Paul Rusesabagina, que foi interpretado pelo ator americano Don Cheadle em “Hotel Ruanda”, de 2004, sendo julgado em Kigali na quarta-feira (17).
 Simon Wohlfahrt AFP

A filha de Paul Rusesabagina, o herói do filme “Hotel Ruanda” julgado em Kigali por “terrorismo”, pediu nesta sexta-feira (19) que a Bélgica intervenha para que seu pai, de nacionalidade belga, seja libertado e repatriado, e denunciou um “julgamento injusto”

Ex-gerente do hotel Mille Collines, em Kigali, Paul Rusesabagina, de 66 anos, ficou famoso por um filme de 2004 que conta como salvou mais de mil pessoas durante o genocídio de Ruanda. Este hutu (maior grupo étnico do país) se tornou então um crítico do regime do presidente de Ruanda, Paul Kagame.

Vivendo no exílio desde 1996 nos Estados Unidos e depois na Bélgica, onde obteve a nacionalidade, Rusesabagina foi detido no final de agosto em Ruanda em circunstâncias suspeitas, durante a aterrissagem de seu avião, que ele acreditava ter como destino Burundi. Seus advogados denunciam “um sequestro”.

“A assistência consular belga não é eficaz, ele não tem acesso a seus advogados, a sua medicação (contra hipertensão), e está trancado em uma sala sem janelas”, acusou sua filha Carine Kanimba em uma entrevista coletiva.

Para ela, “não haverá julgamento justo”: “Ele corre o risco não apenas de prisão perpétua, mas também de morte (…) Falo às autoridades belgas, ao primeiro-ministro, Alexander De Croo, porque ele está em posição para negociar com Kigali e libertar meu pai”, disse Kanimba à AFP.

Acusação de terrorismo

Rusesabagina, cujo julgamento começou na quarta-feira (17), enfrenta 13 acusações, incluindo terrorismo, assassinato e financiamento de rebelião, por seu suposto apoio à Frente de Libertação Nacional (FLN), um grupo rebelde acusado de ataques mortais em Ruanda.

Rusesabagina contesta o direito do tribunal de o processar, devido a sua nacionalidade belga. Seus familiares dizem estar “muito preocupados” com sua saúde, porque os medicamentos enviados pela diplomacia belga, segundo eles, nunca chegaram.

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores da Bélgica, Rusesabagina “se beneficiou de total assistência consular desde o início” e recebeu quatro visitas de funcionários diplomáticos para “monitorar seu estado de saúde”. Bruxelas ainda afirma ter se oferecido para colocar médicos ruandeses e belgas em contato com Rusesabagina para que ele recebesse cuidados adequados.

Os ministros da Justiça e das Relações Exteriores da Bélgica exigem “um julgamento justo, equitativo e transparente” e o direito do acusado “de preparar sua defesa nas melhores condições”, durante intercâmbios com seus homólogos ruandeses, indicou à AFP um porta-voz da diplomacia belga.

Silêncio que pode se tornar cúmplice

O advogado da família, Vincent Lurquin, criticou o governo belga, denunciando durante a coletiva de imprensa “um silêncio que corre o risco de se tornar cúmplice”. “O exemplo que o governo belga dá é que se um cidadão belga for sequestrado por um governo ditatorial, a Bélgica não se moverá”, acrescentou Kanimba.

Lurquin anunciou que havia entrado com uma denúncia nos Estados Unidos e na Bélgica, acreditando que os tribunais belgas sejam competentes para investigar o “sequestro” de um cidadão belga. Ele apela ao Ministério Público e ao juiz de instrução que solicitem uma comissão rogatória.

Para o advogado, Bruxelas “pode ​​pedir ao governo ruandês a transferência” de Rusesabagina para a Bélgica, onde já foi aberta uma instrução dirigida a ele a pedido de Kigali.

Bruxelas confirmou a apresentação de uma denúncia e a abertura de uma investigação na Bélgica, ao mesmo tempo em que destacou “não ter informações precisas” sobre as circunstâncias da prisão de Rusesabagina.

Com informações da AFP.

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