“Estamos à beira de uma guerra civil”: polarização política nunca foi tão forte nos EUA


Polarização entre eleitores democratas e republicanos se acirrou durante os quatro anos de governo do presidente americano, Donald Trump.
 © Fotomontagem RFI/AP

Após quatro anos de governo Trump e diante de uma crise sanitária sem precedentes, a população dos Estados Unidos está mais dividida do que nunca. Tanto o líder republicano quanto o seu rival, o democrata Joe Biden, terão o desafio de governar em um país onde a polarização parece irreversível

Com informações de Carlotta Morteo, enviada especial da RFI aos Estados Unidos

Nas últimas eleições presidenciais americanas, em 2016, a clivagem política já existia, mas parecia muito mais amena. No entanto, nos últimos anos, as divisões se instalaram de tal forma no cotidiano dos americanos que democratas e republicanos parecem ter duas concepções distintas da realidade.

Trump por mais quatro anos na Casa Branca? A resposta é raramente branda: “sim, a qualquer preço!” ou “não, de jeito nenhum!”. A polarização é evidente no eleitorado americano, uma situação que separou famílias e afastou amigos.

Simpatizante de Trump, Becky conta à RFI que não vê o filho há dois anos porque ele a considera “racista” e “fascista”. A americana não é um caso isolado. Vários eleitores afirmam que evitam falar de política com colegas e amigos porque a conversa acaba em briga.

O diálogo entre republicanos e democratas é cada vez mais complicado, diz outro eleitor à reportagem da RFI. “Nos acusamos mutuamente de mentir, de sermos hipócrita, de sermos manipulados. Não vale mais a pena discutir.”

O fato de que as divergências políticas tenham uma repercussão violenta na vida privada também parece inédito no país. “O governo Trump quebrou algo, a ideia de união. No nosso país, isso vai ter consequências durante muito tempo”, afirma Jay, sindicalista do setor de mineração.

Fratura emocional entre os democratas

A fratura não é apenas ideológica, mas emocional. Um advogado entrevistado em Louisville, no estado do Kentucky, afirma que, de um ponto de vista psicológico, não sabe se conseguirá aguentar mais quatro anos de presidência de Trump. “Não passa um dia sem que as mídias ou as redes sociais venham nos falar de uma enésima provocação de Trump. É exaustivo e tóxico”, diz.

Outros americanos se dizem “totalmente deprimidos”. É o caso de Clara, arquiteta de 30 anos da cidade de Saint-Louis, no estado do Missouri, que relata sentir “vergonha” dos Estados Unidos há quatro anos e medo do que vai acontecer depois das eleições. “Tenho a impressão de que estamos à beira de uma guerra civil”, desabafa.

Para muitos progressistas, a presidência de Trump teve um efeito de choque. Mesmo que a candidatura de Biden não suscite o entusiasmo entre os jovens americanos, empurrados ainda mais para a esquerda com o atual governo, “se livrar de Trump é a prioridade absoluta”, diz a eleitora Joanna.

A jovem se integrou ao Partido Democrata do estado do Kentucky há dois anos. “Precisamos de um presidente decente e competente”, defende.

Cidadãos que se dizem assustados com o clima político se engajaram em movimentos locais “para reencontrar sentido e solidariedade dentro do caos”, constata Amy, estudante na universidade de Kansas City.

Manifestações para pedir melhores salários, mais justiça racial e moradia sacudiram várias cidades nos últimos anos –como se a “direitização” da vida política gerada por Trump tenha provocado uma reação inversa e levado a oposição ainda mais para a esquerda.

Republicanos satisfeitos com balanço do governo Trump

Difícil de encontrar um republicano que não esteja satisfeito com o governo Trump, mesmo aqueles que não sabiam o que esperar do magnata em 2016 e que não o apreciavam muito. Os motivos: a saúde da economia (antes da crise sanitária), a nomeação de juízes conservadores, a retirada de tropas americanas de zonas de conflito.

Os pontos considerados positivos pelo eleitorado republicano desviam das críticas ao presidente, inclusive as informações falsas e distorcidas emitidas durante todo o seu mandato. “Eles não têm mais nada para reclamar! Se eles apelam para isso é porque Trump cumpre suas promessas!”, diz um eleitor que aponta como três prioridades no governo a diminuição dos impostos, a defesa do porte de armas e a proibição do aborto.

Como boa parte do eleitorado conservador, Randy, empregado de uma fábrica de armas em Kentucky, tem dúvidas sobre o voto por correspondência e nega as pesquisas que apontam Biden como vencedor. “Vocês acham sinceramente que os americanos querem ver Kamala Harris governar?”. Segundo ele, há grandes possibilidades que Biden possa falecer durante o mandato e o país ficar nas mãos de sua vice.

A interpretação e análise da situação pelos eleitores republicanos são tão distantes da ala democrata que nem parecem fazer parte de mesmo país. Há uma clara visão oposta sobre o presidente e até mesmo sobre a sociedade americana.

Basta mudar de canal de televisão, da Fox News para a MSNBC, para perceber por que muitos americanos têm dificuldade de distinguir entre informação, opinião e propaganda. Uma unanimidade entre os dois campos: tanto eleitores conservadores quanto progressistas afirmam que se preparam para “o pior” em 3 de novembro.

Noticiário Francês 

Compartilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *