Emmanuel Macron e Marine Le Pen no início do único debate entre os candidatos para o segundo turno da eleição presidencial francesa.
 © AFP – LUDOVIC MARIN

Emmanuel Macron e Marine Le Pen, que concorrem no segundo turno da eleição presidencial francesa, participaram de um debate na noite desta quarta-feira (20). Relações com a Rússia e proibição do uso do véu islâmico, mas também a compra de frango brasileiro, foram alguns dos temas que mostraram as divergências dos candidatos no confronto, o único entre os dois presidenciáveis.

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Durante duas horas e meia, os eleitores da França viveram um repeteco da corrida presidencial de 2017, quando Macron e Le Pen, que também disputavam o segundo turno do pleito, se enfrentaram em um debate. Até o figurino era praticamente o mesmo, com ambos vestindo ternos azul marinho.

No entanto, o encontro desta quarta-feira foi menos violento que o embate de 2017. Na eleição passada, Macron e Le Pen trocaram farpas durante praticamente todo o debate e o centrista venceu Le Pen pelo cansaço. Desta vez, a líder da extrema direita se concentrou no balanço do chefe de Estado, apontando que o apresentava como “injustiças” de seu mandato.

Mesmo assim, o debate foi marcado por tensão, ironias e trocas de acusações. Marine Le Pen se mostrou combativa durante todo o encontro. A tal ponto que começou a responder a primeira pergunta antes mesmo que seu microfone fosse acionado.

Os dois candidatos expuseram seus pontos de vista sobre diferentes temas. Eles discursaram sobre reforma da aposentadoria, segurança, imigração, investimento na saúde, indústria e educação, mas também sobre relações internacionais e meio ambiente.

O debate foi lançado abordando a questão da queda do poder aquisitivo, uma das principais preocupações dos eleitores na França, sobre a qual cada candidato expôs suas propostas. Le Pen, que se apresentou como a “porta-voz dos franceses”, disse que as medidas anunciadas por Macron não serão suficientes para reduzir a precariedade.

Ela pontuou várias frases dizendo que “teve a impressão de que a população foi negligenciada nos últimos anos”. Já o presidente acusou a rival de apresentar propostas que não poderão ser realizadas e disse que o seu programa não abordava a questão do desemprego. “O que eu vejo é que há 400 mil pobres a mais na França desde que o senhor foi eleito”, revidou Le Pen em outro momento do debate. “O Mozart das finanças, como o senhor às vezes foi apresentado, teve um balanço econômico muito modesto e um balanço social que é ainda pior”, ironizou a líder da extrema direita.

Ao falar sobre as relações internacionais da França e a guerra na Ucrânia, Le Pen disse que Paris deve continuar apoiando os ucranianos, mas não pode parar de comprar gás da Rússia. Macron retrucou dizendo que a candidata só diz isso porque “depende do poder russo e do senhor Putin”, em alusão aos empréstimos que a rival fez junto a bancos russos para financiar sua campanha. “Quando a senhora fala com a Rússia, não está falando com outros dirigentes, e sim com seu gerente de banco”, disse o presidente, com sarcasmo.

Frango brasileiro

Em seguida, Macron defendeu a União Europeia e a força da parceria franco-alemã que, segundo ele, foi indispensável na luta contra a pandemia de Covid-19. Já Le Pen, que é sempre acusada de desejar tirar a França do bloco europeu, disse que “quer se manter na União Europeia, mas quer mudá-la profundamente”.

Foi nesse momento que a América Latina foi diretamente citada. Ao criticar os acordos de livre-comércio, Le Pen disse ser contra compromissos para a comprar frango brasileiro. Macron retrucou, dizendo que a França se opôs ao projeto de comércio bilateral entre a UE e o Mercosul. “Nos recusamos a avançar sobre esse assunto pois não havia o respeito dos engajamentos do Acordo de Paris e o respeito da biodiversidade. E nós lutamos contra o desmatamento graças à Europa e a escolha de nossos agricultores”, continuou o presidente, fazendo referência às inúmeras declarações de seu governo contra o acordo em razão do desmatamento da Amazônia.

Imigração e véu islâmico

Mas foi sobre temas ligados à imigração e diversidade que os candidatos foram mais virulentos. Como durante todas as suas campanhas, Marine Le Pen ligou à questão da insegurança à imigração e disse que “é preciso resolver o problema da imigração anárquica, que contribui para a violência no nosso país”.

Ela defendeu novamente um referendo seguido de uma revisão da Constituição sobre a imigração, que permitiria expulsar os criminosos estrangeiros e dificultaria a obtenção da nacionalidade francesa para os filhos de estrangeiros nascidos no país. “A nacionalidade francesa se merece”, insistiu a candidata, ao que Macron respondeu dizendo que a rival tem uma visão “restrita” do mundo.

O tom subiu novamente quando os candidatos foram questionados sobre a proibição do uso do véu islâmico em espaços públicos, uma das propostas de Marine Le Pen. A candidata disse que o acessório é um “uniforme imposto” pelos homens muçulmanos, que “muitas mulheres não têm escolha” e que “é preciso libertá-las”.

Macron se mostrou totalmente contra a proposta e alertou para as consequências. “Se a senhora fizer isso [proibir o véu], vai criar uma guerra civil”, lançou o presidente, lembrando que a França se tornaria o primeiro país no mundo a adotar esse tipo de proibição.

A questão do meio ambiente, pouco presente na campanha presidencial, também foi tratada. Le Pen disse que é preciso “acabar com a hipocrisia” e admitir que as importações representam 50% das emissões que provocam o efeito estufa, antes de criticar novamente o livre-comércio e defender o “patriotismo econômico”, evitando importar frutas e legumes.

Macron respondeu dizendo que o programa da concorrente não tinha “nem pé nem cabeça” e chamou Le Pen de “climatocética”. A candidata reagiu rapidamente: Não sou climatocética, mas o senhor é “climatohipócrita”.

Atualmente, de acordo com uma pesquisa realizada pelo instituto Ipsos, 13% dos eleitores franceses seguem indecisos sobre a escolha do próximo presidente. Um estudo recente apontou que um em cada quatro franceses dizia que poderia ser influenciado pela performance dos candidatos durante o debate antes do segundo turno, que acontece no próximo domingo (24).

Noticiário Francês 

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