Pelé soca o ar para comemorar seu gol na vitória da seleção brasileira sobre a Tchecoslováquia, por 4 a 1, no estádio Jalisco – Xinhua/Pictures USA/Zumapress

São Paulo – Quarta-feira, 3 de junho. Dia da estreia do Brasil na Copa do México.

Uma mistura de confiança (mais) e de apreensão (menos) envolvia o ambiente da seleção brasileira antes da ida ao estádio Jalisco, em Guadalajara.

A Tchecoslováquia era considerada a segunda força europeia do Grupo 3, atrás da Inglaterra (campeã mundial em 1966 e dona de imenso favoritismo) e à frente da Romênia. “Não caiu nenhuma baba [no grupo], uma China”, diz Tostão.

E a seleção largou atrás. Segundo Clodoaldo, “sofremos 1 a 0, aí deu uma preocupaçãozinha, sim. Ainda mais por eu ser muito jovem, sem experiência de Copa do Mundo”.

ÃO PAULO

Quarta-feira, 3 de junho. Dia da estreia do Brasil na Copa do México.

Uma mistura de confiança (mais) e de apreensão (menos) envolvia o ambiente da seleção brasileira antes da ida ao estádio Jalisco, em Guadalajara.

A Tchecoslováquia era considerada a segunda força europeia do Grupo 3, atrás da Inglaterra (campeã mundial em 1966 e dona de imenso favoritismo) e à frente da Romênia. “Não caiu nenhuma baba [no grupo], uma China”, diz Tostão.

E a seleção largou atrás. Segundo Clodoaldo, “sofremos 1 a 0, aí deu uma preocupaçãozinha, sim. Ainda mais por eu ser muito jovem, sem experiência de Copa do Mundo”.

Pelé soca o ar para comemorar seu gol na vitória da seleção brasileira sobre a Tchecoslováquia, por 4 a 1, no estádio Jalisco
Pelé soca o ar para comemorar seu gol na vitória da seleção brasileira sobre a Tchecoslováquia, por 4 a 1, no estádio Jalisco – Xinhua/Pictures USA/Zumapress

Petras abriu o placar para os tchecos aos 11 minutos. “Não abalou, porque foi erro nosso. Nós sabíamos que éramos melhores”, afirma Gerson.

Não demorou, Rivellino fez, em cobrança de falta, o primeiro gol do Brasil na Copa.

Ainda no primeiro tempo, Pelé fez a jogada de um de seus famosos “não gols” nesse Mundial. De antes do meio-campo, ao perceber Viktor adiantado, deu um chutão para o gol. A bola encobriu o goleiro, que voltava desesperado, e passou perto da trave esquerda dele.

Na segunda etapa, a seleção, nas palavras de Piazza, “engoliu o adversário porque tava preparada fisicamente”. Virou com Pelé e ampliou com dois gols de Jairzinho.

“O Brasil foi se ajeitando e fez, não digo o melhor, mas um de seus melhores jogos na Copa. Foi um jogo fantástico do Brasil”, definiu Clodoaldo.TCH

C. Alberto
Gerson
Clodoaldo
Tostão
Piazza

Carlos Alberto

Naquela época participavam da Copa só 16 seleções, que eram a nata do futebol

A estreia sempre acarreta, vamos dizer, uma apreensão, um nervosismo, o que é natural. Você pega jogadores mais experientes… Às vezes artistas, mal comparando, vão estrear uma peça de teatro, o cara fica naquele nervosismo, não quer falar com ninguém.

Eu lembro que nós não começamos o jogo bem. Eles fizeram o primeiro gol, e aí o time começou a se soltar através do primeiro gol que fez… Quem foi mesmo?… Rivellino, de falta. Aí o time começou a se soltar. E a partir dali a gente começou a controlar o jogo, aí saiu o gol do Pelé após lançamento do Gerson. E aí as coisas foram acontecendo.

E é interessante, e importante também, quando a gente fala do preparo físico, que foi uma preocupação primeira nossa, nós sabíamos que, se nós estivéssemos bem fisicamente, poderíamos até não ganhar a Copa, mas tínhamos tudo pra ganhar. Você junta um grupo tecnicamente excepcional com uma grande preparação física, pô, só não ganha se der muito azar. Isso é uma coisa normal, em qualquer esporte.

Então, o interessante é, se você fizer um retrospecto, vai ver que nós ganhamos a maioria dos nossos jogos na Copa do Mundo no segundo tempo. Isso aí mostra o grande preparo que o time tinha fisicamente. Porque, se é um time que não está muito bem preparado fisicamente, seria difícil virar os jogos.

Por quê? Porque naquela época, e esse é um detalhe superimportante, participavam da Copa do Mundo apenas 16 seleções, que eram a nata do futebol.

Hoje, tem seleção aí que não joga nem nos campeonatos da segunda divisão de São Paulo ou do Rio. Tem seleção que participa da Copa do Mundo que não jogaria normalmente nos campeonatos nossos aqui.

Mas isso foi pela escolha que a Fifa fez pra atender a determinados países, e eu acho certo, porque [a Copa] foi ganhando tanta importância que o número logicamente teria que ser aumentado.

Mas naquela época era a nata do futebol mundial, apenas seleções boas participavam da Copa do Mundo. Então a dificuldade de cada grupo era enorme. E mesmo assim o time mostrou que o resultado do trabalho físico foi bom, tanto que já no primeiro jogo deu pra sentir.

No intervalo, o Zagallo, muito inteligente, já tinha observado o time, visto o posicionamento deles, que o Gerson poderia fazer os lançamentos. Então, nós já voltamos para o segundo tempo sabendo o que dava pra fazer e ganhar o jogo.

E esse jogo nos deu a confiança que faltava, né? “Nós estamos bem.” O time estava bem fisicamente, todo mundo terminou o jogo inteiro, não tivemos problema.

Aliás, o único problema que nós tivemos parece que foi o Gerson, que sentiu um problema na coxa. Não foi distensão, foi um pequeno desconforto, vamos dizer assim. Tanto que ele não jogou contra a Inglaterra, foi poupado.

O grupo era tão bom, o nível dos jogadores era tão bom, que o Zagallo se deu ao luxo de deixar o Gerson de fora do jogo com a Inglaterra pra ele se recuperar e voltar depois.

Gerson

O primeiro jogo é sempre complicado: Será que vai dar certo, será que não vai?

O Rogério e o Parreira [olheiros da seleção] fizeram um excelente trabalho.

O Rogério [atacante] foi cortado, por contusão, mas ficou lá. Então eles saíam pra fotografar o ataque e a defesa das seleções que nós iríamos enfrentar. Depois traziam os eslaides todos, e nós sabíamos como eles marcavam, como eles atacavam, tá certo?

Nós sentávamos pra discutir isso tudo dentro da concentração, antes dos jogos. Então nós sabíamos como eles [adversários] jogavam. Mudava uma coisa ou outra dentro do campo, mas de um modo geral era isso.

Então, o que acontece? O primeiro jogo é sempre complicado: “Será que vai dar certo, será que não vai? O que nós treinamos, vamos botar aqui”.

E aí vinham os ajustes. “Tá bem assim, não tá? Você aí, vem mais pra cá, esse cara aí não tá entrando aqui, pega você que eu entro por aqui.” E são mais os ajustes do esquema montado pelo Zagallo.

O primeiro jogo é complicado porque é sempre a primeira vez. Muito bem. Mas o jogo complicado dessa chave era exatamente o da Inglaterra, que era um time veterano, um time com grandes jogadores e que tradicionalmente sempre briga pelo título. Naquela época, né? Hoje, eu já não sei. Mas naquela época, pelo menos, vivia brigando.

Então nós tínhamos essa complicação do primeiro jogo, de como é que vai funcionar isso tudo, se vai funcionar. Depois do primeiro jogo, a Inglaterra foi o [rival] mais complicado. Inclusive eu não joguei contra a Inglaterra, mas a seleção inglesa era uma seleção excelente. Mas batemos também a seleção inglesa e batemos o terceiro [adversário, a Romênia].

O gol [de Petras, fazendo 1 a 0 para a Tchecoslováquia] não abalou, porque foi erro nosso. Nós sabíamos que éramos melhores. Só que o nosso jogo não tinha entrado. Faltava lançamento, faltava um toque mais certo, mais apoio do Carlos Alberto. E durante o jogo nós íamos encaixando o nosso jogo. Foi o que faltou no primeiro tempo.

O jogo estava sendo jogado, mas nós tínhamos que ir encaixando de acordo com o que tava acontecendo. Um pouquinho mais atrasado, um pouquinho mais adiantado, mas o gol, em mais um minuto ou em mais cinco minutos, ele ia sair.

Foi o que aconteceu.

Clodoaldo

Houve uma aceitação por parte da imprensa de que o Brasil seria um dos candidatos

A Tchecoslováquia preocupava. Ela começou o jogo fazendo 1 a 0, não é isso? E, logicamente, você começa uma Copa e sai perdendo o jogo de 1 a 0, você já dá uma… Sofremos 1 a 0, aí deu uma preocupaçãozinha, sim. Ainda mais por eu ser muito jovem, sem experiência de Copa do Mundo.

Mas o Brasil foi se ajeitando e fez, não digo o melhor, mas um de seus melhores jogos na Copa. Foi um jogo fantástico do Brasil.

O Gerson fez uma partida inesquecível, com seus lançamentos, seus passes, sua liderança… A equipe toda jogou bem nesse jogo. Eu vi o time muito preparado, muito entusiasmado, o time jogando fácil, com o Pelé, o Gerson, o Rivellino, o Tostão, o Jairzinho, quer dizer, pelo amor de Deus, esses caras só de falar o nome a pele já arrepia.

Quando todos acertavam seu jogo, era difícil, muito difícil para o adversário, entendeu? Porque, quando o Pelé não estava bem, o Jairzinho jogava demais, o Tostão jogava demais. Quando o Tostão não estava bem, o Pelé ou o Jairzinho arrebentavam. Essa era a seleção de 1970.

Eu jogava no Santos e já estava com três anos de bagagem na seleção. Embora fosse a primeira Copa do Mundo, eu tinha participado de alguns amistosos.

Essa questão de jogar num clube como o Santos, com dois títulos mundiais, campeão no Brasil, tudo que disputava o Santos ganhava, eu vinha com essa bagagem, com essa experiência de estar jogando numa seleção em que quase 40% do time, dos convocados, estava dentro da seleção, tendo como titulares eu, o Carlos Alberto e o Pelé.

Era um percentual bem elevado, e acho que isso fazia eu entender mais, me dar um pouco de tranquilidade pra eu não sentir muito essa estreia de Copa do Mundo.

Teve o susto do primeiro gol, mas, ademais, não corremos grandes riscos, não. Corremos riscos, sim, em outros jogos, mas nesse, depois que empatamos, viramos o jogo, 2 a 1, depois achamos o terceiro gol, o quarto e comandamos o jogo.

Era praxe a seleção do Brasil ter o domínio das ações em campo.

Houve uma aceitação por parte da imprensa, depois desse jogo com a Tchecoslováquia, já dando uma colocação de que o Brasil seria um dos candidatos ao título.

Nós entendíamos isso, mas não subia à cabeça a ponto de você dizer: “Opa, já ganhamos”. Não. Aí todo mundo: “Opa, vamos com calma, é só o primeiro jogo, ainda tem um longo caminho aí, tal, vamos devagar, vamos etapa por etapa”. E assim foi.

A imprensa, depois desse jogo… O Brasil fez um jogo fantástico. Nossa! Todo mundo jogou muito bem. Então foi um jogo em que realmente o Brasil convenceu.

Daí a imprensa, pelo grande jogo que o Brasil fez na estreia, já apontar o Brasil como uma das seleções candidatas à conquista da Copa, como era a Itália, a Alemanha, com um timaço, a Inglaterra, campeã de 1966, um timaço também.

Mas o Brasil deu uma amostra do que seria durante a Copa de 1970.

Tostão

Ninguém falava ‘vamos dar show’, mas sabíamos que o time tinha tudo pra arrebentar

Havia uma apreensão muito grande antes de começar o jogo.

Seria normal estar tenso. Copa do Mundo, antes de jogar, todo muito fica tenso, preocupado, não dorme bem. Aliás, em competições importantes os jogadores ficam normalmente tensos mesmo. Então havia uma expectativa muito grande.

Mas eu não esqueço, isso pra mim é bem claro: antes de começar a Copa, havia uma sensação entre nós de que o time estava entrosado. Havia uma percepção de que o time ia brilhar, ia jogar bem. Podia até não ganhar, mas ia jogar bem.

Porque, naqueles últimos 15, 20 dias de treino, o negócio tava saindo com uma fluência, todo mundo até assustado. Assustado no bom sentido, admirado. Cada tabela, cada jogada, trocas de passes.

Havia uma sensação antes da Copa de que o time tava bem. Fisicamente, coletivamente, todo mundo treinando bem.

O Gerson já era um espetáculo de jogador, o Rivellino já era um espetáculo, o Pelé era um espetáculo, o Carlos Alberto… Quer dizer, era muito jogador bom e todo mundo em forma e entrosado.

Pô, esse time, vinha uma sensação assim… Ninguém falava “nós vamos dar show”, mas havia uma sensação de que “esse time tem tudo pra arrebentar”. A gente tem essa sensação, jogador tem.

No jogo contra a Tchecoslováquia, os lances de gol foram saindo naturalmente. Jogadas de improvisação, mas que tinham ali uma organização tática.

O time partiu pra ganhar o jogo sem excesso de nervosismo, foi uma vitória natural que saiu pela superioridade, as jogadas foram saindo do jeito que o time tava acostumado a fazer nos treinos.

Aquela impressão de que o time era muito organizado e teria chance de criar muita situação de gol, e fazer muito gol, e marcar bem o adversário… Acabou o jogo contra a Tchecoslováquia, a sensação era essa.

Não foi um show de futebol, mas a sensação era a de que o time tava muito forte, todo mundo muito confiante.

Piazza

O Pelé falou: ‘Moçada! Foi bom, mas nós precisamos melhorar muito mais’

Eu já era rodado no futebol, estava com 27 anos. Mas em nível de seleção, de Copa do Mundo, era a primeira vez.

Tem alguns momentos da Copa, a impaciência, né? É, a gente fica. Se os que já tinham participado, casos do Pelé, do Tostão, do Gerson, a gente sentia que tinha isso, a gente também tinha.

Eu acho que isso contribuiu muito para o fortalecimento da seleção, em cima daqueles jogadores como o Gerson, o Tostão, o Pelé, que tinham isso em 1966. Chegavam e “pô, não podemos, numa segunda oportunidade, perder”. E criaram com isso uma responsabilidade maior e podiam estar até mais preocupados que a gente.

Tomamos o gol na saída, quando a gente foi sair da defesa, o Brito foi sair e deu mal, já jogaram lá dentro da área e fizeram logo o gol, quer dizer… “Puxa vida! Começar perdendo?”.

Mas é aquele negócio. Você tem força pra buscar reagir e mostrar superioridade a partir da hora em que você está bem preparado fisicamente. Aí facilita.

Se você dribla bem, você passa a driblar melhor. Se você se antecipa bem, passa a se antecipar melhor. Tudo clareia mais quando você está bem fisicamente. Não tá só naquele oba-oba: “Vamos lá, vamos, vamos!”. É a gritaria. Grita da boca pra fora, mas as pernas tão tremendo e mal preparadas. Aí não vai a lugar nenhum.

Então, começou perdendo, mas a equipe chegou no segundo tempo e acabou mostrando a força maior. Por quê? Porque tava preparada fisicamente e engoliu o adversário. Além da parte técnica, da individualidade que a gente tinha, e todos trabalhando em favor do conjunto.

Isso também foi essencial. Você não tinha o Pelé como o único. Ele era mais um. Isso foi fundamental, esse tipo de aceitação, do compromisso que cada um, independentemente de seu valor individual, teve com a seleção. De não querer ser a estrela maior. Todo mundo se ajudando.

Quando terminamos o primeiro jogo, com essa participação que pra mim foi o primeiro momento num Campeonato Mundial, no vestiário, quando eu estava trocando a roupa, o fardamento, como diziam lá, estava aquela comemoração grande, todo o mundo alegre, feliz, 4 a 1.

E eu lembro quando o Pelé, o cara de três Copas, entrou, bateu palmas, também alegre, feliz, e disse: “Ô, moçada! Foi bom, mas nós precisamos melhorar muito mais”. Ou seja: nós não ganhamos Copa nenhuma ainda, não ganhamos nada. E ainda sentou ao meu lado e disse assim pra mim: “Olha, eu tenho que falar isso. Tem neguinho aí que pode achar que já é campeão”.

Então, um cara experiente, o Pelé, fala isso, você tem que parar pra pensar, puxa vida. E tirar proveito disso. Não pode entrar por um ouvido e sair pelo outro, não. Você tem que mostrar humildade. Se o cara que é considerado rei, com essa potencialidade toda, fala um negócio desses, no fundo tá mostrando também que tá preocupado, que ele sabe que a coisa não é fácil e que tem que melhorar mais.

E é isso mesmo. É curta a competição, mas a cada jogo você tem que mostrar que tá mais próximo ao título do que distante. Isso só se faz com boas apresentações, você vai buscando, a equipe vai crescendo.

Se você perder, vai ser um choque danado, uma decepção, uma frustração muito grande. Porque quando você tá preparado pra ganhar, só pra ganhar, e vem a derrota, eu vou te falar…

Aí entra aquela máxima: “Chore, derrame as lágrimas pelas derrotas. Mas não derrame pela falta de luta”.

Então você tem que ter essa consciência. E a gente teve durante toda a Copa do Mundo.

 

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