Foto: Ascom

FÁBIO ZANINI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O PT prefere deixar em segundo plano a discussão sobre corrupção na eleição presidencial de 2022, em que provavelmente terá Luiz Inácio Lula da Silva como candidato.

O partido se sente mais confiante em tratar do tema após a série de vitórias sobre a Lava Jato, mas sabe que ele é sensível e deve ser muito explorado por adversários.

Na campanha, a tendência é confinar a corrupção ao papel de coadjuvante no arsenal de Lula contra o presidente Jair Bolsonaro, bem atrás das discussões sobre pandemia, economia e ataques às instituições.

Atingido nos últimos anos por escândalos como mensalão e petrolão, o PT deve ter atitude mais reativa, respondendo se provocado.

“Esse tema certamente será usado pelos nossos adversários. Queremos fazer um debate sobre a verdade. Já vencemos na Justiça e estamos vencendo na política”, diz a presidente do partido, Gleisi Hoffmann.

Além da anulação da condenação de Lula no caso do tríplex de Guarujá e da parcialidade do ex-juiz Sergio Moro, o partido conta a seu favor a absolvição no chamado “quadrilhão do PT”.

“Nossa proposição maior é discutir a vida do povo, como tirar o país dessa crise, melhorar a renda, retomar a soberania nacional. Não nos furtaremos a fazer o debate da corrupção, mas queremos mostrar como esse tema foi utilizado numa estratégia de perseguição política”, afirma Gleisi.

Segundo dirigentes do partido, acusações contra Bolsonaro, como as “rachadinhas” e as suspeitas sobre compra de vacinas, devem ser abordadas de forma cautelosa na campanha.

Petistas dizem também que é urgente uma autocrítica sobre corrupção –não a cobrada por adversários, reconhecendo envolvimento com desvios, mas um mea culpa do partido por ter explorado muito agressivamente o tema no passado.

“Essa é uma autocrítica que o PT poderia fazer, de ter utilizado a corrupção como arma para desqualificar o oponente. Temos de desqualificar no confronto de ideias, não em práticas udenistas, lacerdistas, porque isso leva a golpe de Estado”, diz o ex-deputado federal Wadih Damous (PT-RJ), um dos formuladores do partido sobre o tema, fazendo referência aos ataques de Carlos Lacerda (UDN) contra Getúlio Vargas, nos anos 1950.

Há diversos exemplos desse moralismo exacerbado na história do PT. Em 2001, o então publicitário do partido, Duda Mendonça, produziu um famoso comercial denunciando a corrupção no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em que ratos roíam a bandeira do Brasil.

Outra peça da mesma época tinha líderes do partido repetindo em sequência a frase “lutar contra a corrupção e melhorar a vida do povo”.

Para o ex-ministro da Justiça Tarso Genro, o partido não deveria polarizar demais sobre corrupção em 2022, pois isso “degrada o debate político”.

“Corrupção é um tema importante, mas não o principal. Pandemia, milícias e deterioração das políticas sociais são mais relevantes hoje”, afirma.

Segundo Tarso, o debate interno no partido sobre corrupção mudou muito. “Mudou por uma questão estrutural no centro da discussão democrática. Há uma campanha da direita no mundo de que os políticos são essencialmente corruptos, de que o Estado é corrupto”.

Apesar das vitórias na Justiça, o PT ainda tem flancos abertos que deverão ser explorados por adversários. Não desapareceram, por exemplo, a delação do ex-ministro Antônio Palocci (Fazenda), a relação promíscua com empreiteiras e o dinheiro desviado da Petrobras para o exterior.

Contra isso, já há uma espécie de discurso montado para rebater os ataques que devem vir de adversários.

O roteiro inclui, além das críticas à Lava Jato, o argumento de que os governos Lula e Dilma Rousseff deram independência e condições materiais para a Polícia Federal e o Ministério Público trabalharem sem pressões.

O PT também deve lembrar de medidas como a criação da CGU (Controladoria Geral da União), a aprovação da Lei de Acesso à Informação e o fortalecimento da legislação contra a corrupção.

“Nos nossos governos, as instituições de fiscalização e controle foram fortalecidas e ganharam independência e autonomia. A Polícia Federal era uma polícia de Estado, e não de governo ou de um ou outro grupo político”, diz o advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do Prerrogativas, grupo que reúne profissionais do Direito.

Nos últimos anos, o Prerrogativas foi um dos principais responsáveis por colocar em xeque a atuação de Moro e da Lava Jato. “Estamos muito tranquilos para falar sobre corrupção, e a anulação de todas as condenações criminosas e injustas do presidente Lula no âmbito da Lava Jato ajuda muito”, diz Carvalho, filiado ao PT e bastante atuante no debate partidário.

Lançado no ano passado, o Plano de Reconstrução e Transformação do Brasil, espécie de embrião do programa de governo de Lula para 2022, trata de forma genérica do tema da corrupção, em apenas 3 das 215 páginas.

Metade deste espaço é dedicado a criticar supostos excessos cometidos contra o partido pela Lava Jato.

O PT defende mexer em leis que foram criadas em seu próprio governo, mas que acabaram virando-se contra o partido, como as da Ficha Limpa, Anticorrupção e, sobretudo, a das Organizações Criminosas –que formalizou a delação premiada.

“Não se combate a corrupção premiando corruptos confessos, como fez a Lava Jato com praticamente 90% dos réus que ela mesma condenou, perdoando penas e liberando fortunas no balcão das delações premiadas, para obter acusações falsas contra seus alvos políticos”, diz o documento do partido.

Quando era deputado, em 2016, Damous apresentou um projeto que vetava a delação premiada por quem estivesse preso. “A Lava Jato combinava prisão preventiva com delação. Com isso, a delação deixou de ser um ato de vontade e passou a ser um elemento de coação”, afirma o ex-parlamentar.

Ex-presidente do PT, o deputado federal Rui Falcão (SP) diz que o partido é mais cauteloso hoje para fazer acusações de corrupção.

“Há muito mais cuidado hoje do PT para não ingressar na esfera do denuncismo, de dar conteúdo moralista para tudo. Os udenistas, que faziam isso, eram falsos moralistas. E o PT acabou sendo alvo disso”, afirma.

Por isso, não é de se esperar que o partido no ano que vem tome a iniciativa nesse debate. Mas, avalia Falcão, a campanha de Lula estará preparada para rebater ataques que vierem, sobretudo de Bolsonaro.

“Se o Bolsonaro escolher esse campo da corrupção, o que ele vai falar dos filhos, da rachadinha? O que dói mais, acusar indevidamente o Lula com fake news sobre supostos esquemas na Petrobras, ou dizer que estavam tomando dinheiro de um cara que ganhava R$ 8.000 e era fantasma?.”

Segundo ele, a “rachadinha”, envolvendo o ex-assessor Fabricio Queiroz, os filhos do presidente e a atual primeira-dama, Michelle, é muito mais concreta no imaginário da sociedade. “Se vier esse tipo de acusação, temos argumentos para responder”, afirma.

Folhapress

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui