Marine Le Pen, candidata do Reunião Nacional que disputa o segundo turno da presidencial francesa em 2022.
 REUTERS/Benoit Tessier

Mesmo que venha a perder o segundo turno da eleição francesa para o atual presidente Emmanuel Macron, não se pode negar que a campanha de Marine Le Pen, do partido de extrema direita Reunião Nacional, obteve sucesso. Na primeira vez que concorreu à Presidência, em 2012, Le Pen ficou em terceiro lugar, com 17,9% dos votos. Em 2017, foi classificada ao segundo turno com 21,3% dos votos, terminando derrotada (33,9%). Neste ano, foi ao segundo turno com 23,15% de votos, apesar da concorrência em seu campo de Éric Zemmour (7,07%).

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A uma semana do pleito, as pesquisas lhe dão uma média de 45% de intenção de votos para 24 de abril.

O crescimento constante de Le Pen assinala o sucesso eleitoral de uma extrema direita que, mesmo com propostas antidemocráticas marcadas pela xenofobia e disfarçadamente pelo racismo, se apresenta como “bem-comportada”, seguindo as regras do jogo democrático. Com diferentes graus de sucesso ou insucesso, este também é o caso do partido Alternative für Deutschland (AfD), na Alemanha, do Vox, na Espanha, do Chega, em Portugal, e do Liga, na Itália, sem esquecer casos como os da Polônia e Hungria, em que a extrema direita está no poder nacional.

Mas nem toda a extrema direita segue essa cartilha. Há uma extrema direita escancaradamente “malcomportada”, chegando aos limites do terrorismo programático. Este é o caso dos chamados “Patriotas Unidos”, na Alemanha, grupo extremamente agressivo, embora pequeno, que foi alvo de investigação e prisões por parte da polícia.

Além de apreender um verdadeiro arsenal de armamentos nada leves, dinheiro, ouro e certificados falsos de vacinação, os policiais surpreenderam planos de sequestrar o ministro da Saúde alemão, Karl Lauterbach, numa campanha negacionista de protesto contra a política sanitária do governo de Berlim em relação à pandemia. Este tem sido um novo trunfo para os movimentos de extrema direita, sejam os “bem-comportados” ou os “malcomportados”: o negacionismo sanitário.

O “Patriotas Unidos” não é o único grupo na mira dos aparatos de segurança. No momento estes também investigam o grupo “Atomwaffen Division Deutschland”, mais ou menos em português “Divisão de Armas Atômicas da Alemanha”, uma espécie de filial do movimento semelhante com sede nos Estados Unidos que tem ramificações em vários países do mundo e que é abertamente neonazista, antissemita, homofóbico e defensor da chamada “supremacia branca”.

Como a extrema direita pretende conquistar eleitores da esquerda na França?
Marine Le Pen, French far-right National Rally (Rassemblement National) party candidate for the 2022 French presidential election, speaks during a campaign meeting in Avignon, France, April 14, 2022.
Marine Le Pen, French far-right National Rally (Rassemblement National) party candidate for the 2022 French presidential election, speaks during a campaign meeting in Avignon, France, April 14, 2022. REUTERS – CHRISTIAN HARTMANN

Grupos de supremacia branca

Há muitos outros grupos de tendências semelhantes proliferando pela Alemanha, como o Knockout 51, que se destacou por ataques violentos contra políticos e personalidades de esquerda. Em geral, são grupos pequenos, pulverizados, de atuação local e regional, mas por isto mesmo muito perigosos, difíceis de controlar e contando com grande autonomia de ação.

Apesar de haver antecedentes, a luz vermelha só veio a se acender de vez quando, em junho de 2019, um fanático neonazista assassinou o político conservador Walter Lúbcke, da União Democrata Cristã, por discordar de sua posição favorável ao acolhimento de imigrantes refugiados. Desde então, a vigilância sobre as atividades da extrema direita aumentou consideravelmente, a ponto do então ministro do Interior (equivalente ao ministro da Justiça no Brasil), Horst Seehofer, tê-las considerado a maior ameaça à democracia no país.

Depois dos ataques contra as torres gêmeas em Nova Iorque, durante muito tempo os serviços de inteligência alemães negligenciaram a vigilância contra os grupos de extrema direita, concentrados no controle sobre movimentos definidos como islâmicos ou de extrema esquerda. Uma destas agências chegou a ponto de fechar sua unidade de controle da extrema direita, dissolvendo-a em outros departamentos. Nem mesmo serviram de alerta atentados gravíssimos, ocorridos em outros países, como o massacre de Oslo, na Noruega, em junho de 2011, quando um fanático de extrema direita matou 77 pessoas, na maioria jovens, num acampamento de verão do Partido Trabalhista.

O grupo finlandês Soldados de Odin, sob as ordens de um delinquente neonazista, patrulha as ruas com o pretexto de proteger a população local dos imigrantes
O grupo finlandês Soldados de Odin, sob as ordens de um delinquente neonazista, patrulha as ruas com o pretexto de proteger a população local dos imigrantes Reuters

O fato é que “bem ou malcomportados” os movimentos de extrema direita vêm crescendo na Europa inteira, tanto em termos de ações ou de ousadia. Alguns deles, na Alemanha, chegam ao ponto de negar a existência da República Federal; distribuem carteiras de identidade e até passaportes entre seus membros.

Até o momento esses papeis valem apenas entre eles. Mas quem sabe um dia venham a ser usados como condecorações de precursores de novos regimes de exceção no continente.

Por:Flávio Aguiar/Noticiário Francês 

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