Bolsonaro diverge de recomendações da Fiocruz, como uso de máscara e o distancialmento socialImagem: Júlio Nascimento/Divulgação/Presidência

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) já discordou abertamente de sete medidas propostas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para conter o avanço da segunda onda de coronavírus que atinge o Brasil.

As recomendações foram feitas na quinta-feira (4) ao governo federal num boletim técnico que destaca as diretrizes propostas pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde. A Fiocruz entregou as avaliações ao Ministério da Saúde, aos governos estaduais e a prefeituras.

Embora tenha afirmado que não é “negacionista” de evidências científicas, Bolsonaro tem se mostrado, desde o início da pandemia, contrário a grande parte do que os cientistas defendem.

Agora vêm essas narrativas de que somos negacionistas, não acreditamos em vacinas, aquela história toda para boi dormir”Jair Bolsonaro, durante transmissão ao vivo em suas redes sociais

Das 19 recomendações da Fiocruz e do Conass, o presidente se manifestou abertamente sobre 12 temas, conforme levantamento feito UOL com base em afirmações dele. Discordou de 7 e só concordou com 2: acelerar vacinação e pagar auxílio emergencial.

As principais divergências estão ligadas ao distanciamento físico, o fim das aglomerações, o fechamento do comércio não essencial e o uso de máscaras. O presidente concorda em parte com a ampliação de leitos, mas questiona os gastos, e deu uma declaração incerta em relação à sanção de uma lei para apressar compra de vacinas. O UOL não localizou a avaliação do presidente para sete outras questões levantadas pela Fiocruz e pelo Conass.

No caso do Ministério da Saúde, a pasta comandada pelo general Eduardo Pazuello já se manifestou em 16 temas tratados no boletim. Concordou em 8, discordou em 6 e foi parcialmente favorável a 2.

Procurado, o Palácio do Planalto não prestou esclarecimentos sobre as recomendações da Fiocruz para o enfrentamento da pandemia, que está em seu pior momento, com recorde sucessivos de mortes, hospitais saturados e escassez de vacinas. O Ministério da Saúde também não se manifestou

Veja a íntegra do boletim da Fiocruz.

O que o governo já disse sobre recomendações da Fiocruz

1) “Medidas mais rigorosas de restrição da circulação e das atividades não essenciais”
Jair Bolsonaro: discorda
Já afirmou que todas as atividades são essenciais e não podem ser fechadas. Minimizou aglomerações.

Ministério da Saúde: discorda
Pazuello disse em fevereiro que restrição à circulação e às atividades comerciais foi feita sem planejamento e que é “conhecimento” que o lockdown não traz resultados. No ano passado, disse que as eleições mostraram que aglomerações não trazem “nenhum tipo de incremento ou aumento em contaminação”. “Não podemos falar mais em lockdown nem nada.”

2) Campanhas de comunicação para “reforçar a importância da vacinação” e medidas de prevenção, “em especial o adequado uso de máscaras”
Jair Bolsonaro: não se manifestou claramente
O presidente não incentiva a vacinação e sempre lembra que a imunização é opcional. Já reclamou de efeitos dos imunizantes. Não costuma utilizar as máscaras e, incorretamente, questionou o equipamento.

Ministério da Saúde: concorda
Ministério lançou uma campanha publicitária de vacinação. Ministro pede que pessoas usem máscara.

3) Higienização das mãos
Jair Bolsonaro: não se manifestou

Ministério da Saúde: concorda

4) Acelerar a vacinação
Jair Bolsonaro: concorda
Presidente diz que as vacinas serão compradas, mas há falta no mercado. Governadores reclamam da demora do governo.

Ministério da Saúde: concorda

5) Pacto nacional para enfrentar pandemia
Jair Bolsonaro: discorda
Pede mais poderes de ação, em relação a prefeitos e governadores, mas o Supremo Tribunal Federal decidiu que atuação é concorrente.

Ministério da Saúde: concorda em parte
Auxiliares de Pazuello consideram importante a coordenação nacional, mas não se sabe como seria isto.

6) Uso de máscara
Jair Bolsonaro: discorda.
De maneira incorreta, questiona o uso e raramente utiliza o equipamento.

Ministério da Saúde: concorda
Pazuello defende a máscara, embora ele participe de algumas reuniões sem o equipamento.

7) Distanciamento físico
Jair Bolsonaro: discorda
Para ele, os que saíram de casa “não se acovardaram”.

Ministério da Saúde: concorda em parte
Em janeiro, Pazuello disse que ser “papel” do indivíduo “manter o afastamento social”, sem cobranças do Estado.

8) Criar mais leitos clínicos e de UTI
Jair Bolsonaro: concorda em parte
Presidente diz que não faltará dinheiro, mas avalia que verbas do passado resolveriam “grande parte” da carência.

Ministério da Saúde: concorda

9) Testagem, rastreamento de casos e investigação de genomas; busca ativa de casos suspeitos, isolamento e quarentena
Jair Bolsonaro: não se manifestou

Ministério da Saúde: concorda
Testes foram adquiridos pelo governo, mas o rastreamento de casos não foi feito a contento, segundo epidemiologistas.

10) Pesquisa sobre novas variantes do vírus
Jair Bolsonaro: não se manifestou

Ministério da Saúde: concorda
O Ministério apoia o trabalho, mas coube a outro país rastrear a variante que circulava no Amazonas.

11) Proibição de eventos presenciais como shows, congressos, atividades religiosas, esportivas e correlatas em todo território nacional
Jair Bolsonaro: discorda

Ministério da Saúde: discorda

12) Suspensão das atividades presenciais na educação
Jair Bolsonaro: discorda

Ministério da Saúde: discorda

13) Toque de recolher nacional das 20h às 6h e durante os finais de semana
Jair Bolsonaro: discorda
Presidente ironizou: “Lembraram de mim?”, numa referência a uma argumentação errônea de que o STF tenha tirado sua competência no combate a pandemia de covid-19.

Ministério da Saúde: discorda

14) Fechamento de praias e bares
Jair Bolsonaro: discorda

Ministério da Saúde: discorda

15) Trabalho remoto sempre que possível na iniciativa privada e setor público
Jair Bolsonaro: não se manifestou claramente
Reclamou do presidente da Petrobrás, Roberto Castelo Branco, por fazer trabalho remoto e disse que “o ritmo de trabalho dos servidores” era “diferenciado”.

Ministério da Saúde: não se manifestou

16) Barreiras sanitárias em aeroportos, considerado o fechamento dos aeroportos e do transporte interestadual
Jair Bolsonaro: não se manifestou

Ministério da Saúde: não se manifestou

17) Medidas para reduzir superlotação em transportes urbanos
Jair Bolsonaro: não se manifestou

Ministério da Saúde: não se manifestou

18) Mudar leis para comprar “todas as vacinas eficazes e seguras disponíveis”
Jair Bolsonaro: não se manifestou claramente
Falou em “possível veto”.

Ministério da Saúde: concorda

19) Plano nacional de recuperação econômica, com volta do auxílio emergencial
Jair Bolsonaro: concorda
Ministério da Economia e o Congresso articulam a volta do auxílio-emergencial em quatro parcelas de R$ 250, valor sempre mencionado por Bolsonaro.

Ministério da Saúde: não se aplica

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui