Equipe em Vigia tenta descobrir até se estudante mudou de endereço na pandemia: ‘Quando a aluna nos viu, começou a chorar’, lembra o professor Foto: UNICEF/BRZ/Luiz Marques

Bem cedinho, para não pegar o sol a pino, canoas e lanchas voadeiras riscam o rio. Com a barra da calça erguida até os joelhos, homens e mulheres, professores, completam o trajeto lamacento a pé ou a cavalo. O destino é a casa de crianças que vivem em regiões remotas e ficaram sem aulas no município de Itacoatiara, a 270 km de Manaus. Em várias cidades do interior do Amazonas é assim que a escola tem chegado até os alunos.

Para evitar o abandono escolar, estratégias de aproximação entre professores e estudantes na pandemia vão desde a canoa do Amazonas ao TikTok em São Paulo, rede social que virou febre entre jovens urbanos. Em um ano marcado pela falta de articulação do Ministério da Educação (MEC), o desafio das redes de ensino de Norte a Sul é resgatar alunos que perderam o vínculo com os estudos e dar àqueles que não têm acesso uma chance de aprender. Dados do IBGE de outubro indicam que 4,9 milhões de estudantes do ensino fundamental e médio não tiveram atividades escolares. As taxas são piores nas Regiões Norte e Nordeste.

“Usamos o meio de transporte que a gente puder”, diz Vanessa Miglioranza, coordenadora adjunta pedagógica de Itacoatiara. Sem recursos federais, iniciativas de municípios, escolas e até ações organizadas pelos professores ganham forma. “O importante é que a comunicação seja estabelecida com o aluno e ele seja acolhido.” No município, à beira do Amazonas, é o rio, em suas cheias e vazantes, quem impõe limites. E até os pais dos estudantes fazem o papel de motoristas dos professores, em canoas, para que eles levem planos de estudos impressos às casas dos alunos.

O risco de abandono se agrava diante do fechamento prolongado das salas de aula no Brasil – que, diferentemente de países europeus, não priorizou a reabertura de escolas na flexibilização do isolamento. Aulas remotas funcionam pouco para aqueles que mal têm sinal de celular. “Os trabalhos online não conseguiam atingir nem 50% dos alunos”, calcula Sidney Figueiredo, professor de Geografia em uma escola estadual em Careiro da Várzea, uma ilha no meio do Rio Amazonas. Com a ida dos professores até as casas, diz, a adesão chegou a 90%.

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Sidney atravessa rio para chegar mais perto de alunos Foto: João Farias

Professores em Vigia, a 77 km de Belém, no Pará, também se desdobram. Por lá, os “volantes”, carros com equipamentos de som, passam pelas ruas avisando as famílias sobre como retirar cadernos de atividades impressos. Professores saem em busca dos alunos que não devolveram nenhum material – vale até bicicleta para chegar mais rápido às casas, algumas delas em palafitas. “Tinha alunos que deixaram de estudar para pescar com os pais, alguns tiveram de ajudar apanhando açaí”, diz Juciland Diego Campos, professor de Educação Física em uma escola municipal de Vigia. A pressão para o trabalho é o que mais interrompe os sonhos dos jovens, mas até mudanças de endereço são entraves. “Quando a aluna nos viu, começou a chorar”, diz Campos, sobre o dia em que localizaram uma estudante do nono ano que havia se mudado para longe da escola e, por isso, não tinha buscado cadernos de atividades. “Ela estava preocupada, disse que não queria desistir e que nunca repetiu de ano. Quer ser advogada.”

Rural

A mais de 3 mil quilômetros dali, a professora Selma Caldas também notava dificuldades de acesso às aulas pela internet. Na escola rural onde trabalha, em Pinhão, no interior do Paraná, a maioria dos estudantes só consegue fazer atividades impressas, mas muitos não iam ao colégio para pegar os materiais porque o transporte escolar foi suspenso.

Selma usou o próprio carro e chegou a percorrer 50 quilômetros em um só dia na estrada de terra para visitar os alunos. Depois, conseguiu um veículo da prefeitura. Mesmo quem tem um celular nem sempre sabe mexer no aparelho. Quando encontrou por acaso um aluno que passava pela estrada, deu ali mesmo a “assistência técnica”. Em uma das viagens, a Kombi emprestada nem subiu o morro. “Muitas vezes o carro não chega até a casa do aluno e temos de fazer o trajeto a pé.”

O dia de buscas é cansativo, diz, mas a vista, verde de mata, e o contato com os alunos compensam. “Muitos viram a importância de estudar porque sentem que a gente está preocupada.” Apesar das tentativas, nem todos retornam. O trabalho no campo é uma força contrária. “Eles acharam uma forma de ganhar um dinheiro e agora não querem voltar”, lamenta.

Outras situações, como a gravidez precoce, dificultam. Nas pracinhas de Ituverava (SP), Renata Pontes, diretora de um colégio estadual, reencontrou alunas adolescentes com bebês nos braços – nascidos na pandemia. Docentes e diretores da escola, fechada na pandemia, nem tiveram notícia da gestação. As jovens chegavam às pracinhas atraídas por um carro de som, que anunciava: “Atenção, alunos, estamos na praça do seu bairro”. Um professor, experiente na linguagem de rádio, emprestou a voz ao anúncio.

A ideia de levar a escola para as praças da cidade começou tímida. “Será que vamos passar vergonha?”, indagava-se Renata. Depois de rodar o bairro anunciando o “plantão escolar”, era preciso pedir tomada emprestada a um vizinho para ligar a caixa de som na praça. Ali mesmo, nos bancos, os alunos tiravam dúvidas sobre as matérias ou pediam ajuda com o aplicativo de aulas remotas. Se o professor do tema mais difícil não estivesse presente, a diretora telefonava. Até as mães iam à praça para entender melhor como ficariam os estudos.

Segundo Renata, não foi simples conseguir a adesão dos professores. O medo da contaminação pelo coronavírus é uma barreira, que a diretora tentou superar equipando os profissionais e entregando máscaras também aos alunos. Para os estudantes que não apareceram, a escola agora faz o trabalho de porta em porta, mas a diretora teme o abandono. “Uma vez que o jovem se desvencilha da escola, é muito difícil voltar.”

Engajamento

Na rede paulista, 500 mil alunos não entregaram atividade até semana passada. Esses são os que mais correm risco de abandonar os estudos. Em uma rede com mais de 3,5 milhões de estudantes, o governo usa estratégias diferentes para chegar à maior parte. Neste mês, lançou campanha com influenciadores digitais, que passaram a publicar vídeos curtos no TikTok sobre como acessar a plataforma de aulas remotas durante a pandemia. Até o KondZilla, produtor de clipes de funk, entrou na campanha.

Para Ítalo Dutra, chefe de Educação do Unicef no Brasil, a questão é urgente. “Só em 2018, quase 1 milhão de crianças e adolescentes abandonou a escola. Com a pandemia ficamos mais preocupados ainda”, diz. “Não podemos deixar ninguém para trás e é preciso ir atrás já, mesmo com escolas fechadas.”

Resgate é papel de todos e MEC se omite, dizem gestores

A busca de alunos deve envolver profissionais de diferentes especialidades, como ocorre em Teresópolis, na região serrana do Rio, onde agentes de saúde foram às casas dos alunos depois que profissionais da Educação mapearam aqueles que não participavam das atividades na pandemia. O município usa a plataforma do Unicef para identificar crianças sem contato com os estudos. Também é importante que iniciativas de escolas e professores sejam apoiadas pelas redes e o governo federal, para que ganhem escala.

“O professor sozinho tem limitações”, diz Anna Helena Altenfelder, superintendente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). “Eles devem nos inspirar, mas no sentido de que cobremos das escolas, municípios, Estados e, mais do que tudo, da União políticas que possam apoiá-los.”

Presidente da União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Luiz Miguel Garcia critica a falta de ação federal para engajar estudantes. Segundo ele, os professores têm de se incomodar com as dificuldades de acesso dos alunos e a escola deve dar condições para alcançar esses adolescentes e crianças. Já as redes de ensino precisam buscar infraestrutura, como veículos, e formação de equipes. “Ao governo federal cabe dar relevância a isso, colocar a infraestrutura nacional do MEC a serviço e financiar ações.” Até agora, segundo afirma ele, não houve recursos da União. “O MEC tem adotado a ideia de que as redes são autônomas e resolvem isso sozinhas. Os recursos passados para questões de pandemia são irrisórios, desprezíveis.” Garcia, que é secretário de Sud Mennucci, no interior paulista, também critica a suspensão dos contratos de transporte escolar pelo governo de São Paulo, o que dificulta alcançar os estudantes.

O secretário de Educação de São Paulo, Rossieli Soares, disse que esses contratos serão retomados com a reabertura das escolas nos municípios que autorizarem o retorno em fevereiro, mas afirmou que não tem autorização legal para permitir o uso do transporte para entregar atividades. Ele afirma que a rede aposta em diferentes estratégias para alcançar estudantes. Procurado para comentar as ações para resgatar alunos que estão afastados da escola, o MEC não respondeu.

 

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

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