Pierre Lucena, presidente do parque tecnológico Porto Digital, localizado em Recife. Foto: Felipe Rau/Estadão – 08/05/2019

“Levanta a mão quem aqui pensa em empreender”. A provocação dirigida a universitários é feita há anos por professores dos mais variados cursos de ensino superior do País. Se antes um ou outro aluno levantava a mão, professores, coordenadores de curso e gestores de incubadoras ouvidos pelo Estadão revelam que, atualmente, de 40% a 60% de seus alunos expressam o desejo de abrir o próprio negócio ainda nos bancos das universidades.

Para ampará-los, as instituições oferecem de cursos de extensão a MBAs, de maratonas de tecnologia (os chamados hackathons) a estação de trabalho em uma incubadora da própria universidade, de disciplinas sobre o tema à substituição do TCC pela criação de uma startup como trabalho de conclusão de curso.

O fato é que a ascensão das startups seduz universitários desde o primeiro ano da graduação. Não apenas pelas cifras alcançadas (o volume de aportes em 2020 no País está em US$ 2,2 bilhões) mas pelas características do modelo de negócio. De acordo com os especialistas, o jovem universitário enxerga uma oportunidade para finalmente “trabalhar com o que gosta”, aliando propósito, agilidade na rotina de trabalho, inovação aplicada e liberdade de criação.

Flexibilidade de horários e uma cultura organizacional feita à sua maneira também entram no pacote para aliar empreendedorismo à futura carreira. “O aluno entende que pode desenvolver uma empresa relacionando-a com a sua causa e seu estilo de vida. Isso o deixa encantado”, afirma Wagner Sanchez, diretor acadêmico da FIAP.

O professor de empreendedorismo e inovação do Insper Marcelo Nakagawa observa que muitos jovens buscam por instituições de ensino que oferecem conteúdos sobre empreendedorismo antes mesmo de iniciar os estudos. “O número de jovens interessados em empreender e que busca uma faculdade para tal cresce constantemente nos últimos anos. Em geral, o futuro aluno faz uma pesquisa prévia no site da instituição buscando matérias relacionadas e apoio oferecido por ela, como centros de empreendedorismo”, diz.

“Alguns alunos são incentivados pelos próprios pais, que conhecem as condições atuais de emprego e têm noção do processo de precarização do trabalho em função da terceirização da atividade fim, trabalho intermitente, trabalho por projeto e ainda o avanço da automação e robotização de processos”, completa Nakagawa.

Para entender o ecossistema nacional, o Brasil saltou de 4.151 startups em 2015 para 13.479 atualmente, de acordo com a Associação Brasileira de Startups (ABStartups). Sobre o desejo de empreender, segundo o relatório anual do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizado no Brasil pelo Sebrae e pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), ele ocupa o quarto lugar na lista de desejos do brasileiro, atrás apenas de comprar um carro, viajar pelo Brasil e ter a casa própria.

Startup no lugar do TCC

Com a cultura das startups, os cursos de engenharia e tecnologia foram alçados ao topo da lista com maior potencial de alunos empreendedores. Competições patrocinadas por grandes empresas e até a substituição do TCC pela criação de uma startup já são uma realidade na FIAP, por exemplo. A instituição investe no contato com o ecossistema empreendedor desde o ingresso do aluno na universidade, fazendo parcerias com departamentos de inovação de grandes empresas.

“Para alunos de todos os cursos em todos os anos a gente tem um desafio proposto por uma grande empresa, no qual eles precisam trazer soluções para um problema. Já trabalhamos com Ford, Embraer, Basf, IBM, Bayer entre outras. Durante o ano, os executivos dessas empresas dão mentorias para esses alunos, validando as ideias. Ao término do ano letivo, as empresas incubam algumas delas ou mesmo contratam os alunos que a desenvolveram”, explica Sanchez. Acontecem de 30 a 40 desafios por ano na FIAP.

Há seis anos, a instituição substituiu o TCC pela criação de uma startup para fortalecer ainda mais a educação empreendedora. “O aluno recebe em sala de aula conceitos importantes para o empreendedorismo, como pitchcanvas, plano de negócios, entre outros. Nas bancas, trazemos pessoas do ecossistema empreendedor e muitas vezes sai dali algum tipo de investimento ou até o primeiro aporte dessa startup”, afirma o diretor.

Sanchez ainda ressalta que os alunos dos cursos de tecnologia enxergaram a importância de ser mais do que desenvolvedores, mas sim os donos do negócio. “Ter um profissional de tecnologia como o dono da empresa é o que ajuda a startup a decolar, porque o tempo do desenvolvimento de um aplicativo, inteligência artificial ou o que for, é o tempo do profissional de TI”

Outra iniciativa de destaque no País é a Projetão, uma metodologia criada por professores da Universidade Federal de Pernambuco para dar suporte a alunos que desejam criar uma startup. A Projetão conta com o apoio do ecossistema empreendedor local, como o hub de inovação e economia criativa Porto Digital. Uma das startups de mais destaque em segurança e performance de aplicativos no Brasil, a InLoco, surgiu por meio da Projetão (a startup recebeu aporte de US$ 20 milhões em 2019).

A aquisição de startups por grandes players do mercado também impulsiona o desejo de empreender em jovens universitários. A digitalização de serviços e produtos promoveu uma corrida pelo desenvolvimento ágil de inovação nas companhias, principalmente neste cenário de pandemia.

“O momento é marcado pelo interesse de grandes corporações em trabalhar, investir ou mesmo comprar startups. Diversos empreendedores aprenderam a ler as ondas do mercado para pegar as melhores oportunidades para empreender. Em casos assim, são empreendedores que identificam um problema do mercado, criam soluções inovadoras, conseguem fazer o negócio decolar e depois o vendem para investidores ou para corporações maiores”, explica Nakagawa.

Mas é importante ressaltar que o caminho do empreendedorismo não é tão simples assim, alertam os especialistas. Para Pierre Lucena, presidente do Porto Digital, o maior problema é a falta de investimento justamente na fase da ideação, em que a empresa está sendo criada.

“Basicamente a gente não fomenta o empreendedorismo na base e isso leva a um problema sério que é: empreender passou a ser um programa de classe média. Quem é que vai amparar financeiramente um jovem por alguns anos depois que ele se formou enquanto a empresa ainda está se desenvolvendo? Hoje não falta mais dinheiro para a empresa com modelo de negócio formado. Mas para empresas no começo não tem uma linha de fomento, absolutamente nada”, diz.

FASES DE UMA STARTUP

  1. Ideação. Fase em que é preciso colocar a ideia em prática e responder a questões importantes, como qual é o público consumidor da sua solução e como testar esse produto
  2. Operação. Partir para o trabalho de campo e colocar a solução no mercado. Além disso, muitos criadores de startups buscam programas de aceleração para impulsionar a empresa, assim como a apresentação para investidores
  3. Tração. Crescimento. Esta é a etapa em que a startup busca aumentar sua produtividade e alcançar o maior número de clientes. Nesta fase, as empresas também buscam rodadas de investimentos para alavancar o negócio
  4. Scale-up. Esta etapa tem uma fórmula exata. A startup precisa apresentar um crescimento de 20% em receita ou número de colaboradores por três anos consecutivos e estar com, no mínimo, 10 funcionários quando entrar neste período.

Estadão 

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