Soldados franceses da operação Barkhane deixam uma base militar em Gao, no Mali, após uma missão de quatro meses. Em 9 de junho de 2021.
 © AP Jerome Delay

O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou nesta sexta-feira (9) uma reconfiguração do engajamento militar francês no Sahel, na África. A medida é resultado da cúpula virtual com as lideranças do G5 Sahel, que reúne Mauritânia, Burkina Faso, Mali, Níger e Chade.

O chefe de Estado havia anunciado o fim da operação militar Barkhane contra grupos jihadistas. Agora, as tropas francesas darão lugar a uma “coalizão internacional “, cuja formação ainda não foi totalmente revelada.

A França manterá “no longo prazo, entre 2.500 a 3.000” homens na região, revelou o presidente, explicando as duas principais missões dos franceses no Sahel: “a neutralização e desorganização do alto comando de organizações inimigas”, bem como “apoio à ascensão dos exércitos da região”.

Macron anunciou que a França começará a retirar suas forças miliares posicionadas ao norte em Mali e passará a concentrar seus esforços mais ao Sul, onde grupos jihadistas continuam sua “disseminação”.  O processo de fechamento das bases da força anti-jihadista Barkhane, no norte do país, terá início no “segundo semestre de 2021”, completou Macron.

Esta foi a primeira reunião dos líderes do G5 Sahel desde o anúncio, em junho, de uma redução iminente das tropas francesas. Atualmente, a França conta com 5.100 soldados na região, após mais de oito anos de engajamento massivo, gastos colossais e um saldo de 50 soldados mortos em combate. “A África se tornou o principal campo de ofensiva e crescimento” dos jihadistas ligados à Al-Qaeda e ao grupo Estado Islâmico, afirmou Emmanuel Macron.

O dispositivo francês será redirecionado em torno da força-tarefa europeia Takuba, composta por tropas de elite para treinar unidades do Mali e que hoje reúne 600 homens, metade deles franceses, e estonianos, tchecos, suecos e italianos.

“Nossos parceiros também se beneficiarão da manutenção de certas capacidades essenciais no Mali: saúde, mobilidade aérea e força de reação rápida”, acrescentou Macron.

Os comandos de elite da força-tarefa francesa “Sabre” serão mantidos. Porém, nesta imensa região desértica e largamente negligenciada pelas potências centrais, o resto do combate terá de ser assumido pelos exércitos africanos e pela embrionária força conjunta anti-jihadista do G5 Sahel, que poucos observadores consideram ser capaz de enfrentar o desafio.

O presidente francês lembrou a necessidade dos Estados africanos reintroduzirem uma administração nas áreas assumidas militarmente. “É claro que se trata de evitar que duas organizações terroristas façam do Sahel e da África Ocidental o seu novo terreno de expansão e fortalecimento. Mas não se trata, no entanto, de substituir a responsabilidade e a soberania dos Estados para cumprir a sua missão de segurança e serviço às populações”, insistiu.

Jihadistas se aproveitam de conflitos locais

Para o pesquisador do Instituto de Estudos de Segurança, o ISS, com sede em Abidjan, William Assanvo, os jihadistas se aproveitam de conflitos comunitários para ganhar terreno.

“Conflitos comunitários são conflitos que existem antes da situação de segurança atual. Essas são dinâmicas tradicionais nas sociedades, especialmente nessas áreas. O que pode ser preocupante é justamente a capacidade que esses grupos têm desenvolvido para explorar esses conflitos locais, assumindo a causa por algumas comunidades contra outras, mas também desempenhando o papel de árbitro”, explica.

Em entrevista à RFI, o especialista aponta estratégias para combater essa ameaça que se espalha por diferentes países. “Penso que é importante, em cada um dos países em causa, poder identificar todas as vulnerabilidades de ordem socioeconômica, de segurança, em termos de convivência entre comunidades e de inclusão”, cita.

Assanvo ainda destaca a importância da cooperação mútua dos diversos países da região. “A cooperação não deve ser vista como um rio longo e tranquilo, sempre há esforços a serem feitos para poder fortalecê-la. E penso que entre a Costa do Marfim e o Burkina Faso, é verdade que existem vários litígios e uma responsabilidade em certos aspectos da cooperação. Porém, do ponto de vista da luta contra o terrorismo, acho que existe uma vontade declarada das autoridades desses países de colaborar no combate a essa ameaça”, conclui.

(Com informações da AFP e RFI)

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