Agressão de produtor musical levanta debate sobre racismo velado da polícia na França


A questão do racismo dos policiais foi pouco abordada no caso da agressão do produtor musical (imagem de ilustração)
 REUTERS – GONZALO FUENTEs

O presidente francês Emmanuel Macron se disse “consternado” com as cenas da agressão de um produtor musical negro, brutalmente espancado por um grupo de policiais. Além de levantar novamente o debate sobre a violência das forças de ordem no país, o episódio também traz à tona a questão do racismo velado entre os agentes.

O produtor musical Michel Zecler, 41 anos, foi espancado no sábado (21), após ter sido abordado pela polícia em um bairro nobre de Paris quando entrava em seu próprio estúdio. Segundo as forças de ordem, ele teria sido parado por que estava sem máscara de proteção e, ao reagir à abordagem, teria sido “imobilizado”. Zecler chegou a ser levado a uma delegacia, onde um inquérito por violência e rebelião contra os policiais foi aberto.

Porém, a cena foi filmada pelas câmeras de segurança do estúdio e as imagens mostram uma outra versão da história. No vídeo, é possível ver que os policiais entraram no estúdio de Zecler e começaram a espancá-lo sem que o produtor tenha reagido. Durante a ação, também pode-se ouvir os policiais proferindo vários insultos racistas contra o produtor.

Em seguida, os agentes jogaram uma bomba de gás lacrimogêneo dentro do estúdio para forçar o produtor, e também um grupo de jovens que estava no local, a sair do prédio. O resto da cena, que já se passa do lado de fora do estúdio, pôde ser filmada pelos vizinhos, e mostram que os policiais, um deles a paisana, continuaram batendo em Zecler.

Após a divulgação das imagens pelo site independente Loopsider, os quatro policiais diretamente envolvidos na ação foram suspensos. E nessa sexta-feira (27) os agentes foram detidos para um interrogatório na sede da Inspeção Geral da Polícia Nacional (IGPN).

As imagens de Zecler, com o rosto ensanguentado, cheio de feridas, chocaram a opinião pública. Além de políticos, celebridades, cantores e até astros do futebol, como Kylian Mbappé, reagiram com indignação ao vídeo.

O direito de filmar

O episódio acontece em um momento delicado na França. Depois de vários casos de agressões cometidas por policiais durante manifestações nos últimos anos, esta semana uma operação de desmantelamento de um acampamento ilegal de imigrantes no centro de Paris virou quebra-quebra generalizado e policiais foram filmados, mais uma vez, em situações de violência extrema. 

Além disso, a agressão de Zecler acontece quando o governo francês está debatendo um polêmico projeto de lei de segurança nacional. Um texto que visa, entra outras coisas, dar mais direitos à polícia, inclusive proibindo que as ações dos agentes possam ser filmadas.  

O governo alega que a medida visa proteger os policiais, que muitas vezes têm suas imagens divulgadas nas redes sociais e que, em seguida, são perseguidos. Mas para a opinião pública, além de a medida ser vista como uma forma de censura, ela poderia contribuir para ocultar casos de uso desproporcional de violência, como mostram as imagens da prisão de Zecler.

Nesse contexto, a agressão do produtor musical aparece como uma prova da importância em se manter o direito de filmar uma ação policial. O próprio ministro francês da Justiça, Eric Dupond-Moretti, disse ter ficado “escandalizado com as imagens” da agressão de Zecler e reconheceu que, se a cena não tivesse sido gravada, talvez ninguém saberia o que realmente aconteceu.

Insultos racistas

Porém, ao contrário do que aconteceu na morte de George Floyd nos Estados Unidos, ou no caso de João Alberto Silveira de Freitas em um supermercado Carrefour em Porto Alegre, o fato de Zecler ser um homem negro agredido por policiais brancos vem sendo pouco tratado até agora. Uma das explicações está ligada a uma especificidade francesa: a questão racial muitas vezes é vista como um tabu e a grande mídia raramente descreve as pessoas em função de critérios étnicos.

No país da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, separar as pessoas entre brancos, negros ou outro, seria reconhecer que nem todos estão no mesmo patamar. Prova disso, o censo francês não revela a composição étnica da população e estatísticas raciais são proibidas no país.

No entanto, o caso de Michel Zecler evidencia que a questão do racismo é latente na França, inclusive entre as forças de ordem. Principalmente quando, durante os cinco longos minutos em que o produtor foi espancado, o insulto mais proferido pelos policiais foi “preto sujo”.

Na noite desta sexta, uma carta aberta sobre a dimensão racial do caso foi publicada no jornal Libération. Intitulada “A polícia francesa é gangrenada pelo flagelo do racismo e da violência”, o texto, assinado por um coletivo encabeçado por Dominique Sopo, presidente da ONG SOS Racismo, e outras personalidades, a maior parte delas engajadas em causas antirracismo, é explicito:

“A França tem um problema de racismo dentro de suas forças de ordem e o poder público se recusa a tratá-lo, abordando o assunto com palavras um pouco mais firmes apenas quando é preciso passar a tempestade após um escândalo midiático preciso”, dizem os autores, acusando o país de ser um dos raros, entre as grandes democracias ocidentais, a negar a realidade do racismo dentro da polícia. “Isso nos leva a questionar se nossos governos, ao recusarem tratar esse flagelo, não traem uma verdade: a dificuldade em considerar que aqueles que são vítimas desse flagelo são cidadãos como todos os outros”.

Por: Silvano Mendes

Noticiário Francês 

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