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O queridinho dasreservas de emergência está passando por maus bocados em 2020. Em setembro, quase a metade dos fundos DI chegou a ter retorno nominal negativo, isto é, sem contar o efeito da inflação. Já em outubro, as perdas nominais foram minimizadas, mas ainda existem aplicações no vermelho.

De acordo com o levantamento exclusivo feito pela Economatica , a pedido do E-Investidor, dos 25 fundos DI classificados pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) como ‘renda fixa simples’, quatro tiveram rentabilidade negativa em outubro – ou 16% do total. Entre esses, quem apresentou o pior retorno nominal foi o BTG Pac Tesouro Selic Simples Inst, do BTG Pactual, com queda de 0,51%.

Na outra ponta, o melhor retorno foi de 0,15%, obtido pelo Itaú Priv Soberano RF Simples, do Itaú Unibanco. Na média, as aplicações tiveram rentabilidade de 0,06% no mês, uma leve recuperação em relação a setembro. O desempenho, porém, ainda assusta os investidores

Os fundos DI são uma das aplicações mais conservadoras, com baixíssimo risco, já que 95% do patrimônio é aplicado em títulos públicos federais atrelados àtaxa Selic. Ver esse tipo de investimento desandar é algo bastante incomum, pelo menos no Brasil. Afinal, o que está acontecendo com os fundos DI?

Taxa Selic nas mínimas pressiona rentabilidade

Uma das principais causas do retorno aquém do esperado é o atual nível de juros da economia, usado como referência para o CDI, taxa que norteia os fundos DI. Até 2018, a Selic estava acima dos 6%, o que potencializava a rentabilidade desse investimento – cenário bem diferente do atual, em que os juros estão a 2% ao ano, na mínima histórica.

O atual patamar faz com que, inclusive, essas aplicações percam para a inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). Em outubro, o indicador de aumento geral de preços ficou em 0,86%. Ou seja: se descontada a inflação do mês, todos os fundos ficam com rentabilidade real negativa.

No caso do Itau Priv Soberano RF Simples, fundo DI simples que teve a melhor performance de outubro, por exemplo, a queda fica em 0,70% com o ajuste pelo IPCA. “Temos uma taxa de juros real negativa na economia brasileira, isso é algo histórico para o País”, afirma Gustavo Bertotti, economista-chefe da Messem Investimentos. “Assim, os fundos DI ficaram cada vez menos atrativos e a perspectiva de melhora vem só quando a Selic aumentar, o que não deve acontecer no curto prazo.”

O especialista explica ainda que, diante de uma Selic tão baixa, as taxas de administração dos fundos DI passam a pesar ainda mais no retorno. “Existem fundos que pagam menos que apoupança, e se a taxa de administração for alta, isso engole a rentabilidade”, diz Bertotti.

Para além da queda na Selic, o mercado de títulos públicos também estaria funcionando de ‘maneira disfuncional’, o que forma a tempestade perfeita para o descompasso dos fundos DI.

Marcação a mercado joga os retornos no vermelho

Para Sandra Blanco, estrategista-chefe da Órama Investimentos, o mercado de títulos públicos atrelados à Selic está passando por um período de estresse. Na visão da especialista, a mistura de instabilidade e juros baixos faz com que os investidores exijam um prêmio adicional para comprar esses papéis do Governo, o que pressiona o preço dos títulos para baixo.

“A taxa e o preço são inversamente proporcionais. Uma taxa maior implica em um preço menor do título. De certa forma, é uma disfuncionalidade, não deveria acontecer nesse mercado”, explica Blanco. “Mas estamos em pandemia, temos a preocupação com o teto de gastos, crescimento da dívida, ou seja, uma convergência de muitos dados negativos que fazem com que o investidor exija um prêmio maior para compensar os riscos.”

Como os fundos DI são majoritariamente compostos por títulos públicos, a rentabilidade é impactada por essa precificação, também chamada de ‘marcação a mercado’. “A questão hoje é principalmente se o teto de gastos e o compromisso com o fiscal vai ser mantido. Se isso não concretizar, o Banco Central terá que elevar a taxa de juros”, diz a especialista da Órama.

Devo tirar minha reserva de emergência?

Apesar do susto, os especialistas consultados pelo E-Investidor não recomendam a troca de aplicação. “É melhor esperar, estamos em uma situação bastante complexa. Não adianta ficar pulando de um investimento para o outro, uma atitude pode gerar prejuízo. Afinal, os fundos DI cumprem seu papel: têm alta liquidez para reserva de emergência”, explica Blanco.

Na opinião de Nelson Muscari, coordenador de fundos da Guide Investimentos, a percepção de risco em relação aos títulos públicos aumentou, mas essa situação é excepcional e não deve se arrastar pelo longo prazo. “É mais um ruído que algo estrutural. O discurso político se alinhando, os fundos voltam a performar normal, ou seja, próximo a 100% do CDI”, diz.

Estadão

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