A reação à crise causada pela covid-19 deixou clara a mudança de foco do BNDES. O banco mirou nas empresas menores, em vez das “campeãs nacionais” e dos investimentos faraônicos em infraestrutura. Vendeu participações acionárias em grandes companhias, em vez de apoiar operações de fusão e aquisição. Nem as combalidas companhias aéreas, atingidas em cheio na pandemia, viram a cor do dinheiro da instituição.

Tudo muito diferente da crise financeira global de 2008, quando o banco foi turbinado com aportes bilionários do Tesouro Nacional – R$ 127,5 bilhões, apenas em 2008 e 2009 – e atingiu seu auge em 2010. Esse papel já tinha ficado para trás, numa guinada iniciada no governo Temer, em 2016. A partir de meados de 2019, o governo Bolsonaro acelerou as mudanças. Os empréstimos caíram para o nível dos anos 1990. O banco voltou a atuar em privatizações e concentrou esforços na estruturação de concessões.

Quando a covid-19 desabou sobre a economia global, a lembrança de 2008 e 2009 e o caixa de R$ 140 bilhões atraíram as atenções para o BNDES. Em março, dias antes de a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciar que o mundo enfrentava uma pandemia, o presidente do banco, Gustavo Montezano, descartou uma ação imediata. O papel naquele momento inicial seria manter as linhas de crédito “abertas e inalteradas”, mesmo após a covid-19 já ter derrubado as bolsas de valores mundo afora.

Menos de duas semanas depois, quando já estava claro que a covid-19 não afetaria apenas o comércio bilateral com a China ou os mercados financeiros, o próprio Montezano anunciaria, numa transmissão pela internet, as primeiras medidas do BNDES para mitigar a crise. De lá para cá, a ação emergencial do banco já somou R$ 150,6 bilhões em apoios aprovados, informa o banco.

Isso interrompeu a tendência de queda nos desembolsos, que podem ter ficado acima dos R$ 60 bilhões inicialmente projetados, mas, como sinalizou Montezano em novembro, a prorrogação das medidas emergenciais não está no radar. Tudo leva a crer que o novo papel do BNDES será reforçado.

Mesmo os números bilionários escondem um apoio mais tímido. Nos R$ 150,6 bilhões, estão incluídos valores que não são novos empréstimos operados pelo banco, como os R$ 20 bilhões repassados do Fundo PIS/Pasep, administrado pelo BNDES, para o FGTS – que depois foi liberado para os trabalhadores – ou os R$ 16,3 bilhões em suspensões de pagamentos, empréstimos que deixaram de ser cobrados de empresas e de governos.

Programa emergencial

O foco nos pequenos negócios sobressai no Programa Emergencial de Acesso ao Crédito (Peac). Principal medida de crédito contra a crise, responde por R$ 91,5 bilhões do total anunciado pelo BNDES. Mesmo esse montante partiu todo de bancos comerciais repassadores, entre públicos e privados, sem recursos do BNDES. O Peac gira em torno do FGI, um fundo de aval ao crédito que já funcionava sob administração do banco, mas era pouco usado. Em operação desde junho, após uma redução de encargos decidida pelo Congresso Nacional em agosto, o Peac decolou.

“As grandes empresas conseguiram tomar dinheiro. Foram lá nos bancões e colocaram caixa para dentro. As pequenas não”, afirmou o diretor de Crédito e Garantia do BNDES, Petrônio Cançado.

Dados do Banco Central (BC) citados pelo executivo mostram que o crédito para empresas grandes cresceu fortemente de março. A entrada do Peac e de outras linhas, como o Pronampe, operada pelo Banco do Brasil (BB), virou o jogo a partir de meados do ano. Em outubro, o saldo das operações para pequenas e médias tinha salto de 27,8% no ano, ante 11,1% para as grandes.

Por isso, para o economista Vinicius Carrasco, professor da PUC-Rio e diretor do BNDES na primeira gestão do governo Temer, o banco acertou no foco. Diante do choque da pandemia, as empresas precisavam de apoio emergencial para “fazer a travessia”. Como o risco de crédito aumentou, por causa das incertezas associadas à crise, agravando justamente o histórico problema da falta de garantias, o apoio do Tesouro foi importante.

Para Manoel Pires, coordenador do Observatório Fiscal do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), o foco foi correto, mas o governo poderia ter apostado mais em medidas de crédito com apoio do Tesouro. Em vez disso, o governo escolheu enfrentar a pandemia mais com a transferência de renda para as famílias, como o auxílio emergencial.

Risco afastou banco de grandes empréstimos

A decisão do BNDES de deixar as grandes empresas buscarem “soluções de mercado” e não facilitar na concessão de crédito acabou encontrando eco no temor, por parte dos técnicos do banco, de serem responsabilizados, no futuro, pelas decisões em torno do apoio às empresas – como ocorreu, no passado, no caso do frigorífico JBS.

Isso ficou claro na linha para o setor aéreo – um dos segmentos mais prejudicados pela crise. Em meados de junho, o orçamento do programa passou pelo Comitê Gerencial, formado por todos os superintendentes do BNDES, com três votos contrários. Segundo uma fonte que acompanhou o processo, uma das “questões de atenção” levantadas no comitê foi que o Tesouro não participaria do apoio, deixando o risco apenas com o BNDES.

Um profissional que já atuava no BNDES na crise de 2008 – e elogiou o foco atual nos pequenos negócios – ponderou que a falta de apoio para as companhias dos setores mais expostos à pandemia poderá ser um problema na retomada da economia. Como puxam a demanda em cadeias de fornecedores, essas empresas têm um papel importante para impulsionar a atividade.

Caso estejam em condição financeira frágil, podem enfrentar dificuldades, disse o executivo, que pediu para não se identificar.

Istoé 

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