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Instabilidade na França ameaça influência de Paris na União Europeia, avalia cientista político

No bloco europeu, observadores internacionais acompanham com atenção e apreensão as convulsões políticas francesas, após o anúncio do primeiro-ministro de submeter seu governo a um voto de confiança em 8 de setembro. Um teste decisivo que pode precipitar sua queda e arrastar a segunda maior economia da União Europeia para uma nova fase de turbulência, segundo o cientista político, diretor de pesquisa do CNRS e especialista em União Europeia, Olivier Costa, entrevistado pela RFI.


Parlamentares ouvem discurso do primeiro-ministro francês François Bayrou sobre a política geral na Assembleia Nacional em Paris, na França, em 14 de janeiro de 2025. © Thibault Camus / AP

Para Olivier Costa, o cenário não surpreende. “Os parceiros europeus já esperavam isso. Todos viram os resultados das legislativas que se seguiram à dissolução do Parlamento em 2024. Não existe maioria na França: a esquerda, o centro e a extrema direita se equilibram, sem vontade de cooperar. O impasse era previsível.”

Desde que assumiu, o premiê François Bayrou tem dificuldade em aprovar reformas, sobretudo o orçamento. Sem alianças estáveis, agora aposta sua sobrevivência política em um voto de confiança. “É um lance de pôquer para evitar uma moção de censura no fim do mês”, avalia Olivier Costa.

Além da instabilidade parlamentar, o que preocupa Bruxelas é a situação econômica. Com um dos maiores déficits da União Europeia e uma dívida bem acima dos critérios estabelecidos nos tratados, a França está sob pressão.

“Viramos o mau aluno da Europa. Há a ameaça de rebaixamento pelas agências de classificação, o que encareceria o custo da dívida. E já em 2026, o pagamento dos juros ultrapassará a educação nacional como maior despesa do orçamento”, lembra o pesquisador.

O enfraquecimento da influência francesa

A fragilidade interna pesa diretamente sobre a influência de Paris em Bruxelas. “Um país só é ouvido no cenário internacional quando é sólido e confiável dentro de casa. Emmanuel Macron continua a propor iniciativas diplomáticas, mas todos sabem que ele está enfraquecido no plano interno e que seu mandato termina em 2027.” O resultado, segundo Costa, é uma França “cuja voz, antes central no eixo franco-alemão da UE, perdeu espaço”.

Uma crise francesa, mas com eco europeu

A crise política francesa ressoa em outras capitais, onde governos também enfrentam o avanço do populismo. “O crescimento da extrema direita é um fenômeno global, visível até nos Estados Unidos ou na Austrália. A França, que por muito tempo parecia resistir, agora também foi alcançada”, observa Costa.

“O sistema político da [chamada] ‘Quinta República’, pensado para gerar maiorias estáveis e marginalizar partidos radicais, deixou de cumprir esse papel”, declarou o especialista à RFI.

A inquietação social

Outro ponto que chama a atenção dos parceiros europeus é, segundo Costa, a contestação social. O voto de confiança está marcado para dois dias antes da jornada de bloqueios de diversos setores da França prevista para 10 de setembro, frequentemente comparada no exterior ao movimento dos coletes amarelos.

“Os franceses têm uma relação quase romântica com greves e mobilizações de rua. Mas essa instabilidade preocupa, sobretudo nos meios econômicos, porque afeta o crescimento e corrói a legitimidade do governo”, afirma o cientista político.

Um país em declínio?

A soma de fragilidade econômica e instabilidade política contribui para deteriorar a imagem da França. “Não somos os únicos com crises internas, mas a combinação desses dois fatores explica a perda de influência em Bruxelas”, conclui Olivier Costa.

Para o especialista, enquanto François Bayrou joga seu futuro político em setembro, “o próprio lugar da França dentro da União Europeia estará em jogo”.

RFI

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