Ataques pessoais a Biden podem prejudicar Trump em 1° debate presidencial nos EUA


Donald Trump e Joe Biden se enfrentam cara a cara no primeiro dos três debates presidenciais programados até as eleições de 3 de novembro.
 AP

Depois de meses de ataques cada vez mais pesados por meio de entrevistas e pelo Twitter, o presidente republicano Donald Trump e o democrata Joe Biden se enfrentam cara a cara nesta terça-feira (29), no primeiro dos três debates presidenciais programados até as eleições de 03 de novembro. O evento será realizado na Case Western University e Cleveland Clinic, em Cleveland, no estado de Ohio.

Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington

O local do debate terá uma plateia de apenas 75 pessoas, para ficar em conformidade com as medidas de distanciamento social. Mas pela televisão e redes sociais dezenas de milhões de americanos devem acompanhar o evento que pode decidir a corrida cada vez mais apertada pela Casa Branca.

Biden, que foi vice de Barack Obama e ainda sonha com a presidência depois de 47 anos em Washington, deve adotar uma estratégia ofensiva com foco na incompetência de Trump em lidar com a pandemia do coronavírus. Esse é, de fato, o ponto fraco do presidente e deve ser bem explorado pelo democrata.

Até agora, Trump ainda não respondeu de modo eficaz às críticas sobre a crise sanitária. Geralmente, ele se concentra em culpar a China e dizer que os Estados Unidos tiveram um desempenho melhor que a maioria dos outros países na resposta à pandemia. Esses argumentos, além de não serem convincentes, não servem de consolação para o eleitorado.

O debate está programado para durar 90 minutos e terá um segmento de pelo menos 15 minutos dedicado à pandemia. Para Trump, a melhor estratégia é chamar a atenção para o fato de que os estados com o pior desempenho são governados por democratas, como New Jersey, Nova York e Massachusetts.

Evitar promessa sobre vacina

O presidente americano também deve evitar a promessa de uma vacina até novembro, pois se o produto não for desenvolvido a tempo os eleitores decepcionados podem se voltar contra ele. Mas Trump é impulsivo e, provavelmente, não responderá de modo disciplinado aos ataques.

O debate será moderado pelo veterano Chris Wallace. Apesar de ser da Fox News, que é simpática a Trump, o jornalista de 72 anos respeitado pelo seu profissionalismo e imparcialidade.

Tradicionalmente, presidentes tentando reeleição não vão bem em debates. Talvez por excesso de confiança, eles têm tendência a não se preparar como devem. Até mesmo o sofisticado e professoral Barack Obama surpreendeu com um fraco desempenho em seu primeiro debate contra o milionário mórmon Mitt Romney, em 2012. Mas Trump pode ser um caso diferente. Ninguém espera que ele esteja bem preparado e seus ataques tendem a ser pessoais e não necessariamente factuais.

No entanto, o presidente precisa ter cuidado. Atacar Biden pode não cair tão bem quanto atacar Hillary Clinton, como aconteceu em 2016. O vice de Obama não desperta a antipatia dos eleitores como Hillary, que – mesmo no caso dos eleitores democratas – sempre foi vista como arrogante e com pouca empatia.

Os republicanos dedicaram os últimos meses a divulgar que Biden sofre de senilidade, sendo incapaz de articular frases completas e muito menos de ter condições de comandar o país. Mas as baixas expectativas sobre Biden podem acabar prejudicando Trump. Basta o democrata mostrar que domina bem os principais tópicos para os eleitores ficarem satisfeitos com ele. Mas há boatos fortes de que os membros da campanha democrata estão nervosos em relação ao desempenho do seu candidato que, frequentemente, parece mesmo perdido.

Eleição 2020 vai definir rumo dos EUA

Geralmente, o primeiro debate presidencial é o que atrai mais público. Em 2016, 84 milhões de americanos assistiram ao primeiro debate entre Hillary e Trump. Provavelmente, o número será ainda maior este ano, já que essa eleição vai definir o rumo que o país tomará em relação ao seu futuro, talvez mais que qualquer outra eleição em décadas.

Os dois candidatos têm plataformas baseadas em ideologias bastante diferentes quanto a como lidar com a China, organizações internacionais como a ONU e a OTAN, e até mesmo questões de injustiça social e racismo. Segundo a Pew Research, em 2016, os debates só definiram o voto de 10% dos eleitores. Mas com uma disputa tão apertada como a das eleições presidenciais deste ano, um número pequeno de votos pode mesmo definir quem vai ocupar a Casa Branca. De acordo com a última pesquisa da Harvard CAPS-Harris, Biden tem uma vantagem de apenas 2% sobre Trump em âmbito nacional.

Por outro lado, ao mesmo tempo que há eleitores curiosos para ver o desempenho de Biden hoje, pois ele não tem aparecido muito em público, especialmente nesses últimos dias, muito americanos estão com a paciência esgotada com disputas políticas. Tudo ficou extremamente politizado nos últimos anos e, agora, a política infiltrou até o mundo esportivo, com atletas profissionais se posicionando cada vez mais política e socialmente em manifestações de protesto, como se ajoelhar durante o hino nacional antes dos jogos. Essa superexposição à política faz com que muitos americanos não queiram mais saber dos candidatos a poucas semanas das eleições

“Enchi de políticos e não vou assistir ao debate. São todos corruptos e só pensam em se dar bem, não em representar o povo americano”, diz Tom Huf, aposentado do setor privado que, até recentemente, se identificava com o Partido Republicano e torcia por Trump.

Mesmo assim, debates podem gerar gafes e munições para os candidatos, especialmente no caso de candidatos de idade avançada e temperamento volátil, como os septuagenários Biden e Trump.

Impostos de Trump

No domingo (27), o The New York Times publicou uma matéria revelando que o presidente americano havia pago apenas US$ 750 em impostos federais em 2016 e 2017. Ele também não pagou imposto de renda por pelo menos uma década antes disso. A reportagem põe ainda em dúvida a imagem de multibilionário bem-sucedido que Trump gosta de apresentar aos eleitores.

Certamente, durante o debate, Trump será questionado sobre as denúncias da matéria. E essa será uma armadilha difícil de o republicano escapar. A denúncia não é nova. Em um debate com Hillary, em 2016, a ex-secretária de Estado praticamente fez as mesmas acusações feitas agora pelo diário. Trump respondeu na época que ter feito o que ela apontava provava que ele era esperto.

Agora, após as revelações do jornal, o presidente americano diz que tudo não passa de fake news e que as informações foram obtidas ilegalmente, o que não faz muito sentido. Afinal, se os dados fossem falsos, eles não precisariam ser obtidos ilegalmente. No entanto, é pouco provável que as informações divulgadas pelo New York Times mudem votos.

As alegações estão longe de ser bombásticas e os americanos não parecem espantados com as revelações do diário. Se Trump for confrontado sobre sua conduta fiscal indevida, ele provavelmente acusará Biden de corrupção enquanto era vice ao ter possibilitado que seu filho Hunter conseguisse contratos milionários com empresas estrangeiras. Portanto, pode ser que Biden prefira não seguir esse caminho.

Integridade do processo eleitoral preocupa

Tópicos que podem influenciar mais os eleitores, e que sem dúvida, também devem fazer parte do debate, são a nomeada para a Suprema Corte – a juíza conservadora Amy Coney Barrett – economia, saúde e integridade do processo eleitoral. Além, é claro, da visão política e social dos dois candidatos para o futuro dos Estados Unidos, que é algo que tem deixado muitos americanos temerosos.

Mas não será uma surpresa se os candidatos decidirem deixar o conteúdo de lado e partirem somente para ataques pessoais. Na véspera do debate os dois candidatos já estavam afiando as garras pelo Twitter. Na segunda-feira (28), Biden tuitava que Trump sonega impostos e quer tirar o acesso à saúde dos americanos. Enquanto isso, o presidente americano desafiava seu rival a fazer um teste antes do debate para provar que não está sob a influência de drogas.

Não apenas os eleitores como também os políticos estão duvidando que o resultado das eleições seja claro e conhecido imediatamente após 3 de novembro. Trump já disse que não pode garantir que irá aceitar os resultados.

Os democratas parecem seguir a mesma linha. Hillary Clinton disse que Biden não deve conceder a vitória a Trump sob hipótese alguma. A líder da Câmara, Nancy Pelosi, recentemente enviou um comunicado aos seus colegas democratas alertando que se nenhum dos candidatos conseguir garantir pelo menos 270 dos 538 colégios eleitorais necessários para vencer a eleição, até 06 de janeiro de 2021, a decisão será feita pela Câmara.

Pelosi lembrou que é importante seu partido manter a liderança da Câmara e a maioria da delegação de cada estado. No caso de os resultados não serem conhecidos antes de 06 de janeiro, cada estado teria um voto. Até agora, os republicanos têm 26 das delegações estaduais, enquanto os democratas contam com 23. O estado da Pensilvânia tem uma delegação dividida. Essa situação, combinada com o volume enorme de votos pelo correio, tem tudo para formar um clima de desconfiança no país.

Por:Ligia Hougland

Noticiário Francês 

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