Brasil está no rumo de tornar-se um ‘pária desobediente de regras científicas’, diz professor

Diante do descontrole da pandemia da COVID-19 no Brasil, a União Europeia decidiu barrar a entrada de residentes do território brasileiro. Sobre isso, a Sputnik Brasil ouviu o professor de Relações Internacionais, Leonardo Trevisan, que alerta para o risco de o Brasil se tornar um pária internacional.

A decisão da União Europeia (UE), anunciada na segunda-feira (29) estabelece critérios para a entrada de viajantes no bloco europeu. Com a pandemia ainda em curso, a decisão exclui apenas 14 países da proibição.

Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da ESPM-SP, afirma que a decisão da UE é baseada em critérios rigorosos e que a exclusão de países como Brasil e Estados Unidos da lista se deve ao quadro ainda avançado da pandemia nesses lugares.

“A Europa pensou em termos de preservação ambiental, em termos de preservação sanitária, preocupações políticas e diplomáticas e necessidade de aquecer seu turismo interno, nesta ordem – em que a preservação sanitária está em primeiro lugar”, afirma Trevisan em entrevista à Sputnik Brasil.

O pesquisador ressalta que a decisão do bloco europeu leva em conta o país de residência e não a nacionalidade do viajante, uma vez que poderia haver a impressão de que o bloco estaria fazendo escolhas baseadas em nacionalidades.

“Merece toda a atenção que a referência europeia é o país de residência e não a nacionalidade. Que isso fique bem claro, para evitar qualquer mal entendido. Tenhamos sempre muito claro que o vírus não pede passaporte da pessoa para atacar, ele está atacando qualquer pessoa”, aponta, lembrando que houve exceções entre as regras impostas pelos europeus, como no casos de diplomatas, solicitantes de asilo e trabalhadores de ajuda humanitária.

Atrás apenas dos Estados Unidos, o Brasil acumula quase 1,5 milhão de casos confirmados da COVID-19 e mais de 60 mil mortes causadas pela doença, segundo os dados mais recentes do Ministério da Saúde.

Jair Bolsonaro come cachorro quente em Brasília durante pandemia de coronavírus. Foto de 23 de maio de 2020.
ADRIANO MACHADO
Jair Bolsonaro come cachorro quente em Brasília durante pandemia de coronavírus. Foto de 23 de maio de 2020.

Diante da posição europeia, Trevisan alerta que esse pode ter sido apenas o primeiro revés do Brasil no cenário internacional, devido à postura assumida pelo país em relação à pandemia.

“De algum modo o Brasil corre sim algum risco de ficar excluído nos próximos meses de várias possibilidades de viagens em diferentes países. Não nos surpreendamos se outros países importantes como o Japão, países asiáticos, ou mesmo países africanos, seguirem os critérios europeus”, avalia.

O pesquisador recorda que países muito menores que o Brasil, como o Uruguai, não foram excluídos da lista europeia, e que isso se deve à adoção de critérios científicos através, por exemplo, de um comitê de cientistas.

“Observe que os cientistas convocados não tiveram de modo algum qualquer critério de polarização política. O governo de Lacalle Pou, no Uruguai, tinha acabado de tomar posse em uma alternância de poder com um governo mais progressista, de esquerda e um governo mais conservador. Nada disso importou, seguiram critérios científicos e os resultados vieram”, aponta Trevisan.

Cemitério da Vila Alpina, zona leste de São Paulo, abre mais valas por conta das mortes por COVID-19
© FOLHAPRESS / TONI PIRES / FRAMEPHOTO
Cemitério da Vila Alpina, zona leste de São Paulo, abre mais valas por conta das mortes por COVID-19

O Brasil deveria seguir esses passos e voltar-se à adoção de critérios estritamente científicos em sua política para lidar com a pandemia, aponta o professor, que enxerga na atual postura do governo brasileiro um risco sério de o Brasil se tornar um pária internacional.

“É neste quadro que o Brasil pode se tornar um pária, um pária desobediente de regras científicas. Essa desobediência tem custo, como nós podemos ver no número de mortos tanto nos Estados Unidos, como aqui no Brasil. Não é apenas uma questão de desenvolvimento do país ou de riqueza, é uma questão de bom senso”, conclui.

Sputnik 

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