Cabo Verde vai às urnas neste domingo para eleger novo Parlamento e primeiro-ministro
As eleições parlamentares em Cabo Verde acontecem neste domingo (17). Estão em jogo 72 cadeiras na Assembleia Nacional, que definirão o próximo primeiro-ministro. O atual chefe de governo, Ulisses Correia e Silva, e seu partido, o Movimento para a Democracia (MpD), de direita, enfrentam o rival Partido Africano para a Independência de Cabo Verde (PAICV), de centro-esquerda, liderado por Francisco Carvalho, atual prefeito da capital, Praia.

Militantes do PAICV (no alto) et do MpD (abaixo), nas eleições anteriores em Cabo Verde, em 2021. (Imagem de ilustração) © Photos AFP – Montage RFI
Mais de 400 mil eleitores estão registrados para votar em um pleito considerado “decisivo para o país”, que ocorre no momento em que se celebram os 35 anos da transição democrática e os cinquenta da independência nacional, completados em 2025. Ao todo, cinco partidos participam da disputa.
Nas pesquisas divulgadas ao longo da campanha, os dados apontavam para uma disputa polarizada, mas com vantagem para o governista MpD, seguido de perto pelo PAICV. No entanto, o alto índice de indecisos e a abstenção podem ter peso crucial no resultado, refletindo uma preocupação generalizada dos analistas políticos locais com o engajamento do eleitorado.
Tensões políticas e acusações mútuas
Embora Cabo Verde seja reconhecido por sua estabilidade democrática, a campanha eleitoral foi marcada por tensões. O PAICV, que se recusou a participar de um dos debates na televisão nacional, acusou o MpD de usar recursos do Estado para impulsionar sua candidatura.
O partido no poder, por sua vez, atacou diretamente Francisco Carvalho, acusando-o de “contornar a lei”. Em Cabo Verde, o código eleitoral proíbe que prefeitos em exercício concorram a cargos legislativos sem renunciar. Carvalho, contudo, optou por não deixar o cargo de maneira definitiva e nomeou um substituto temporário na prefeitura da capital.
Os programas políticos das duas principais forças são completamente opostos. Sob a bandeira “Cabo Verde em Frente”, o MpD baseou sua campanha no forte desempenho econômico recente, na redução do desemprego e na recuperação do turismo – setor que representa 20% do PIB e que foi severamente afetado durante a pandemia de Covid-19. Cabo Verde registrou um crescimento econômico de 7,2% em 2025 e ostenta um dos maiores PIBs per capita da África, alcançando US$ 4.475 (cerca de R$ 22.800)
Durante os comícios, o primeiro-ministro apelou pela continuidade: “Queremos continuar a governar Cabo Verde, garantindo que o país possa continuar a crescer, reduzir a pobreza, aumentar o emprego para os nossos jovens e elevar o rendimento da população”, disse Correia e Silva. As principais promessas do MpD incluem o aumento do salário médio em 30%, a fixação do salário mínimo em US$ 267 (cerca de R$ 1.350) e o reforço da segurança pública.
Segurança e transporte no centro do debate
A segurança, aliás, foi um ponto central do debate e um argumento também adotado pelo PAICV. O partido de esquerda concorre com o slogan “Cabo Verde para Todos” e foca em uma plataforma social que promete amplo acesso à saúde, ensino superior gratuito e o compromisso de conter a inflação.
Outra bandeira fundamental da oposição é a melhoria das conexões dentro do arquipélago, por meio da reestruturação dos transportes marítimo e aéreo e da redução do preço das passagens para os residentes.
“É evidente que Cabo Verde não pode mais continuar neste caminho. Há questões urgentes que precisam ser abordadas diretamente para melhorar a vida das pessoas. Transporte mais barato e ensino universitário gratuito são investimentos para o país, para a sua juventude. Queremos um governo sério e responsável”, declarou Francisco Carvalho nas redes sociais.
Apesar da troca de acusações, o período pré-eleitoral transcorreu de forma pacífica nas ruas. Para garantir a transparência do escrutínio, as autoridades locais contam com o apoio da União Africana e da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao). Cerca de 160 observadores internacionais das duas instituições foram distribuídos pelas dez ilhas do arquipélago.
A votação será acompanhada com atenção especial na ilha de Santiago, a principal do país, que elege 33 dos 72 parlamentares. Já os eleitores que vivem no exterior, apesar de representam 17% do eleitorado total registrado, têm direito a eleger apenas seis deputados.
Por Guillaume Thibault, da RFI.




