A community volunteer guides residents as they queue for nucleic acid tests for the Covid-19 coronavirus in a compound under lockdown in the Pudong district in Shanghai on May 13, 2022. (Photo by LIU JIN / AFP) / China OUT

Em Xangai, guia indica local de testes de covid; reforço de medidas sanitárias asfixia economia global Foto: Liu Jin/AFP

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Se a China tropeça, o mundo todo sente o impacto. E a China está tropeçando. A política de tolerância zero contra a covid-19, com lockdowns espalhados pelo país, acenderam o alerta para a redução da atividade na segunda maior economia do mundo. Cidades completamente fechadas significam redução das importações e inviabilizam as exportações – sobretudo de bens industriais –, o que pode pressionar ainda mais a inflação e reduzir a atividade econômica em todo o mundo.

Apenas com o lockdown em Xangai, estima-se que a venda de carros na China tenha despencado 48% em abril, na comparação com igual período de 2021. A cidade é responsável por 3,8% do PIB chinês, mas tem o maior porto de contêineres do mundo. Em abril, a Apple informou que a situação na China pode lhe custar entre US$ 4 bilhões e US$ 8 bilhões em vendas perdidas.

Diante do cenário, a Santander Asset reviu sua estimativa de PIB para a China de 5% para 4,6%. O Itaú Unibanco, de 5% para 4,7%. Somado aos impactos da guerra na Ucrânia e da alta dos juros nos EUA, a política chinesa contra a covid deve desacelerar a economia global para algo em torno de 3% (número considerado ruim para o PIB global).

“Pelo tamanho da China, se ela crescer 4,5% já tem um efeito ruim. Isso não seria tão problemático se não houvesse tanta dúvida em relação à alta dos juros nos EUA. Mas as duas locomotivas do mundo estão com questões que significam menos crescimento nos próximos 18 meses”, diz Eduardo Jarra, economista-chefe da Santander Asset.

Economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani diz que a pressão inflacionária da interrupção das cadeias de produção chinesas também pode levar o Fed (banco central dos EUA) a elevar mais rapidamente os juros, reforçando a desaceleração global.

Crise atinge indústrias no Brasil e deve afetar inflação 

A desaceleração da economia chinesa, provocada em parte pela política de covid zero – com lockdowns extremamente rigorosos –, terá impacto também na economia brasileira. A dificuldade de importar produtos da China, principalmente insumos para a indústria, se reflete nos preços e deve contribuir para manter a inflação em alta.

Segundo o presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB)José Augusto de Castro, já há reflexos nos custos dos produtos vindos de fora. Em abril, os preços das importações, em dólares, subiram 34,4%, com recuo de 6,9% nas quantidades. Em março, os preços já tinham aumentado 29,5%, diz Castro. “O impacto desse lockdown na China é muito mais inflacionário”, diz.

Para o economista Lívio Ribeiro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), a combinação dos novos lockdowns na China com estragos provocados pela guerra entre Ucrânia e Rússia deve levar a um mundo com inflação mais elevada por mais tempo. “Se antes a gente tinha dúvidas de que o processo de reorganização das cadeias produtivas se completaria este ano, hoje parece muito improvável que isso ocorra”, diz.

Atrasos de mercadorias

Em algumas empresas, o efeito do lockdown chinês já é sentido na pele. A Ecosan, fabricante de equipamentos para tratamento de efluentes domésticos e industriais, importa da China componentes como chapas de inox e produtos químicos para o tratamento de água e recuperação de efluentes. Normalmente, os bens levavam de 45 a 60 dias para chegar ao Brasil, prazo que passou a cem dias após a pandemia. Agora, com o novo lockdown, pode chegar a 120 dias.

“Com o recente lockdown, ficou ainda mais difícil manter as entregas para nossos clientes, além dos preços terem subido muito”, diz o presidente da empresa, André Ricardo Telles. Segundo ele, a Ecosan tem muitos itens à espera de embarque, o que tem levado a reprogramações constantes na linha de produção.

Já a indústria farmacêutica contabiliza um atraso de cerca de 20 dias na entrega de matérias-primas compradas da China, segundo Henrique Tada, presidente executivo da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (Alanac), que reúne mais de 50 empresas. “Neste momento, estamos com atraso na produção, mas ainda não há desabastecimento”, diz o executivo. A indústria farmacêutica nacional importa 90% das matérias-primas, e a China é hoje o principal fornecedor, seguido pela Índia.

Varejo

Os problemas de fornecimento também são vistos no comércio. As lojas da Rua 25 de Março, centro de comércio popular de São Paulo, começam a sentir a falta de alguns campeões de venda, como os carrinhos Hot Wheels, segundo Marcelo Mouawad, porta-voz da União dos Lojistas da 25 de Março e Adjacências (Univinco).

O empresário conta que os lojistas da 25 de Março estão se desdobrando para garantir as mercadorias. Segundo ele, o problema só não é ainda tão preocupante porque, neste momento, a demanda não está tão aquecida. Em suas contas, a demanda nas lojas da região ainda está cerca de 25% abaixo do período de pré-pandemia.

João Carlos Brega, presidente da Whirlpool América Latina (dona das marcas Brastemp e Consul), vai na mesma linha. Para ele, o problema dos lockdowns na China só não é maior porque a economia brasileira está muito desaquecida. “Já tivemos no passado mais problemas por falta de componentes”, diz. “No momento, não estamos tendo mais, porque o volume (de vendas) caiu no Brasil. Mas existem outros setores que estão sofrendo muito, como a indústria automobilística.”

Para ele, por conta de tudo que vem acontecendo no mundo, haverá uma diminuição da concentração dos fornecedores de insumos num só local, no médio e longo prazos.

Cenário global pode prejudicar Bolsonaro na eleição

A inflação alta no mundo, decorrente dos lockdowns da China e da guerra na Ucrânia, pode tirar votos do presidente Jair Bolsonaro, segundo o analista político Christopher Garman, diretor da consultoria Eurasia. “A China sozinha talvez não tenha um impacto tão grande. Mas temos de olhar para um conjunto de fatores que tende a exacerbar a inflação, o calcanhar de aquiles do governo.”

Luciana Dyniewicz, Márcia De Chiara, Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

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