O boxeador brasileiro Paulinho Soares deixou a cidade de Sorocaba, no interior de São Paulo, no dia 28 de março para defender seu cinturão latino da Organização Mundial de Boxe em Los Mochis, no México. Mas não conseguiu passar nem pela imigração. Ele diz ter ficado detido sem explicação por 24 horas no aeroporto da Cidade do México, em 28 de março, e colocado em outro voo de volta ao Brasil no dia seguinte. “Não falaram um ‘a’ comigo do momento em que cheguei lá até o momento em que fui embora. Não deram explicação nenhuma”, contou ao UOL Esporte.

Soares viajava com seu técnico Ulysses Pereira e Mike Miranda Júnior, representante do Conselho Nacional de Boxe. Apenas Ulysses conseguiu passar pela imigração depois de apresentar um visto dos Estados Unidos, segundo Miranda. Soares e Miranda foram levados para uma sala e, duas horas depois, encaminhados para um local em que o boxeador define como “uma cela igual às das prisões”.

“Passamos por dentro do aeroporto e chegamos em uma salinha. Mandaram tirar os cadarços do tênis. O cara foi bem ignorante, tratando como se fosse bandido, como se eu estivesse levando droga ou coisa do tipo. Reviraram a minha mala de mão. A mala que eu despachei só consegui pegar no Brasil, e estava toda revirada”. Soares afirma que em nenhum momento foi explicado o motivo de ele não ser autorizado a entrar no México. “Eles não pediram nada para gente, nem exame de Covid nem nada. Não tem nenhuma relação com a pandemia, porque não me falaram nada”.

Detido junto com Soares, Mike Miranda disse ter ouvido no aeroporto que alguns voos até determinado horário estavam sendo barrados na Cidade do México por causa da pandemia. “Era algo aleatório: quatro ou cinco pessoas eram barrados e o resto passava”, explica. A pandemia fez com que Paulinho Soares sentisse ainda mais medo no período em que ficou detido no aeroporto. Ele diz ter ficado junto com outras 20 pessoas em uma cela pequena e abafada. “Não consegui nem dormir. O cara trancou a porta e ficou um calor absurdo. Eu fiquei com medo o tempo todo, não tirava minha máscara nunca, mas a gente sabe que a máscara sozinha não é suficiente. Não tinha nem o negócio de álcool em gel lá. Foi terrível”.

“A sala não tinha janela. Tinha apenas um ventilador, mas estava virado para as pessoas que já estavam lá, não ficou para nós”, completa Miranda. O Governo do México divulgou um documento no último final de semana atualizando o número de mortes pela Covid-19 e afirmando que o país pode ter ultrapassado a marca de 322 mil. A mudança representou um aumento de 60% do que vinha sido divulgado anteriormente.

De acordo com Mike Miranda, a promotora do evento em que Soares lutaria tentou resgatar os brasileiros no aeroporto, mas não tiveram sucesso. “Eu tive direito a uma ligação e avisei o pessoal da CNB e pedi para avisar a promotora do evento. Eles tentaram resolver, mas ninguém encontrava onde estávamos. Não tem um registro ou coisa do tipo sobre quem está detido. O pessoal da imigração mesmo, que estava junto com o promotor, tentou localizar a gente, mas não conseguiu”. O UOL Esporte tentou contato com o aeroporto internacional da Cidade do México por telefone e e-mail, mas não obteve resposta.

PERDA DO CINTURÃO
O impasse fez com que Paulinho Soares fosse colocado em um avião de volta ao Brasil em 29 de março. Ele chegou ao país no dia seguinte. Como sua luta contra o mexicano Alan Solis estava marcada para o dia 1 de abril, ele foi substituído pelo mexicano Jonathan Aguilar. Com isso, o cinturão latino dos penas foi considerado vago, e o brasileiro deixou de ser campeão.

“Eu fiquei sabendo que tiraram meu cinturão apenas aqui no Brasil. O Mike chegou e foi direto para uma reunião em que determinaram que a luta tinha que acontecer. Como não consegui chegar, o título ficou vago”, explicou. De acordo com Mike Miranda, o cinturão ficou vago pelo fato de Paulinho Soares não lutar há dois anos, resultado de uma lesão e a pausa pela pandemia. “Se ele tivesse defendido há três ou quatro meses, o cinturão seria mantido. Agora, ele é o desafiante obrigatório de quem vencer a luta no México. Problema é saber onde aconteceria essa luta por causa da pandemia”, explicou.

Com um cartel de 11 vitórias e uma derrota, Paulinho Soares tenta agora deixar para trás o ocorrido para continuar a carreira aos 33 anos. “Passei por coisas muito desgastantes ali. Foi algo muito ruim, que eu sei que vai ficar para o resto da vida na minha cabeça”.

Folhapress

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui