O porto de Beirute no dia seguinte à explosão devastadora, 5 de agosto de 2020.
 © AP – Hussein Malla

Na quinta-feira (4) o Líbano relembra os dois anos desde a explosão que transformou o porto de Beirute em escombros, matou 218 pessoas e deixou mais de 7.000 feridos. Os familiares das vítimas exigem justiça, mas os responsáveis ​​pelo desastre continuam atrapalhando o processo judicial.

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A explosão do porto da capital libanesa causou em poucos segundos mais danos do que a guerra civil em 15 anos. A origem de tudo: a detonação de centenas de toneladas de nitrato de amônio, um material explosivo que estava armazenado desde 2013 no coração de Beirute.

Durante os primeiros dias após a explosão, milhares de pessoas se manifestaram exigindo justiça. Pouco depois, as concentrações foram se esvaziando. Mergulhados em uma crise econômica, os libaneses tinham que se preocupar com o pão de cada dia e foram voltando para suas casas, ou o que restava delas. Dois anos depois, ninguém foi condenado pela explosão.

Mariana Fodoulian, membro da Associação de Famílias de Vítimas, que lidera a luta contra a impunidade, falou à RFI. Ela perdeu sua irmã Gaia na explosão. “Tive que aprender sobre a política libanesa para entender o que está acontecendo. Até deixei meu emprego há um ano para me concentrar na luta pela justiça e dedicar todo o meu tempo a isso”, conta Mariana.

As famílias das vítimas lutam contra a impunidade, mas também contra o ceticismo dos próprios libaneses. A maior parte do país tenta virar a página sem colocar esperança em nenhum processo judicial.

“Na minha família, sou a única que está lutando. Minha mãe sempre diz que nunca haverá justiça aqui. Quanto aos políticos, estão trabalhando para ver quem cansa primeiro. Se nós ou eles. Estão fazendo de tudo para que percamos a esperança”, denuncia.

“Eles não estavam em nenhuma guerra”

Mariana e muitas outras pessoas continuam sua luta. Eles são movidos por um sentimento de raiva e injustiça: seus entes queridos não fizeram nada para encontrar a morte. “Todas as vítimas estavam em casa ou no trabalho. Eles não estavam levantando armas ou indo para nenhuma guerra”, diz ela.

“Lembre-se que tudo aconteceu quando eram 6 horas e 7 minutos da tarde. Era um dia de verão e muitos estavam se preparando para tomar uma bebida depois de um dia na praia. Outros deixaram o trabalho e foram para casa encontrar seus entes queridos. Fui ao banheiro antes de sair do trabalho e senti o terremoto. O muro da nossa clínica estava realmente caindo em cima de nós, mas algo o impediu”, diz Mariana Fodoulian.

“Pensei em ter certeza de que minha mãe estava bem. Quando liguei para ela, ela começou a gritar. Dizia: ‘irmã, morta'”, lembra. Os bairros próximos ao porto de Beirute viraram “filme de terror”, descreve. Havia pessoas chorando, outras se movendo ensanguentadas e muitas não conseguiam andar sozinhas. Portas e janelas foram jogadas em todas as direções, colidindo com os corpos dos Beirutes. A cidade inteira foi engolida por uma nuvem de poeira.

Assim como Mariana, William Noon, 28, se tornou um símbolo nacional no Líbano da luta dos familiares das vítimas da dupla explosão no porto de Beirute. Incansável, esse voluntário da Defesa Civil libanesa é irmão de um dos dez bombeiros que morreram na explosão que devastou a capital libanesa: “Não tenho mais nada a perder e vou até o fim na luta por justiça”, diz, evocando a memória do irmão.

Libanês que perdeu irmão nas explosões de Beirute lidera luta por justiça

Ministros sabiam do material explosivo

Um ano após a explosão, uma investigação da Human Rights Watch teve como alvo vários homens que estiveram no governo durante ou antes da explosão. Ali Khasan Khalil, ex-ministro das Finanças, além de Ghazi Zeaiter e Yousef Fenianos, ambos ex-ministros de Obras Públicas, estavam entre os alvos. Todos os três foram avisados ​​da presença de nitrato de amônio no porto. Alguns deles, já sabiam disso desde 2014.

Apesar da existência dessas provas, a investigação judicial está parada. O juiz que conduz o caso, Tarek Bitar, está sem poder trabalhar há sete meses, desde que a classe política bloqueou a investigação. Ghida Frangieh, membro da organização Agenda Legal, que trabalha para o bom funcionamento do sistema judicial no Líbano, explica à RFI.

“Para explicar de uma maneira simples, a razão pela qual a investigação está suspensa é porque o Ministério das Finanças está se recusando a assinar um decreto que nomearia juízes para o mais alto tribunal do Líbano, capaz de lidar com ações movidas contra ex-ministros. Hoje, para resumir, o governo está sabotando a investigação e impedindo que ela seja retomada”.

Ela conta que, para o juiz Bitar, o bloqueio atual é apenas o mais recente obstáculo. Antes, os ex-ministros que o juiz ele tentou interrogar fizeram de tudo para atrapalhar a investigação.

“Todos os ex-ministros que ele quis interrogar tinham conhecimento da presença de nitrato de amônia no porto e tinham cargos executivos que os permitiam impedir a explosão e não o fizeram”.

Frangieh denuncia que a falta de independência do sistema judiciário libanês faz com que os poderosos do país se sintam capazes de ameaçar os juízes. Seja pelo caso da explosão do porto ou por crimes cometidos durante a guerra civil, os juízes são atacados com ações judiciais e fortes campanhas de difamação na imprensa.

O que vimos nas três últimas décadas no Líbano é o que chamamos de regime de impunidade legal. Nenhuma autoridade foi sentenciada por crime de guerra nem por crimes financeiros, que fizeram com que a economia do país virasse pó, nem pela explosão no porto de Beirute”.

Famílias das vítimas durante a cerimônia do primeiro aniversário da explosão que matou mais de 200 pessoas em Beirute em 4 de agosto de 2020.
Famílias das vítimas durante a cerimônia do primeiro aniversário da explosão que matou mais de 200 pessoas em Beirute em 4 de agosto de 2020. AP – Hussein Malla

Aniversário faz reviver luto

Enquanto isso, recuperar-se de lesões, visíveis e invisíveis, é uma tarefa que ocupa toda Beirute. Atualmente, os telefones de aconselhamento da Embrace tocam mais do que o normal. Myriam Zarzour, psiquiatra desta organização que defende a saúde mental no Líbano, explica o porquê:

“Qualquer tipo de aniversário ou efeméride traz sentimentos e emoções que a gente pensou ter superado. É um sentimento ainda muito presente porque as pessoas perderam seus entes queridos, suas casas, sua percepção de segurança.”

Pesadelos, medo extremo, ansiedade ou taquicardia são consequências comuns dois anos depois. A explosão também frustrou as esperanças de construir um país melhor. Muitas pessoas que estavam lutando para deixar um Líbano decente para a próxima geração passaram a se esforçar para deixar o país, analisa Zarzour.

Mas, no final, tudo gira em torno do mesmo conceito. Zarzour afirma que não se pode falar de cura das feridas sem antes falar de justiça. Certamente essa é a razão pela qual Mariana Fodoulian e tantas outras pessoas estão dispostas a continuar lutando.

(Com reportagens de Juan Cabasés Vega e Márcia Bechara, de Beirute)

 

 

 

 

 

 

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