Habitantes de Pemba juntaram-se no porta da cidade para esperar deslocados que fogem de Palma.
 LUSA – LUÍS MIGUEL FONSECA

“Estou à procura do meu filho, esta é a segunda guerra que meu filho enfrenta”, conta aos prantos um dos sobreviventes do ataque jihadista à cidade portuária de Palma, no norte de Moçambique. “Ele foi solicitado no serviço dele, talvez tenha fugido do lugar em que estava”, diz José Abebe, tentando se agarrar à esperança de que seu filho não esteja entre as dezenas de mortos nesta região agora sob controle do grupo extremista.

Com Orfeu Lisboa, correspondente da RFI em Maputo, e Carina Branco

Abebe é um dos milhares de moçambicanos que tentam fugir da região dominada por jihadistas após um ataque surpresa na última quarta-feira (24). Os extremistas atacaram esta cidade de 75 mil habitantes em três frentes simultâneas. “Atiraram para todos os lados”, deixando um rastro de cadáveres nas ruas.

“Desde quarta-feira não tenho contato com minha família, nem com meus filhos, nem com a minha mãe nem com meus irmãos”, desabafa Patrício Amade.

O Estado Islâmico anunciou nesta segunda (29) que controla Palma em um comunicado transmitido pelo Telegram. O grupo diz ter atacado “quartéis militares e a sede do governo (local)”, confirmando que provocaram “a morte de dezenas de soldados moçambicanos e cristãos, e alguns cidadãos de outros países”.

O exército de Moçambique fala em dezenas de mortos, entre eles alguns estrangeiros. Mas os números reais desta tragédia ainda são desconhecidos.

Os relatos dos refugiados são de uma cidade-fantasma com cadáveres pelo chão e cenas de terror. “A minha esperança é que eles voltem vivos para Pemba, principalmente o meu tio que viu a esposa ser degolada. Não sei o que aconteceu com ele”, contou Arnaldo Júlio, ouvido pela agência Lusa.

Desde o final de semana, ONGs e agentes da ONU tentam ajudar os refugiados que deixam aos milhares essa área para se refugiar em florestas e praias próximas, e tentam agora alcançar a Tanzânia e Pemba, a capital da província de Cabo Delgado.

Uma balsa Sea Star levou no sábado cerca de 1.400 pessoas para a capital regional. E muitas canoas e barcos tradicionais cheios continuam a chegar a Pemba, segundo uma fonte envolvida nas operações de evacuação.

O socorro, no entanto, ainda não é suficiente para garantir a evacuação segura dos sobreviventes. “Passamos pela mata e vimos pessoas capturadas, pessoas que morreram. Temos muitas crianças [conosco] e precisamos de ajuda, do governo ou de alguém para poder evacuar”, solicitou Denis Iloko, que saiu de Palma.

Uma usina de gás sitiada

Desde o ataque inicial de grupos armados em Palma na quarta-feira, milhares de pessoas se refugiaram no perímetro ultraprotegido de milhares de hectares da usina de gás da empresa francesa Total, localizada na península de Afungi.

Entre 6.000 e 10.000 pessoas estão agora abrigadas dentro do complexo, ou tentando entrar, de acordo com uma fonte envolvida nas operações de evacuação que falou com a agência AFP.

A situação é complicada, ainda mais porque a usina de gás estava em construção e com as obras paralisadas há vários meses. Desde agosto de 2020 controlam o porto estratégico de Mocímboa da Praia, fundamental para a chegada dos materiais necessários às instalações de gás. Apesar de várias tentativas, os militares moçambicanos nunca conseguiram retomá-lo.

Fortalecimento jihadista

Os grupos armados, que há mais de três anos aterrorizam esta região de fronteira com a Tanzânia, intensificaram seus ataques no ano passado.

“O ataque em Palma não pode ser visto como algo isolado”, alerta o pesquisador moçambicano Salvador Forquilha. Para o especialista, este ataque “muda algo de substancial na maneira como a insurgência tem estado a evoluir no terreno e na maneira como se olha para o próprio fenômeno”.

Para o pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Econômicos de Maputo, o fortalecimento dos grupos jihadistas tem uma dimensão religiosa importante, mas também revelam uma população jovem indignada com a desigualdade do país.

“Há relatos que nos chegam de Palma que dizem que eles estavam a gritar Allahu Akbar. Não se pode minimizar isto. Há uma dimensão religiosa importante, há um processo de radicalização, sobretudo em algumas regiões de Cabo Delgado – e também Niassa e Nampula. Por outro lado, é evidente que o “boom” dos recursos naturais joga um papel muito importante no imaginário das pessoas, sobretudo quando as pessoas ouvem todos os dias que há milhões e bilhões de dólares em causa. Tudo isso tem um papel muito importante na maneira como as pessoas imaginam a situação, a sua própria condição  de exclusão, de pobreza.”

De acordo com a ONU, Moçambique tem mais de 600 mil pessoas deslocadas de suas regiões de origem por conta dos grupos armados.

Noticiário Francês

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