Bares e restaurantes tiveram de reduzir capacidade para 40%. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

A propagação do coronavírus entre jovens de até 29 anos foi a que mais aumentou entre faixas etárias desde o início da pandemia, de acordo com dados do governo de São Paulo. Em junho, esse grupo representava 20% dos casos positivos para a covid-19 e, desde setembro, já acumula 27% do total de infectados. O aumento está gerando conflito em famílias de jovens que vivem com pessoas do grupo de risco. Todas as outras faixas etárias diminuíram o porcentual de infecções no mesmo período.

Dos 1.250.590 casos de coronavírus confirmados até 1º de dezembro no Estado, 307.685 correspondem ao grupo de 0 a 29 anos. Ao mesmo tempo, essa é a faixa etária menos atingida pelos casos de óbitos, acumulando menos de 500 do total de 42.290 mortes em São Paulo durante o mesmo período, o equivalente a menos de 2%.

Os números se referem apenas ao período em que os casos e mortes foram computados pela Secretário do Estado da Saúde e não quando de fato ocorreram. Mesmo assim, o próprio governo de São Paulo tem alertado para o crescimento da contaminação entre jovens. Em coletiva de imprensa da última quinta-feira, 26, o coordenador do Centro de Contingência da Covid-19, João Medina, alertou para a forma como essa faixa etária tem ajudado a disseminar a doença.

“Nós realmente temos um aumento dos casos positivos em todos os laboratórios, principalmente envolvendo jovens. Esse é um perfil que também aconteceu na Europa”, afirmou. Medina ainda acrescentou que eles são “vetores” e levam o vírus para casa, infectando o restante da família. O alerta foi reforçado na sequência pelo governador João Doria (PSDB): “O maior problema está concentrado nos jovens.”

Especialistas ouvidos pelo Estadão afirmam que este não é um fenômeno exclusivo de São Paulo ou do Brasil, mas do mundo inteiro, que observou a taxa de contaminação entre jovens subir com a flexibilização da quarentena. “Até junho e julho, todo mundo ficou quieto. Quando começamos a flexibilizar, as pessoas começaram a sair com os protocolos, que foram seguidos pelos estabelecimentos, mas depois caíram em desuso pela população”, afirma Sylvia Lemos Hinrichsen, médica infectologista e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.

“O que observamos é que os jovens criaram esse problema”, reforça, explicando como o Brasil seguiu a mesma trajetória de infecções observada no verão do hemisfério norte. “Esse fenômeno está acontecendo no mundo todo, porque são essas as pessoas que não querem seguir protocolo de distanciamento e pensam em pegar logo o vírus para ficarem ‘imunes’, mas não pensam em como vão transmitir isso para os outros.”

Para Margareth Dalcolmo, pneumologista da Fundação Oswaldo Cruz, o sentimento de onipotência dos jovens e o crescimento dos casos nesta população é uma “crônica anunciada” desde março, quando foi prevista uma “renovação” da covid-19 no Brasil. “Não somos um país de população geriátrica como Itália e França. No pico epidêmico, houve um momento em que mais de 50% dos leitos no Rio de Janeiro estava ocupado por pessoas com menos de 50 anos. E imagino que agora vá ocorrer o mesmo.”

Ela acredita que o Brasil ainda não chegou a uma segunda onda e apenas recrudesceu à primeira, um cenário que tem os ingredientes perfeitos para se agravar após as festas de fim de ano. “É preciso entender que os jovens saíram mais, estão se aglomerando, se acham invulneráveis, e a doença mudou de lugar. Eles foram para a rua e trouxeram o vírus para casa, infectando os familiares”, alerta.

Margareth acredita que, além do respeito a medidas sanitárias como o uso de máscaras, a higienização das mãos e o distanciamento social, é preciso haver mais fiscalização em transportes públicos, eventos, bares e restaurantes. “Isso está mais do que demonstrado. Estamos atendendo muito mais jovens [nos hospitais]. As crianças também têm se contaminado mais”, afirma. “Poderemos começar o próximo ano com uma segunda onda mais letal e mais dramática, se nada for feito hoje, agora.”

Estadão 

 

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