com mais de 80 anos”, conta Mandetta em livro


(foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
No livro Um paciente chamado Brasil, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta narra os embates que teve com o Palácio do Planalto até ser demitido, em 16 de abril, depois de reunião com o presidente Jair Bolsonaro, por discordância na forma do combate à pandemia do coronavírus no Brasil. O lançamento da editora Objetiva chega nesta sexta-feira (25/09) às livrarias e está disponível também em e-book.

A seguir, alguns trechos do livro.

“Presidente não deixou que publicássemos
recomendações sobre sepultamentos”

“O Ministério da Saúde indicava um caminho, e o presidente enviava uma mensagem no sentido oposto, a de não respeitar as orientações do seu próprio ministério. Antes já havia essa resistência, mas não era pública. Para se ter uma ideia do clima de tensão entre o Bolsonaro e o meu ministério, o presidente não deixou que publicássemos recomendações sobre sepultamentos no caso de transmissão sustentada do novo coronavírus numa cidade.
Segundo ele, o tema era mórbido demais. Insisti que isso iria causar o colapso funerário. Os estados precisavam saber com antecedência o que fazer nesses casos. Expliquei que não poderia mais haver velório, que teriam que ser usados dois sacos pretos para envolver o corpo, e que a recomendação seria conceder apenas duas horas para a família dar adeus com caixão lacrado.

Disse a ele que essas diretrizes precisavam ser determinadas com clareza, porque era um momento muito duro para as famílias. Mais tarde, transformei essas diretrizes em uma recomendação, que os estados prontamente adotaram em suas respectivas ordens do sistema funerário.”

“Atitude de Bolsonaro era de quem não queria ouvir”

“Na cabeça do Bolsonaro só morreriam pessoas com mais de oitenta anos, gente que já é doente, e tudo bem. Pessoas sadias não morrem e estávamos, segundo ele, parando tudo por causa de pessoas que já iriam morrer de qualquer maneira.

Algumas vezes tentei argumentar que não era bem assim, que se as pessoas entrassem todas ao mesmo tempo num hospital faltariam leitos e respiradores, e então “pessoas sadias” morreriam também. Para tentar sensibilizá-lo, eu o coloquei no exemplo.

‘O senhor, que tomou uma facada na barriga, chegou ao hospital e precisou de um leito de CTI. Se eles estivessem lotados com toda essa gente com coronavírus, o senhor não teria sido atendido, não haveria vaga no CTI. Então, um cara que tomar uma facada na barriga igual o senhor, não vai ter atendimento, ele vai morrer da facada na barriga.’

Tentei explicar num linguajar bem raso, porque se você falar em um linguajar normal ele não demonstra interesse, não dá atenção. Não era uma atitude de quem não entendia de um assunto, era simplesmente a atitude de quem não queria ouvir. E aquela minha postura, na cabeça dele, fazia parte do plano de desastre econômico dos governadores para prejudicá-lo.”

Estado de Minas – EM

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