Júnior Negão já foi do céu ao inferno no futebol brasileiro. Amadureceu no exterior e virou ídolo na Coreia. Antes disso, porém, já foi recusado no país. No último fim de semana, fez dois gols e, na comemoração, mandou força, e esperança, a um Brasil que sofre com a pandemia do coronavírus.  Vale a pena ouvir a história do baiano de alma manauara. Júnior Negão começou a se destacar no Nacional do Amazonas. Seus gols logo o fizeram dar um salto na pirâmide do futebol brasileiro.

“Comecei lá em 2006, no Nacional. Lembro que fomos muito bem na Copa São Paulo, ganhamos do Atlético Mineiro. Quando voltei, fui integrado ao plantel principal. Fiz um excelente Estadual e, no ano seguinte, já fui ao Atlético Mineiro.

Fui campeão mineiro com o Atlético em 2007”, recorda, em conversa com a reportagem de oGol. 2007 começou com título para o atacante, mas terminou com rebaixamento. Júnior Negão deixou Belo Horizonte para vestir o alvinegro do Corinthians, que acabou por cair no Brasileiro.  “Imagina a cabeça: saindo de Manaus,

lugar sem tanta expressão no futebol nacional, e ir para os maiores clubes do país… No momento em que o Corinthians estava em uma situação muito difícil… Foi um tempo de aprendizado, dificuldade, pressão, como a gente costuma dizer, fui do céu ao inferno. No início de 2007 tinha sido campeão com o Atlético e no final, fomos rebaixados com o Corinthians.

Mas procurei tirar o máximo de coisas boas daquele ano, coisas que me ajudaram muito para que eu pudesse amadurecer a minha carreira”, recorda.  Depois da passagem pelo Timão, Negão rodou aqui e ali no futebol brasileiro. Mas as experiências fora do país o atraíram.  “Sempre tive a vontade de jogar fora do Brasil, justamente para ter a experiência que eu achava que tinha que ter de jogar fora do país.

Quando era mais novo, antes mesmo de ir para o Corinthians, fiz testes em clubes na Coreia. E depois, quando acabou o contrato no Corinthians, pintou a oportunidade de ir para Portugal, aceitei o desafio e foi um tempo muito bom de experiência. Muita gente acha que só adquire experiência jogando. Mas você participando das coisas, você aprende. Porque você vive o dia a dia ali. Apesar de ter jogado pouco, tanto no Corinthians, quanto em Portugal, foi um tempo que aprendi muito.

Em 2010, já fui para a Bélgica mais cascudo e fui muito bem, fiz boa temporada e logo depois pintou a oportunidade de ir para a Suíça. Fiz um primeiro semestre bom, mas acabei machucando e fiquei boa parte da segunda temporada machucado”, contou.  De rejeitado a ídolo na Coreia  A relação de Júnior Negão com o futebol coreano começou ainda em 2006. Um personagem ganha protagonismo na história do brasileiro por lá:

Cho Kwang-Rae. No final de 2006, pintou a oportunidade de fazer um teste em um time da Coreia. Eles estavam fazendo pré-temporada no Chipre e fui lá. Fiz o teste lá e o treinador (Cho Kwang-Rae) falou para mim: ‘Desculpa, você é bom tecnicamente, mas acho que você não tem o estilo da Coreia’. Tudo bem, voltei ao Brasil. Quando foi em 2017, fui contratado pelo Daegu. No dia que fui assinar o contrato, encontrei o presidente, e o presidente do Daegu era o treinador do time que fiz o teste e que me recusou.

O cara que me recusou dez anos antes foi o cara que me contratou. São histórias que o futebol proporciona”, revela o brasileiro.  Antes de chegar no Daegu, Júnior Negão passou ainda pelo futebol tailandês. O atacante garante que sua experiência acumulada o ajudou a ter sucesso na Coreia.

“Toda a experiência que adquiri jogando no Brasil, Portugal, Bélgica, Suíça, tudo isso me ajudou na minha passagem pela Ásia. Pude usar toda a experiência que tive para me adaptar o mais rápido possível no futebol asiático. Cheguei na Tailândia e pude estudar para ver como os tailandeses jogam.

Qual era o principal ponto forte dos tailandeses, os pontos fracos. Coisa que não tive experiência para fazer, por exemplo, em Portugal. Fui muito bem na Tailândia”, recorda. Apesar de marcar 12 gols em sua primeira temporada na Coreia, uma lesão no joelho acabou atrapalhando um pouco a passagem de Júnior Negão no Daegu.

“Na transição da Tailândia para a Coreia, tive a infelicidade de, no primeiro jogo, machucar o joelho. Foi uma lesão séria que, graças a Deus, não precisou de cirurgia, mas que me tirou dos jogos por quatro meses. Acabei voltando no segundo semestre e fui muito bem. O fundamental foi que fui muito bem recebido. Falei do presidente do Daegu, e ele foi um cara fundamental aqui na Coreia.

Me deu todo o suporte para eu me adaptar. É um cara que foi treinador da seleção coreana e hoje é presidente do Daegu. Tem uma experiência enorme e me ajudou muito. É um cara muito respeitado e tem me ajudado mesmo eu jogando contra”, garante. O brasileiro foi recebido também bem no Ulsan Hyundai, seu clube desde 2018.

Foram 47 gols marcados nas duas primeiras temporadas do atacante no futebol coreano. Em 2020, além de mais gols, Negão quer o título que bateu na trave nas últimas temporadas. O início foi promissor: dois gols, uma assistência e goleada na estreia.  “Tivemos quatro meses de pré-temporada. Imagina a vontade que a gente estava de voltar a jogar… Graças a Deus, deu tudo certo.

Dois gols, assistência, vitória, uma vitória para dar confiança. Estamos com uma expectativa boa. Estou indo para o terceiro ano no Ulsan. Em 2018, ficamos em terceiro. Ano passado, segundo, perdemos o título na última rodada. Aí esse ano, acaba criando uma expectativa enorme para ser campeão. Até em metas pessoas. 2018, terceiro lugar na artilharia. Ano passado, segundo. Imagina a expectativa para esse ano… Mas a gente está bem otimista, estamos com um time muito forte. Tem tudo para a gente conquistar esse título tão esperado no Ulsan. Começamos bem, agora é continuar até o final”, decretou.

O novo normal e o coração no Brasil Júnior Negão contou para a reportagem como foi esse  retorno do futebol na Coreia. “O novo normal”, como chama Negão, teve muito respeito aos protocolos. “Foi bem diferente do normal, mas creio que esse deva ser o novo normal. Além dos portões fechados, tiveram vários protocolos de segurança impostos pela federação.

Primeiro, os testes: todos os jogadores, comissões, dirigentes de todas as divisões foram testados. Só depois que todos os testes deram negativo foi que confirmaram o começo da liga. Um dia antes do jogo, tivemos de medir a temperatura. Antes do café da manhã, no dia do jogo, medimos a temperatura de novo. Quando chegamos ao estádio e depois do jogo, medimos mais uma vez.

Além das pessoas que trabalham no estádio terem trabalhado em número reduzido, a gente via a rigidez e respeito às regras. Distanciamento, até em entrevistas… Foram vários protocolos que foram impostos. No vestiário, também, tivemos a recomendação de evitar comemoração se abraçando, evitar cuspir no gramado, evitar falar com os adversários, dar a mão, que era protocolar antes das partidas…

Foram vários protocolos diferentes,e  acho que agora esse vai ser o ‘novo normal’ dos jogos. Temos de nos acostumar”, revelou. Nos gols que fez, Júnior Negão levantou a camisa para mandar um recado de força, e esperança, ao Brasil.

De longe, o brasileiro acompanha a difícil situação do país durante a pandemia.   “A comemoração surgiu justamente por eu estar acompanhando o que está acontecendo em Manaus, que digo que é a minha cidade. Aproveitei que muita gente ia estar olhando o campeonato coreano, um dos poucos que estão voltando, tive a ideia de mandar esse recado não só para o povo manauara, mas o Brasileiro.

Tenho visto coisas e estou muito preocupado com a situação do país. Foi o jeito que encontrei de ajudar de uma certa forma, porque sei que, em um momento tão difícil, uma palavra de conforto, de força, de esperança pode ajudar a gente superar tudo isso. Foi o recado que quis passar”, garantiu.  Além de força e esperança, Júnior Negão traz também da Coreia o bom exemplo. O país vem passando de forma exemplar pelo período da pandemia.  “Futebol, a gente tem todo ano. Daqui a pouco, o mundo todo volta a jogar.

O mais importante foi o exemplo da Coreia. De como eles conseguiram controlar o vírus o mais rápido possível. Os métodos que a Coreia usou para controlar o vírus o mais rápido possível. Foi a mensagem que tentei passar, para ver se a gente consegue pensar mais no próximo, pensar no outro. No caso da pandemia, pensar nas pessoas no grupo de risco. Inclusive minha mãe pertence a esse grupo.

Foi a minha ajuda para que a gente enfrente essa pandemia de forma mais leve, menos traumática para todo mundo”, opinou o brasileiro. Júnior Negão tem os olhos, e o coração, no Brasil. Lamenta o descaso, as mortes e a indiferença. “Ainda vejo que a gente não está tendo essa consciência. Achar que: ‘Ah, só porque não sou do grupo de risco, posso ir para a rua e ajudar a espalhar o vírus e acabar atingindo alguém do grupo de risco e aí acaba acontecendo o pior’.

O que me assusta é isso, ver as pessoas, em meio ao pico da pandemia, desdenhando disso tudo. Preocupante. Infelizmente, a gente vai aprender do pior jeito que tem”. Apesar disso, faz questão de deixar uma mensagem positiva, como fez na comemoração do gol.

A esperança de um mundo melhor, mesmo que em uma nova realidade.   “Desejo, de verdade, que a gente consiga repensar, depois da pandemia, nossas atitudes para o bem comum. Acredito que depois dessa pandemia, seremos uma sociedade totalmente diferente, e de forma positiva. Realmente, não imaginava que a comemoração iria ter a proporção que teve, mas fiquei feliz, porque atingiu muitas pessoas. Isso me deixou feliz”.

O Gol 

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