Autor defende liberdade de expressãoMarcos Santos/USP Imagens

Um amigo conta a história de que recebeu em casa um repórter de um grande jornal de São Paulo, para dar uma entrevista. E que a primeira pergunta foi: “Qual seu lugar de fala?”

É uma pergunta estranha, por 2 motivos. A primeira diz respeito ao profissional: se um jornalista vai entrevistar alguém, deve saber por que está fazendo isso e qual é a contribuição que o entrevistado pode dar.

A segunda estranheza é condicionar as respostas de um entrevistado ao que ele pode ou não pode responder, segundo o que seria sua posição, segundo certos determinantes. Por exemplo, você só pode falar de pretos se for preto, de gays se for gay, e assim por diante.

Meu amigo, que é preto e homossexual, respondeu que seu lugar de fala é a boca. E a entrevista acabou ali.

É difícil aceitar que esse tipo de preconceito e pressão possa ser incorporado até mesmo por alguém que trabalha na imprensa, em cuja essência está a liberdade, justamente, de expressão.

Essa história me lembrou de outra, quando lancei, pela editora Record, o romance Anita, sobre Anita Garibaldi, a grande heroína brasileira. Uma leitora do livro me escreveu reclamando que eu não podia ser feminista –e que, para ser feminista, eu tinha de “nascer de novo – e mulher”.

Supostamente, o feminismo é um movimento de aceitação da igualdade, direitos e respeito por parte dos homens em relação às mulheres. Se esse objetivo é impossível de ser alcançado, já que um homem não pode nascer de novo, para que serviria então o feminismo? Emascular os homens? Criar a igualdade com um mundo somente de mulheres?

A resposta me parece mais esta: o feminismo radical serve somente para alimentar o ativismo de quem o promove e dele vive. E prejudica as boas e justas intenções de quem acredita, solidariza-se e luta com os movimentos igualitários.

Mas que direito ou moral eu tenho de escrever isso? Essas divagações me fazem pensar sobre qual é o meu próprio “lugar de fala”.

Nasci e cresci na ditadura militar, quando havia censura na imprensa: o governo é quem determinava o que a gente podia ler ou ver na TV. E censurava também o que se podia falar. A pena era a prisão, arbitrária por definição, muitas vezes com tortura, algumas vezes a morte.

Como estudante, participei do movimento pacífico das Diretas Já e da redemocratização. Como jornalista, ganhei um prêmio Esso pela cobertura da primeira eleição presidencial em 30 anos, restabelecendo a plena democracia no Brasil, coroamento da volta ao estado de direito, que protege, entre outros princípios, o da liberdade plena de pensamento e expressão.

Essa época de liberdade política foi também de prosperidade e liberdade econômica. O brasileiro passou a poder comprar mais artigos importados, viajar com cartão de crédito, em vez de ter que levar dólares amontoados na cueca, além de comprar, ler ou falar tudo o que desejava.

A isto acrescento, como crédito, meus livros de reportagem e também os romances, onde trato de assuntos humanos os mais diversos, muitas vezes por meio de personagens negros, mulheres e todo tipo e matiz de gente a quem damos vida na ficção, a quem o ficcionista se permite interpretar.

Para fazer isso, exercitamos o conhecimento de nós mesmos e do outro. Aprendemos pela experiência alheia e também podemos transmitir, no romance, algo para entretenimento e também benefício dos leitores, que assim podem conhecer um ponto de vista diferente.

Acredito que esse histórico me coloca no “lugar de fala” de quem pode justamente falar sobre a liberdade, de poder falar e escrever sobre o que quisermos, com direito ao pensamento e expressão próprias.

Claro que a liberdade de expressão não se trata, como certo deputado que acabou preso recentemente, de fazer falsas acusações, ofender pessoas ou incitar à população ao crime e à violência. Isso não é liberdade. É a atitude dolosa que visa a colaborar para a disseminação da intolerância, cujo fim é justamente o tolhimento da liberdade, inclusive a de expressão.

Não é pela proibição da opinião, sobre qualquer assunto que seja, que se protegem pessoas, quaisquer que sejam. Ninguém tem o direito de mandar alguém calar a boca sobre nada. Ao contrário. Qualquer progresso depende da aceitação da diversidade e do diálogo, com quem quer que seja.

Tentar compreender o outro, aceitar as diferenças e sobretudo respeitar a posição e opinião alheias é que nos leva à condição de civilizados. Já constranger a opinião, patrulhar e procurar doutrinar o público geralmente são instrumentos não para a defesa de direitos, e sim da criação e proteção de privilégios.

Uma das formas de defender privilégios é alimentar a intolerância, que quebra a regra da igualdade, colocando uns como supostamente melhores que outros. A outra maneira de proteger privilégios é proibir, cercear ou intimidar a livre opinião.

A liberdade de falar, inclusive o direito à crítica, faz parte da sociedade democrática. Quem pode falar, tem de saber ouvir. O lugar de fala de todo cidadão é o da liberdade, dentro dos limites éticos e da boa educação.

Para quem se sentir ofendido ou prejudicado por aquilo que alguém fala, existe o recurso da lei –que está aí para dirimir as situações em que o bom senso não prevalecer. No mais, resta a opção ainda de morar no mato, isolado, com os mosquitos e os macacos, mas mesmo estes têm opinião.

Poder360

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