Um casal de idosos morreu na última segunda-feira (13/04) com horas de diferença em Nova York, nos Estados Unidos, ambos vítimas da Covid-19. Eva Candelaria tinha 76 anos e morreu primeiro: o marido, Abraham, de 80, estava em um asilo e padeceu da doença horas depois, sem saber que era viúvo.

“Foi como se ela tivesse dito a ele: ‘Você vem comigo’. Como se eles tivessem entrado juntos num ônibus”, descreveu um sobrinho do casal, Frankie Correa, ao jornal The New York Times. A saga do nova-iorquino descendente de porto-riquenhos começou com a notícia da morte da tia e com a dificuldade em conseguir o serviço de cremação nas funerárias da cidade.

Com o tio internado no asilo, a família de origem porto-riquenha temia contar a ele o que havia acontecido. Por três anos, até meados de março de 2020, quando as visitas aos idosos foram proibidas, Eva percorria mais de um quilômetro e meio a pé para ver Abraham, todos os dias. O marido havia sofrido um derrame e não falava mais – mas amava receber visitantes.

O rosto dele ainda se iluminava quando ela entrava no quarto. Ela chegava e dizia ‘Me dá um beijo’, em espanhol. Ele se empertigava todo e a beijava. Ia com o andador, do mesmo modelo usado pelo Harvey Weinstein

FRANKIE CORREA, SOBRINHO DE EVA E ABRAHAM CANDELARIA

Abraham e Eva se casaram em junho de 1960: os imigrantes eram o porto seguro de outras famílias expatriadas no Brooklyn dos anos 1950. Eles tinham quatro filhos, e três deles serviram ao exército americano. Segundo Frankie, era ela quem mandava na casa.

Coronavírus

Os relatos familiares dão conta de que Eva gozava de boa saúde. Nos últimos dias de março, a família se preocupou porque a senhora, que vivia sozinha, não atendia o telefone. Um dos netos do casal entrou no apartamento e a encontrou inconsciente no chão. No hospital, receberam o diagnóstico da Covid-19.

A expectativa da família Candelaria era de que Eva recebesse alta durante a semana e pudesse continuar o tratamento da doença em casa – uma das filhas estava até mesmo procurando um livro de caça-palavras para aplacar o tédio da mãe, que sairia de uma quarentena para entrar em outra. Na manhã de segunda-feira, chegou a notícia da morte.

Os descendentes de imigrantes de Porto Rico já amargavam a morte de dois idosos da família, Titi Milagros e Antonio Aviles, ambos vítimas do novo coronavírus. “Existem rostos por trás dos números de mortes. Nós soubemos de amigos e familiares que haviam testado positivo e pensamos: eles vão se tornar esses números”, lamentou Frankie.

Depois de uma tarde em busca de um crematório para cuidar do corpo da tia, Frankie voltou para casa para descansar. Na manhã seguinte, Renee Candelaria, filha de Eva e Abraham que estava ajudando o primo com os trâmites funerários, o telefonou.

“A primeira coisa que ela me disse foi que o pai dela tinha morrido”, contou Frankie. Abraham morreu horas depois da esposa, antes mesmo que alguém o informasse que era viúvo: o idoso também padeceu da Covid-19, sem que qualquer pessoa da família tivesse reparado que ele estava com sintomas.

Frankie ligou novamente para a funerária para perguntar se havia mais uma vaga para a cremação. “O cara do 5 de maio me disse que tinha conseguido uma brecha para o dia seguinte”, lembrou. Os dois corpos foram cremados na quinta-feira (16/04), o que levou a família a um pequeno alívio em meio ao caos: o casal que permaneceu unido por seis décadas poderia finalmente descansar no mesmo lugar.

Metrópoles 

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