O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, durante coletiva de imprensa realizada em 16 de junho em Kiev.
 AFP – LUDOVIC MARIN

Para o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, não restam dúvidas: a Rússia é a única responsável pela escassez de cereais e grãos na África. Em discurso realizado por videoconferência a líderes da União Africana, o chefe de Estado afirmou que o continente é “refém” da guerra iniciada por Moscou.

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Os países africanos enfrentam uma grave escassez de cereais e grãos e o aumento do preço destes produtos que pode agravar a crise alimentar que assola parte do continente. Antes da guerra, a Ucrânia era a a quarta maior exportadora de milho e a quinta maior exportadora de trigo do mundo. Boa parte desta produção era destinada aos países africanos, que, entre 2018 e 2020, importavam 44% de seu trigo da Ucrânia e da Rússia.

Com a guerra e o bloqueio da produção ucraniana pelas tropas russas, o preço destes produtos agrícolas deram um salto de 45%. A Rússia afirma que sua produção não pode chegar à África devido às sanções dos países ocidentais, uma justificativa rebatida pelo chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Josep Borrell.

Segundo ele, as sanções impostas pelo bloco não proíbem a Rússia de exportar grãos e cereais, desde que as pessoas ou entidades incluídas na lista europeia não estejam envolvidas nas operações. “Estamos totalmente conscientes de que há uma ‘guerra de narrativas’ sobre esta questão” das sanções, acrescentou.

No início deste mês, o presidente do Senegal, Macky Sall, que também dirige temporariamente a União Africana, foi até a Rússia conversar com o presidente Vladimir Putin. Apesar de ter sido saudada como “produtiva”, a reunião parece não ter trazido resultados práticos até o momento.

Negociações difíceis

“A África é refém daqueles que começaram a guerra contra nosso Estado”, disse Zelensky nesta segunda-feira. O aumento “injusto dos preços” dos alimentos “provocado pela guerra russa (…) é sentido de forma dolorosa em todos os continentes”, reiterou o presidente ucraniano.

Ele indicou que “negociações difíceis” estão sendo realizadas atualmente para tentar desbloquear os portos ucranianos. Segundo Zelensky, milhões de toneladas de cereais não podem ser exportadas à África rem razão do bloqueio da Rússia no Mar Negro.

“Ainda não há progressos”, disse. Para Zelensky, “a crise alimentar no mundo vai durar enquanto essa guerra colonial continuar”. O presidente ucraniano alega que a crise é provocada “de forma deliberada” pelo governo russo.

Diante dos chefes de Estado africanos, Zelensky afirmou que tenta “construir uma nova logística de abastecimento”. O líder propôs também intensificar o diálogo com os Estados-membros do grupo, nomeando dentro de breve um “representante especial da Ucrânia para a África” e realizando uma “grande conferência política e econômica” entre as duas partes.

“Alocução convivial”

O presidente senegalês, Macky Sall, saudou no Twitter a “alocução convivial” de Zelensky. Segundo ele, a África continua arraigada “ao respeito das regras do direito internacional, à resolução pacífica dos conflitos e à liberdade do comércio”. Já Moussa Faki Mahamat, presidente da Comissão da União Africana, ressaltou a necessidade de “um diálogo urgente” para “colocar fim ao conflito, permitir o retorno da paz na região e restabelecer a estabilidade mundial”.

Para Pierre Verluise, especialista em geopolítica, e fundador e diretor do site Diploweb, com o discurso, o presidente ucraniano espera obter apoio diplomático dos países africanos. “Zelesnky quer ser escutado sobre sua maneira de compreender os elementos, ou seja, a cronologia dos fatos [relativos à guerra]. Ele lembra que não foi a Ucrânia que atacou a Rússia, mas o contrário. Assim, ele ressalta que a responsabilidade das consequências do conflito é da Rússia e que a Ucrânia só espera poder exportar seus produtos agrícolas”, avalia, em entrevista à RFI.

Mais cedo, o chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Josep Borrell, afirmou que Moscou comete “um verdadeiro crime de guerra” ao bloquear as exportações de cereais e grãos da Ucrânia, e deveria ser responsabilizada por isto. “Não se pode imaginar que milhões de toneladas de trigo permaneçam bloqueadas na Ucrânia enquanto no resto do mundo as pessoas sofrem fome”, disse antes de uma reunião de ministros das Relações Exteriores da UE em Luxemburgo.

“A Rússia deve parar de brincar com a fome no mundo”, reiterou a ministra francesa das Relações Exteriores, Catherine Colonna. A chanceler francesa acrescentou que Moscou “precisa encerrar o bloqueio dos portos da Ucrânia e parar de destruir a infraestrutura de armazenamento” do país. “Deixar os cereais bloqueados é perigoso para a estabilidade no mundo todo”, acrescentou.

(RFI com agências)

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