A explosão das contaminações pela ômicron na França levou o país a privilegiar os autotestes nas escolas para gerenciar os casos positivos 
AFP – ALEX HALADA

O uso dos autotestes é recomendado antes de reuniões familiares e amigos e se tornou a principal arma de controle da epidemia nas escolas do país, diante da propagação acelerada da variante ômicron. No Brasil, a Anvisa também avalia a possibilidade de adotar os testes caseiros.

Taíssa Stivanin, da RFI

A cena tornou-se comum nas ruas francesas: todos os dias, em frente aos laboratórios e farmácias, filas quilométricas se formam para a realização de testes de antígenos ou de um PCR para detectar o SARS-CoV-2. Com a chegada da ômicron à França, em dezembro, o número de contaminações explodiu: quase 370 mil em 24 horas, de acordo com um balanço da Santé Publique France, a Agência Nacional de Saúde Pública francesa.

Essa situação levou o governo francês a mudar sua estratégia para identificar os novos casos de Covid-19. “A dificuldade quando enfrentamos uma onda epidêmica como a da ômicron é que não temos como testar todo mundo”, diz Martial Fraysse, membro da Academia Francesa de Farmácia. Segundo ele, cerca de um milhão de testes são realizados diariamente na França e 300 mil são positivos.

O país produz autotestes, mas importa o restante da China, dos Estados Unidos e da Alemanha para suprir a demanda. “Estamos sobrecarregados e a única solução é a utilização do dispositivo. É uma maneira individual e familiar de gerenciar a epidemia dentro da comunidade”, reitera Fraysse. O produto pode ser encontrado nas farmácias e, desde o início do ano, nos supermercados franceses.

Com o aumento dos números de casos e a volta às aulas, no dia 4 de janeiro, a situação piorou. Pouco mais de 1% das crianças francesas estão vacinadas e a circulação ativa do vírus levou ao fechamento de cerca de 9.000 classes. Aproximadamente 50 mil alunos e 60 mil professores testaram positivo. Diretores, professores e pais estão à beira de um ataque de nervos, o que levou a categoria a convocar uma greve para esta quinta-feira (13).

Uso da máscara nas escolas voltará a ser generalizado na França
Uso da máscara nas escolas voltará a ser generalizado na França © REUTERS – GONZALO FUENTES

Na tentativa de aliviar a pressão nos laboratórios e nas famílias, o Ministério da Educação francês decidiu, na semana passada, que os alunos que estiveram em contato com um caso positivo dentro da classe deverão realizar três testes caseiros durante uma semana, um dia sim, um dia não. Se o resultado for negativo, a criança poderá frequentar o estabelecimento normalmente, sem necessidade de isolamento.

O membro da Academia Francesa de Farmácia concorda com a estratégia adotada pelo Ministério da Educação francês. “É melhor testar as crianças em casa e apenas realizar um teste de antígenos ou PCR se o resultado for positivo”, defende.

A margem de erro, diz, é de cerca de 20% de falsos negativos, o que é “aceitável” em um contexto de propagação viral acelerada, como é o caso atual. Hoje, explica o especialista, há tanta demora na confirmação da cepa envolvida na contaminação que essa informação perde sua utilidade na gestão epidêmica.

O Brasil, que também já enfrenta a ômicron, também está avaliando a implantação dos autotestes para detectar o vírus. Em uma nota divulgada no dia 7 de janeiro, a Anvisa não descartou a possibilidade de liberar o uso do produto. O governo deve se pronunciar sobre o assunto ainda nesta semana, disse o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. A venda do produto ainda é proibida no país.

Os autotestes já fazem parte do cotidiano dos franceses.
Os autotestes já fazem parte do cotidiano dos franceses. © Taíssa Stivanin/RFI Brasil

Noruega foi pioneira nos autotestes

O farmacêutico francês lembra que o principal modo de propagação do SARS-CoV-2 é no trabalho, em encontros ou “aglomerações” com amigos e dentro de casa – um membro da família se contamina e transmite o vírus para os outros. Em todas essas situações, as máscaras caem e não há distanciamento social. A testagem permite, assim, evitar a propagação.

Ele lembra que o autoteste em geral não detecta pacientes assintomáticos, mas é preciso ficar atento a sinais às  vezes imperceptiveis, mas presentes, ainda que sejam leves e transitórios. No caso da ômicron, diz, os principais sintomas são dor de cabeça, garganta e, às vezes, um pouco de cansaço, principalmente entre vacinados.

De acordo com Fraysse, a Noruega foi pioneira na adoção do autoteste na Europa há alguns meses, distribuindo kits para as famílias. Muitas vivem isoladas, longe de farmácias ou laboratório, e o teste caseiro foi uma escolha evidente para o governo na gestão epidêmica. Em seguida, o Reino Unido, atingido em cheio pela ômicron, seguiu o exemplo norueguês.

Na Europa, a Noruega,foi o primeiro país a adotar os autotestes.
Na Europa, a Noruega,foi o primeiro país a adotar os autotestes. AFP – PIERRE-HENRY DESHAYES

Inserir cotonete profundamente é um erro

Segundo Martial Fraysse, os testes caseiros podem incluir swabs (cotonete estéril usado para coleta nasal) diferentes. Além do tradicional, usado nos laboratórios, algumas marcas comercializam testes caseiros com um swab que lembra uma esponja. Ele é considerado mais eficaz para obter o diagnóstico porque recolhe uma quantidade maior de secreção nas narinas.

O farmacêutico francês lembra, aliás, que, independentemente do modelo, os swabs não precisam ser inseridos tão profundamente – uma reclamação comum dos pacientes. “Inserir perto dos seios nasais é um grande erro, feito com frequência. O ideal é ficar na ‘parte mole’, a asa do nariz,onde há mais chance de achar o vírus, sem atingir as cartilagens, ”, aconselha. É importante também que a coleta dure 15 segundos em cada narina.

Para não cometer erros na realização dos testes, ele recomenda assistir aos tutoriais produzidos pelo NHS, o serviço de saúde do Reino Unido. “O maior problema dos autotestes é a utilização incorreta”, conclui o especialista francês.

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