Reservistas das Forças de Defesa da Ucrânia fazem exercícios militares nos arredores de Kiev, em 10 de abril de 2021. REUTERS/Valentyn Ogirenko/File Photo
 REUTERS – VALENTYN OGIRENKO

No final da semana passada, o embaixador da Ucrânia em Berlim, Andriy Melnyk, fez um apelo dramático ao governo alemão, que continha também uma ameaça. Melnyk pediu a Berlim que pressionasse os Estados Unidos e os demais países da OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, para que aceitassem seu país como membro da aliança militar.

Hoje a Ucrânia é uma “aliada” da OTAN, mas não um membro pleno. Caso contrário, insistiu o embaixador, o governo do presidente Volodymyr Zelenski poderia considerar a compra de armas nucleares para defender-se de uma possível agressão russa contra seu território.

Não é possível determinar com precisão a verossimilhança da ameaça, pois, tanto quanto se sabe, não há uma feira livre, sequer um mercado paralelo, onde se possa adquirir tais armas. Mas nunca se sabe…

A afirmação belicosa do embaixador chega a contradizer a proposta feita por Zelensky ao presidente francês Emmanuel Macron e à chanceler alemã Angela Merkel, de que convocassem um encontro de cúpula com o presidente russo, Vladimir Putin, na tentativa de reverter o clima de escalada militar entre Moscou e Kiev, capital da Ucrânia. 

Escalada de tensão

Esta escalada se intensificou nas últimas semanas na região da fronteira entre os dois países, conhecidas como Donbass, no leste da Ucrânia. Os Estados Unidos e outros países da OTAN vêm acusando a Rússia de estar aglomerando tropas de infantaria, blindados e artilharia no seu lado da fronteira, o que poderia levar a uma agressão contra o território ucraniano.

Na região de Donbass há movimentos separatistas que detêm o controle sobre duas grandes cidades: Donetsk, cuja área metropolitana tem 2 milhões de habitantes e Luhansk, com 400 mil. E a OTAN acusa também a Rússia de armar e financiar estes movimentos.

Além desta questão separatista, por trás do conflito está também o fato de que nem Washington, nem a OTAN ou a União Europeia digeriram a anexação russa da península da Crimeia, em 2014, depois da queda do governo pró-russo em Kiev durante uma controversa revolta conhecida como “A Revolução da Dignidade”.

Para seus adeptos, a revolta foi levada a cabo por “heróis da democracia”. Para os contrários, os revoltosos não passavam de milicianos fascistas com treinamento militar.

Anexação da Crimeia

O fato é que, mesmo sem concordar, é fácil compreender por que na sequência a Rússia se apressou a anexar – na verdade, re-anexar a Crimeia. Esta península é vital para o controle do estreito que liga o Mar de Azov ao Mar Negro que, por sua vez, se liga ao Mediterrâneo, acesso considerado vital para a Força Naval Russa e sua base  de Tartus, na costa Síria.

A Crimeia era parte da Rússia e depois da antiga União Soviética. Ninguém até hoje entendeu muito bem por que razão Moscou decidiu entregar a península para a Ucrânia em 1954, então parte da União Soviética. Há até quem conteste a legalidade e a legitimidade daquela decisão, uma vez que não houve qualquer consulta à população local sobre o tema.

Surgiu um movimento na península reivindicando maior autonomia em relação a Kiev, mas ele ficou rodando em falso depois do fim da União Soviética em 1989, e deu-se por assente que ela pertencia “definitivamente” à Ucrânia.

Porém a seguir da anexação ou re-anexação russa, um plebiscito na região deu vitória a esta por larga margem de votos – plebiscito este contestado pela Ucrânia, Estados Unidos e União Europeia.

Desde 2014 as Forças Armadas da Ucrânia vêm recebendo treinamento por parte da OTAN e equipamentos militares dos Estados Unidos. Ainda assim, elas não são consideradas um páreo para as Forças Russas.

Por sua vez, Moscou nega que a movimentação de tropas do seu lado da fronteira tenha propósitos agressivos, sendo, ao contrário, de caráter defensivo. É muito difícil saber com clareza o que, nesta movimentação toda, é blefe, retórica ou ameaça real.

Resolução do conflito

O que é certo é que, em todos os lados envolvidos, há disputas internas entre os que defendem esforços diplomáticos para resolver o conflito ou pelo menos apaziguar a tensão, e os chamados “Falcões da Guerra”, que pretendem ganhar posições e ditar as regras políticas que devem prevalecer.

Outra certeza é a de que, se a Rússia se opõe vigorosamente à entrada da Ucrânia na OTAN, por temer a instalação de forças militares e mísseis hostis a 500 km de Moscou, imagine-se o que ela fará se Kiev pretender, de fato, concretizar a ameaça do embaixador em Berlim sobre a hipotética compra de armas nucleares.

Noticiário Francês 

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