Após uma sequência de três pregões de alta, o dólar perdeu força e encerrou a sessão desta terça-feira, 10, em queda firme, abaixo do patamar de R$ 5,20, em meio a fluxos pontuais de recursos, realização de lucros e diminuição de posições defensivas.

Analistas destacam que a perspectiva de alta mais forte e prolongada da taxa Selic, ratificada nesta terça pelo tom duro da ata do Comitê de Política Monetária (Copom), tende a dar certa sustentação ao real, ao aumentar o diferencial de juros e, por tabela, a atratividade da renda fixa local. Além disso, o fato de a PEC dos Precatórios não trazer “surpresas negativas” que ameacem formalmente o teto de gastos foi visto com positivo. No fim, parece ser menos pior o parcelamento das dívidas judiciais do que a assimilação completa do pagamento no Orçamento de 2022.

O mercado permanece, contudo, ainda muito receoso com o risco fiscal, o que impede uma rodada abrangente de apreciação da moeda brasileira e adiciona muita volatilidade à taxa de câmbio. A avaliação é de que existe hoje pouco espaço no Orçamento para abrigar a expansão de gastos sociais almejada pelo presidente Jair Bolsonaro, que tenta recuperar sua popularidade.

Depois de chacoalhar nas primeiras horas de negócios, com trocas de sinais, o dólar se firmou em terreno negativo no fim da manhã e chegou a trabalhar abaixo de R$ 5,19, descendo até a mínima de R$ 5,1857. Com certa recuperação do fôlego ao longo da tarde, a moeda norte-americana encerrou a R$ 5,1967, em queda de 0,96%. No acumulado do mês, o dólar recua 0,25%.

 

“O BC mostrou que está disposto a elevar o juro acima do patamar neutro e usou uma linguagem um pouco mais dura, o que explica esse comportamento do dólar”, afirma o economista da Integral Group, Daniel Miraglia, que ainda vê um ambiente de muita volatilidade para o câmbio. “Caminhamos para um fim de ano desafiador, sem espaço para surpresa positiva no crescimento capaz de melhorar a relação dívida/PIB e com essa tendência do governo ao populismo.”

Para Miraglia, ainda vai haver “muito barulho” em torno de eventuais despesas que possam ficar fora da regra do teto dos gastos. Ele também chama a atenção para a tramitação da reforma do Imposto de Renda, que pode diminuir o potencial de crescimento da economia. “Essa preocupação com a questão fiscal não vai embora tão cedo. Nosso cenário é de dólar a R$ 5,30 no fim do ano, com risco para cima”, afirma Miraglia, que prevê, por ora, alta da Selic até 7,25% ao ano.

Em sua ata, o Copom já adiantou que vai manter o ritmo de aperto e elevar a Selic em 1 ponto porcentual em setembro, para 6,25% ao ano. O comitê também disse que, se não houver “mudança nos condicionantes de inflação”, serão necessárias elevações de juros subsequentes, “sem interrupção”. A taxa Selic vai subir até que a política monetária se torne contracionista.

Diversas casas já veem Selic em 7,5%, 8% e até 8,5% no fim do ano. Parte do mercado acredita que o BC subestimou as pressões inflacionárias e agora terá de ser mais duro para “ancorar as expectativas” de inflação. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou pela manhã que o IPCA acelerou de 0,53% em junho para 0,96% em julho, levemente acima da mediana de Projeções Broadcast (0,95%).

Lá fora, o dia foi de alta moderada do índice DXY – que mede o comportamento da moeda americana ante seis pares fortes – e desempenho misto do dólar frente a divisas emergentes, com queda na comparação com a lira turca, certa estabilidade ante o peso mexicano e alta em relação ao rand sul-africano.

Para o economista-chefe Instituto Internacional de Finanças (IFF), Robin Brooks, a queda do dólar por aqui mostra a força do real. Ele ressalta que os resultados mais fortes do mercado de trabalho americano empurraram as taxas de longo prazo americanas para cima, o que pesa sobre as divisas emergentes. “A única moeda que conseguiu se destacar foi o real, já que está muito subvalorizado”, escreve Brooks, no Twitter.

O mercado aguarda na quarta-feira a divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI) nos Estados Unidos em julho para calibrar as apostas sobre os próximos passos do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), em meio a sinais crescentes de que o início da redução da compra mensal de bônus está cada vez mais próximo.

Istoé

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